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Espuma dos dias — Aniversários, por John Ganz

 

Nota prévia:

Este texto de John Ganz é sem dúvida, como diz Júlio Mota “… uma reflexão séria sobre a realidade passada, presente e futura daquela região”. Grande parte do texto remete para a ortigo do autor publicado há um ano no início [ou reinício do conflito entre israelitas e palestinianos] onde efetivamente antecipa em geral aquilo a que estamos a assistir atualmente.

Queremos, no entanto, observar o seguinte:

O texto, em certa medida, trata os contendores – palestinianos e israelitas – como se estivessem em pé de igualdade. Diz também que tomar partido a favor de um dos lados é principalmente uma “questão de contingência”, sendo uma “… questão de como alguém foi educado e doutrinado”.

Sendo claro que “… que fomos crescidos com uma visão própria (a que nos foi transmitida)” (como diz António Oliveira), estes são argumentos que, podendo ser aceites quando referidos ao cidadão comum, me parecem não serem de modo algum válidos se estamos em presença de pessoas informadas e, ainda menos, de um editor e escritor independente, e licenciado em História, como é o caso de John Ganz.

Naturalmente, tal como num estado fascista nem todos podem ser rotulados de fascistas, também em Israel não podem ser todos tratados como se fossem genocidas ou colaboradores do genocídio prosseguido pelo governo israelita. Mas isso não afasta a questão de que estamos perante um governo e um regime que não trata todos os cidadãos como iguais.

Analisar a questão palestiniana requer, a meu ver, remontar pelo menos à época da criação do estado de Israel em 1948 e abordar os grandes mitos da narrativa oficial israelita, e percorrer os eventos desde então. Para isso merecem ser lidos os artigos de Allan Brownfeld – recensão do livro Dez Mitos sobre Israel de Ilan Pappé – e de Avi Shlaim – Israel: o debate sobre 1948, que publicámos aqui na Viagem dos Argonautas em Novembro de 2023 – note-se que estamos a falar de historiadores israelitas.

Entre os grandes mitos destacamos:

“A Palestina era uma terra vazia”: a realidade é que a Palestina existiu desde há muito (província do império romano, e durante 400 anos até 1917 uma próspera sociedade árabe sob o império otomano; no final do século 19, de mais de 450.000 habitantes 87% eram muçulmanos, 10% eram cristãos e 3% eram judeus).

“Os judeus eram um povo sem terra”: a realidade é que o mundo cristão [que durante séculos expulsou e perseguiu os judeus] adotou interessadamente a ideia dos judeus como uma nação que um dia retornaria à terra santa, o que faria parte do esquema divino para o fim do mundo, acompanhado da conversão dos judeus. “O sionismo”, escreve Pappé, ” era, portanto, um projeto cristão de colonização antes de se tornar judeu…”

A ideia de que “Israel representa todos os judeus”: Israel sempre insistiu que representa todos os judeus do mundo e que tudo o que faz é por eles e em seu nome. Esta ideia entronca no sionismo que era originalmente uma opinião minoritária entre os judeus. “O judaísmo reformista rejeitou a ideia sionista e proclamou que o judaísmo era uma religião de valores universais, não de uma nacionalidade”. “O grande rabino hassídico [ortodoxo] alemão Dzikover … disse que o sionismo pede que se substituam séculos de sabedoria e leis judaicas por um trapo, uma terra e uma canção (ou seja, uma bandeira, uma terra e um hino)”.

“A nova terra era sua por direito divino ou moral”: “o sionismo foi um movimento colonizador, de colonos, similar aos movimentos dos europeus que haviam colonizado as duas Américas, África do Sul, Austrália e Nova Zelândia … O colonialismo dos colonos é motivado pelo desejo de apoderar-se da terra num país estrangeiro, enquanto o colonialismo clássico cobiça os recursos naturais na sua nova posse geográfica … O problema era que as novas “pátrias” já eram habitadas por outras pessoas. Em resposta, as comunidades de colonos argumentaram que a nova terra era sua por direito divino ou moral, mesmo que, em outros casos que não o sionismo, não afirmassem ter vivido lá milhares de anos atrás. Em muitos casos, o método aceite para superar esses obstáculos foi o genocídio dos indígenas locais”. Desde o início, a resistência palestina foi descrita como motivada pelo ódio aos judeus. Os diários dos primeiros sionistas contam uma história diferente. Eles estão cheios de episódios que revelam que os colonos foram bem recebidos pelos palestinianos, que lhes ofereceram refúgio e, em muitos casos, os ensinaram a cultivar a terra. “Somente quando ficou claro que os colonos não haviam vindo para viver lado a lado com a população nativa, mas em vez disso ocupar o seu lugar, que a resistência palestiniana começou”, escreve Pappé. “E quando essa resistência começou rapidamente assumiu a forma de qualquer outra luta anticolonialista”.

