ADÃO CRUZ – MAI – MOVIMENTO ARTÍSTICO INTERNACIONAL (I)
joaompmachado
Ao fim de uma vida inteira, a saudade leva-nos a recordar momentos que não se apagam da memória e constituem uma espécie de padrão entre os muitos que marcam a nossa existência. Aqui vai um deles.
O MAI (Movimento Artístico Internacional) nasceu em Ourense no seio da natureza e da amizade, em 1999, dentro da cabeça do nosso amigo e pintor Joaquin Balsa. Rapidamente se organizou num pequeno grupo constituído inicialmente por Joaquin Balsa (Galiza) João Alexandre (Portugal), André Welch (França), e Hans Dieter Zingraff (Alemanha), de imediato acrescentado com Cesar Prada (Galiza), America Soto (Galiza), Pastor Outeiral (Galiza), Olívia Reis (Portugal) e Adão Cruz (Portugal). Todos eram pintores, excepto a querida amiga America Soto que era uma prestigiada e muito conhecida criadora de trajes históricos, medievais e outros. Mais tarde surgiram outros nomes, como Zapata, de Ourense, o grande amigo Jaime Casais, da Corunha, e mais dois nomes do País Basco, os quais não me recordo se chegaram a fazer parte do MAI.
Lembro-me que uma das primeiras reuniões foi feita em minha casa, no Porto. Propusemo-nos iniciar uma aventura. Para isso teríamos de traçar um caminho, dentro do caminho da arte, caminho belo, muito difícil, atapetado de contradições, sem rota nem destino. Aliás, outro não pode ser o caminho da arte.
Dentro da abordagem psicológica e sociológica da magia e do mistério da Arte, coube-nos identificar esse caminho único, irrepetível, dentro do pensamento idealista, um caminho de linguagem cujo íntimo é possível apreender. No meio de tantos dilemas que atravessaram e atravessarão os séculos, o MAI não pôde deixar de se situar numa posição de humilde aprendiz. A par da criação de obras inerentes à sua natureza de movimento de cada um dentro do movimento do grupo, o MAI compreendeu que não podia viver se não estruturasse um caminho de análise, de reflexão, de aprofundamento cultural e de intensa pesquisa individual e colectiva, que lhe conferisse a dignidade de intérprete da Filosofia da Arte. Arte que ninguém consegue definir de forma absoluta e universal, Arte qualidade intrínseca de uma obra produzida pela inteligência humana, com efeito estético que gera juízos de valor sobre a própria obra, o seu autor e as técnicas e modalidades de produção.
O MAI teve sempre presente que, de uma maneira geral, os curricula mentem, se não na letra, mentem no conteúdo e no espírito. O homem raramente vale o curriculum, o curriculum pode valer o homem. O MAI não tinha corpo nem apetência curricular. O MAI, aberto a todos os artistas de qualquer expressão plástica, nacionais ou estrangeiros, que integrassem os seus princípios, não era, de forma alguma, o que parecia ser ou o que sugeria. Nem poderia ser, tendo em conta a profunda humildade que estava na base da sua formação.
Não era um movimento impositivo, ditando o que quer que fosse, nem tinha nenhum dos significados históricos, artísticos ou revolucionários que a palavra pudesse implicar. Afirmava-se rigorosamente independente, alheio a qualquer conotação de natureza política ou religiosa. Foi propositadamente assim denominado em razão do seu carácter dinâmico. Tratava-se, efectivamente, de um movimento por dentro, um movimento dentro de cada um de nós que, num amplo espaço de amizade, permitisse o movimento de cada um no seio e no movimento do grupo.
A Arte era o seu motor, e a Arte é tudo aquilo a que os homens chamam Arte. Esta é, talvez, a única definição de Arte que permite fugir a uma prolixa tautologia. A definição essencial e real de Arte está, a nosso ver, fora do alcance humano. Pensávamos que era mais correcto falar de uma ideia geral de artisticidade. O histórico termo Arte foi sempre limitado, ampliado, alterado, adulterado, mas o entendimento do seu verdadeiro conteúdo nunca foi conseguido. Da mesma forma que nunca foi conseguida pelo Homem a definição de Liberdade. Isto não nos impedia, contudo, de falarmos de Arte, Moral ou Liberdade, com todos os direitos que decorrem da nossa ancestral Cultura, do nosso Pensamento, da nossa Razão e da nossa Autenticidade.