CARTA DE BRAGA -“o paradoxo do andaime”- por António Oliveira

Estava muito longe de poder evocar nesta prática de pensamentos e ideias, o nome de Guy Debord, o teorizador da ‘Sociedade do Espectáculo’ e um dos ideólogos do ‘Maio de 68’.

Tudo por ter lido num sítio qualquer, que hoje até se pode vir a ter uma boa conta bancária só a meter fotos, selfies e vídeos mixurucas num portátil, ou ainda comer e beber à borla em lugares onde todos temos de pagar uma nota grande, por não sermos ‘influencers’ (que raio de nome!).

Esta sim! Esta será mesmo a verdadeira sociedade do espectáculo pois, como salientou um dia a escritora Ana Maria Moix, estamos no apogeu de uma cultura obcecada pela aparência física, de narcisos a fotografar-se sem parar, para poderem afirmar, embora subvertendo, à maneira de Descartes, ‘tiro e divulgo-me numa selfie, logo existo!

E os políticos, homens e mulheres como nós, preocupam-se mais em apelar ao convívio com esta situação, do que a combater a sua evidente perda de poder frente aos ‘donos’ das finanças e do sistema de comércio global com os dados pessoais, para poderem também influir nas nossas decisões.

E até andam de camionista, de bombeiro, de peregrino, de acidente em acidente, de medalha em medalha, de ecrã em ecrã, de país em país, de papa em Papa, sempre com declarações estudadas a que juntam mesmo nomeações esdrúxulas, só para poderem manter o espectáculo onde se fizeram.

Diz o ensaísta e crítico literário João Barrento, que a nossa cultura do espectáculo ‘da moda à política e ao mundo da literatura, é performativa; a nossa contemporaneidade não tem um projecto, só tem “estaleiros”, uma cultura de “cidadelas”, que vive com a crise e a cultiva, uma crise que já deixou de estimular qualquer potencial crítico

E os mass media, principalmente os ecrãs (grandes e pequenos!) constituem-se como a autoridade principal, que fundamenta e onde se ergue a ideologia do mercado e do consumo, visando anular o modo de ser e estar de cada um, mas sem deixar de o dotar com receitas generalistas, mas só aquelas já devidamente testadas na solidificação de rotinas e dos conformismos ideológicos.

De qualquer maneira, acredito que se o homem não estivesse livre para a renovação, nem sequer tínhamos saído das cavernas! E creio também que se a condição humana não carregasse uma aversão congénita ao risco e ao perigo, já para lá tínhamos voltado há muito tempo!

Apesar disso sinto-me vítima por vezes, daquilo a que alguém já catalogou como o paradoxo do andaime, ‘não se pode olhar para baixo; só é preciso manter as rotinas sem nunca deixar cair coisa alguma!

Mas um dos maiores problemas do homem sempre foi conseguir o equilíbrio entre o perigo e o futuro!

O mesmo que esta sociedade (nossa e do espectáculo!) nos propõe, fornecendo-nos mesmo os andaimes de onde nunca se olha para ver o fundo, dizem que para não nos alarmar, mas se deixarmos cair alguma coisa, o barulho lá em baixo será atroador e até pode aparecer um qualquer dos afectos, para uma selfie com a gente!

Mas nós nunca ganhamos! Ele sim! É o dono do ecrã!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

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