“… os palestinianos deixaram voluntariamente a sua terra natal em 1948. E também de que fugiram das suas aldeias por vontade própria ou por ordem dos exércitos árabes que os queriam fora do caminho”: os arquivos israelitas mostram que os fugitivos não receberam quaisquer ordens dos líderes árabes, mas que fugiram principalmente por terror, depois de ouvirem os relatos de massacres realizados por soldados israelitas…” ” a liderança sionista e os ideólogos não podiam imaginar uma implementação bem-sucedida do seu projeto sem se livrarem da população nativa, seja por acordo ou pela força. Mais recentemente, após anos de negação, historiadores sionistas como Anita Shapira aceitaram que os seus heróis, os líderes do movimento sionista, contemplaram seriamente a possibilidade de transferir os palestinianos”, ideia perfeitamente confirmada pelo genocídio atualmente em curso em Gaza e no Líbano. “Após a ocupação, o novo governante limitou os palestinianos da Cisjordânia e da Faixa de Gaza a um limbo impossível: eles não eram refugiados nem cidadãos, eram, e ainda são, habitantes sem cidadania. Eram reclusos – e em muitos aspetos ainda o são – de uma grande prisão na qual não têm direitos civis nem humanos nem perspectivas de futuro.”

“A pretensão de Israel de ser a única «democracia» no Médio Oriente”: “mesmo antes de 1967, os palestinianos, que representavam 20% dos cidadãos de Israel, viviam sob um “regime militar baseado nas normas draconianas de emergência obrigatórias britânicas” que negava… qualquer direito humano ou civil básico. Os governadores militares locais eram os governantes absolutos da vida desses cidadãos: eles podiam criar leis especiais para eles, destruir as suas casas e meios de subsistência e mandá-los para a prisão sempre que quisessem”. “A Amnistia Internacional documenta anualmente a natureza da ocupação. O seu relatório de 2015 forneceu esta avaliação: “na Cisjordânia, incluindo Jerusalém Oriental, as forças israelitas cometeram homicídios ilegítimos de civis palestinianos, incluindo crianças, e prenderam milhares de palestinianos que protestaram ou se opuseram à continuação da ocupação militar de Israel, levando centenas de pessoas em detenção administrativa. A tortura e outros maus-tratos continuaram abundantes e foram cometidos com impunidade. As autoridades continuaram a promover colónias ilegais na Cisjordânia e restringiram severamente a liberdade de movimento dos palestinianos… As autoridades continuaram a demolir casas palestinianas na Cisjordânia e dentro de Israel, particularmente em aldeias beduínas na região de Negev / Naqab, desalojando à força os seus residentes”.

Israel é hoje comumente reconhecido como um estado que pratica o apartheid e desde há muito é culpado de genocídio, voltando a confirmá-lo com as ações que pratica neste momento em Gaza e no Líbano.

O mito da “solução dos dois estados”: “A solução de dois estados, indiretamente, deve-se dizer, baseia-se na suposição de que Israel e o judaísmo são a mesma coisa. Portanto, Israel insiste que o que faz, faz em nome do judaísmo”. : “após a Segunda Guerra Mundial, o sionismo foi autorizado a tornar-se um projeto colonialista num momento em que o mundo civilizado rejeitava o colonialismo porque a criação de um Estado judeu oferecia à Europa, e à Alemanha Ocidental em particular, uma saída fácil dos piores excessos de anti-semitismo jamais vistos. Israel foi o primeiro a declarar o seu reconhecimento de “uma nova Alemanha”. Em troca, recebeu uma grande quantia de dinheiro, mas também, muito mais importante, uma carta branca para transformar toda a Palestina em Israel. O sionismo ofereceu-se como a solução para o anti-semitismo, mas tornou-se a principal razão da sua contínua presença”. “… Os colonizados, mesmo sob a Carta da ONU, têm o direito de lutar por sua libertação… e o fim bem sucedido de tal luta está na criação de um Estado democrático que inclua todos os seus habitantes”

Quanto a Israel não se pode deixar de ter presente que estamos perante um estado que tem capacidade nuclear, ao lado de uma população que nem sequer tem um estado e de estados (v.g. Líbano, Síria, Jordânia, Irão) que não só não têm capacidade nuclear como nem capacidade militar comparável.

Francisco Tavares

29/10/2024

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Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

7 min de leitura

Aniversários 

 Por John Ganz

Publicado por Unpopular Front em 6 de outubro de 2024, (original aqui)

 

Amanhã é dia 7 de outubro e marca um ano de guerra. Aqui está o que escrevi em 8 de outubro do ano passado:

Tenho a certeza de que todos já viram as imagens e os relatórios horríveis que saem de Israel e da Palestina à medida que a região mergulha numa guerra total. Não comento muito sobre o conflito israelo-palestiniano por algumas razões: uma, não sou especialista nisso, duas, é provável que enfureça muitas pessoas, independentemente da opinião que se tenha, e três, tenho sentimentos muito confusos sobre isso. Por um lado, eu não sou um sionista; eu certamente não sinto nenhuma atração romântica pelo projeto nacional de Israel. Nem o argumento pragmático de que Israel fornece uma pátria segura para os judeus me parece muito válido, uma vez que a sua segurança está sempre em perigo, como podemos ver agora. Penso que é um estado fundado num crime histórico mundial de expulsão e massacres de palestinianos em 1948. Penso que a ocupação é um crime contínuo, que a expansão dos colonatos na Cisjordânia é escandalosa e que as condições infernais impostas a Gaza não são suportáveis. Antes eram apenas os ativistas que se referiam ao regime imposto aos palestinianos como “apartheid”, agora é opinião dominante, e é difícil contestar a argumentação por estes apresentada. Além disso, o teor da política israelita parece crescer cada vez mais assustadoramente antidemocrático e extremista, dia após dia.

O atual gabinete em torno de Benjamin Netanyahu, um vigarista que eliminaria num segundo tudo o que resta da democracia em Israel para evitar quaisquer repercussões, é um bando de fascistas de baixo rendimento. E apesar de sua conversa dura, eles têm sido aparentemente incapazes de fornecer segurança básica. Agora, é provável que eles respondam com todo o seu ódio e fúria para encobrir a humilhação do momento, para não mencionar usá-lo para pressionar pela realização dos seus programas mais brutais. Neste momento, receio que Israel nivele essencialmente toda a faixa de Gaza e faça com que a sua população fuja, numa repetição de pesadelo dos piores acontecimentos de 1948. Também temo outro surto de violência comunitária nas cidades árabes de Israel, como o que testemunhámos em 2021, mas muito pior.

Com tudo isto dito, creio que a existência de Israel e a presença dos Judeus é um facto consumado: a esperança de que Israel deixe um dia de existir parece-me, na melhor das hipóteses, uma ingenuidade, e na pior das hipóteses, é implicitamente genocida. E embora concorde com o princípio da autodeterminação nacional do povo palestiniano, tanto a ideologia como a tática dos grupos que atualmente incorporam essa aspiração são perturbadoras e inaceitáveis para mim. Como seria o colapso de um estado israelita e uma vitória do Hamas? Bem, para os israelitas, a evidência parece agora clara: provavelmente envolveria homens armados nas ruas das cidades israelitas, a caçarem cidadãos israelitas.

Seja qual for o cálculo moral que se possa empregar para justificar isto – o sofrimento prolongado do povo palestiniano e os seus assassinatos de rotina às mãos das forças de ocupação, a falta de outras técnicas políticas e militares disponíveis, e a sua frustração e desespero com o seu atual isolamento internacional – nada disso importará para o povo israelita: eles apelarão a um regime de segurança ainda mais brutal. Para além de afugentar a abertura das relações de Israel com o mundo árabe, esse é talvez um dos objetivos do Hamas aqui: provocar Israel a uma resposta tão terrível que eles horrorizem a opinião mundial e, assim, se isolem.

Independentemente das várias motivações e estratégias políticas envolvidas, a guerra que agora se seguirá será extraordinariamente sangrenta e brutal mesmo para a região. Se o Hezbollah no Líbano se envolver e, por extensão, o Irão, Deus nos ajude a todos. Estão a ser feitas muitas comparações com a guerra do Yom Kippur de 1973, que também apanhou Israel desprevenido e abalou o seu sentimento de invulnerabilidade. Mas essa foi uma guerra entre estados e os seus exércitos com objetivos militares e diplomáticos claros: não foi travada principalmente entre civis nos centros populacionais. Nessa guerra, o objetivo de Sadat era forçar uma paz favorável sobre Israel e o resultado foi um acordo que levou ao reconhecimento de Israel.

No momento, é difícil imaginar algo produtivo vindo disto. A longo prazo, a minha solução preferida seria uma espécie de federação ou estado binacional. Mas, mais do que nunca, isso parece um sonho tolo: não pode ser realizado com populações que se odeiam com esse nível de intensidade. Vi apoiantes de ambos os lados celebrarem esta inauguração da guerra ou zurrarem por retaliação e vingança. Não sabem o que está prestes a acontecer? Não sabem que estão apenas a uivar por mais sangue? Pela minha parte, sinto apenas um profundo sentimento de falta de esperança em relação à situação.

À medida que a guerra parece estar a crescer, com Israel a invadir e a bombardear o Líbano, o Irão a lançar mísseis balísticos contra Israel e Israel a prometer retaliação, parece que esse sentimento de desesperança era justificado. Nem Netanyahu nem Yahya Sinwar parecem a sério negociar um cessar-fogo e aparentemente decidiram que este é o grande problema, aconteça o que acontecer. Gaza foi essencialmente nivelada, com 60% das suas estruturas danificadas ou destruídas. No ano passado, escrevi que poderíamos testemunhar uma repetição de 1948 e podemos ler nos últimos dias que parece que Netanyahu está a considerar seriamente as expulsões em massa. Israel, com o seu maior poder de violência, deve ser contido pela comunidade internacional. Parece uma sociedade que ficou totalmente louca.

Nunca estive entre os que celebraram, justificaram ou mesmo desculparam os atentados de 7 de outubro. Também não creio que os horrores daquele dia justifiquem a resposta israelita, que não se baseia puramente na lógica militar, mas na vingança e na punição, e que conseguiu ofuscar totalmente as atrocidades do dia 7 na sua ferocidade e alcance aos olhos do mundo. Quero que os reféns sejam libertados para acabar com uma justificação para o conflito, mas é difícil preocupar-se com o seu destino particular depois dos mares de sangue que foram derramados desde então. Para desculpar a extensão do sofrimento infligido a Gaza, é preciso adotar uma lógica que é, pelo menos implícita e muitas vezes explicitamente genocida: que responsabiliza coletivamente os palestinianos ou os trata como uma forma de vida inferior.

Penso que é principalmente uma questão de contingência se alguém toma partido a favor da parte israelita ou da parte palestiniana na guerra: é uma questão de como alguém foi educado e doutrinado, quais experiências e ideais se encontraram primeiro ou com mais intensidade. Muitos judeus e aqueles que simpatizam com eles veem Israel como a justa recompensa para um povo sofredor; os palestinianos e os que simpatizam com eles veem isso como uma injustiça infligida a uma população inocente dos crimes da Europa. Aqueles que desejam ficar do lado dos oprimidos irão naturalmente gravitar para a causa da Palestina hoje, porque são inquestionavelmente oprimidos. Mas a Yishuv [comunidade judaica do leste europeu que emigrou para a Palestina] cercada já foi considerado por muitos como o oprimido — até que eles conquistem o poder para si mesmos. Devemos esperar que os palestinianos vitoriosos sejam especialmente generosos para com os seus inimigos derrotados depois de anos de sofrimento às suas mãos? Não seria apenas um vasto dia 7 de outubro, que alguns dizem ser, na verdade, moral e bom?

A estrutura moral essencial das argumentações é idêntica: “somos um povo há muito despossuído e perseguido, esta é a nossa terra histórica, a nossa fé religiosa dita que devemos possuí-la, e temos uma experiência de trauma histórico que autoriza a crueldade para com os nossos inimigos em nossa própria defesa”. Muitos estão inclinados a desculpar a ferocidade da resposta israelita recorrendo ao trauma da experiência judaica, mas olhe para as biografias de militantes palestinianos e você verá o mesmo tipo de histórias: testemunhar pais e irmãos mortos, aldeias queimadas, casas tomadas ou destruídas. Tanto os projetos palestinianos como os sionistas procuram armar o refugiado inofensivo e humilhado e transformá-lo num lutador para redimir a sua honra e dignidade. Mas o “sucesso” de Israel deveria mostrar-nos que a vitória pode ser não menos humilhante e desonrosa para um povo do que a derrota. Nenhuma solução para o conflito virá da tentativa de litigar quem tem o maior valor moral como povo; isso agora deve ficar claro. Se você pressionar as pessoas que são nacionalistas de ambos os lados sobre o sofrimento do outro lado, eventualmente eles chegam ao ponto em que eles estalam e dizem “Eu não quero saber” ou “eles merecem”. É mais fácil assim.

Sinto muita raiva ou frustração com as pessoas que se identificam cegamente com um lado e não tentam de forma alguma habitar as experiências ou ideias do outro. Mas também, francamente, sinto pena deles. Em junho, após o desfile de saudação a Israel, os espectadores filtraram-se pelo meu bairro, famílias agitando pequenas bandeiras israelitas, muitas vezes com T-shirts idênticas defendendo alguma organização fraterna ou outra. Eles não pareciam particularmente sanguinários ou perigosos. Pareciam estúpidos. Pareciam-se com todos os outros: como gente pequena e triste. Esta causa, esta luta, dá-lhes um sentido de retidão, algo em que acreditar, algo de que se orgulhar. Parece redimir anos de sofrimento. Mas nunca pode; condena-nos apenas a repeti-lo. Posso compreendê-lo, mas não o admiro e, honestamente, menosprezo-o. E já não me interessa quem sabe disso. A minha simpatia pelos israelitas e palestinianos, e por vezes sinto uma simpatia intensa por ambos os povos, é francamente tingida de um pouco de desprezo ou de condescendência. Ou o que é realmente a mesma coisa: com vergonha. Sinto-me envergonhado. E penso que todos deveriam estar também assim. Qualquer um deve sentir vergonha de anunciar orgulhosamente o seu compromisso com o assassinato em curso. As pessoas devem encontrar uma maneira de transcender isso. Mas não o farão, e isso enche-me de desespero e até ódio. E direi publicamente agora o que digo aos amigos: passei a odiar a visão de ambas as bandeiras. É tentador dizer “uma praga de ambas as suas casas!” mas eles já têm a praga. E assim em breve tê-la-emos todos nós.

Vou apenas recomendar uma coisa hoje: “A vista de Beirute sitiada“, da médica libanesa Joelle M. Abi-Rached:

“Cresci no Líbano, orgulhava-me de recitar uma citação memorável de Montesquieu que aprendi na minha escola jesuíta, usando-a como escudo talismânico contra o sectarismo e o fanatismo religioso: “se eu soubesse de algo útil para a minha nação, mas ruinoso para outra, não o proporia ao meu príncipe, porque sou necessariamente um homem, e só por acaso sou francês.”

Isto pode parecer idealista numa época de nacionalismo fervoroso. Mas para o autor do Espírito das Leis, um bom cidadão deve comportar-se da seguinte forma: primeiro, defender a lei da humanidade e depois mostrar lealdade à própria tribo. A nossa crença no secularismo e no universalismo exige, talvez por vezes, que defendamos tais princípios morais. No entanto, hoje, este mesmo quadro dos direitos humanos – ele próprio desenvolvido na sequência dos terrores da Shoah – está a ser enterrado pelos mesmos poderes que outrora alegaram ter ajudado a moldá-lo.

Cautelosos com os drones e aviões de guerra que voam por cima, olhando nervosamente para os nossos telefones para qualquer atualização de notícias, discutimos os padrões duplos predominantes na política europeia e ocidental. A culpa da Europa pela Shoah [Holocausto], combinada com uma longa e preocupante islamofobia, cria um forte ponto cego moral em relação ao sofrimento palestiniano. Alguns governantes de democracias ricas chegaram mesmo a sugerir que a razão de ser do Tribunal Penal Internacional se aplica apenas a África e a “bandidos como Putin”. Tal pensamento ecoa o mesmo preconceito poderoso que uma vez descreveu a África como o “continente negro” – bárbaro, incivilizado, incapaz de autogoverno ou de progresso. Esta hipocrisia hoje exposta no Ocidente demonstra que as lições do colonialismo não foram plenamente aprendidas.”

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O autor: John Ganz é editor e escritor independente. Licenciado em História pela Universidade de Michigan e mestre em Belas-Artes pela Universidade de Columbia. Dirige o sítio Unpopular Front.

 

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