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CARTA DE BRAGA – “do ‘eu’ e do ‘outro’, neste Natal por António Oliveira

As transformações no mundo que vivemos são, foram e serão uma constante, se o homem não esquecer o que é! Se não esquecer que vive num mistério quase incompreensível, que é a noção do ‘eu’ e do ‘outro’–a alteridade cada vez mais combatida pelo domínio dos pequenos ecrãs– antecipada pela consciência que cada um tem de si mesmo.

Não basta chegar ao espelho cada manhã, pôr a máscara e a vestimenta que a deve acompanhar, para descer as escadas e entrar no teatro da vida de todos os dias, fingir a superioridade ou a indiferença que os outros lhe merecem, por cada pessoa ser um rosto, e ‘um rosto é um milagre, dos cerca de oito mil milhões hoje no mundo’, afirma Anselmo Borges, padre e professor de Filosofia, numa das suas crónicas semanais no DN. E um milagre por o rosto se se concentrar no olhar, que ele explica citando Hegel, ‘Num olhar se vê o abismo do mundo’.

Para muitos grupos sociais, agora mais facilmente que nunca antes, o acesso à informação depende não só da sua localização física, mas, acima de tudo, da sua localização social, i.e., pendurada no número de ‘amigos’ existentes no seu telemóvel, retirando assim do espaço físico, as características que teriam até há uns anos, que ainda continuarão a ter nos locais mais recônditos deste e doutros países.

E lá no pequeno ecrã, o rosto perde toda a sua individualidade, imerso que está na urgência da pergunta ou da resposta, na pressão do próprio aparelho, e nos dos outros submetidos aos mesmos apertos.

É mais fácil entender estas questões, quando se pensa que, não há muitos anos, também as palavras tinham outro colorido: ouvíamo-las da boca dos pais, dos avós, dos colegas das escolas frequentadas por toda a gente, ou então ditas por pessoas que admirávamos ou até invejávamos, como o meu professor primário, ou então do João Vilaret, da Carmen Dolores, ou até do Artur Agostinho, todos na rádio, gente que punha na voz as entoações e o carinho que há muitos anos se perderam nas exigências das redes televisivas, muito próximas ou mesmo iguais às outras dos anúncios publicitários, por também terem, como elas, necessidade de públicos homogéneos e indiferenciados.

Com o rosto, o olhar que vê e se deixa ver quando olha bem de frente, e a voz, todos a mostrar as emoções que pretendem transmitir sem as impor, será sempre possível mostrar a cultura própria e esperar a
confiança do ‘outro’. Mas haverá sempre alguém a quem aquela atitude não diz absolutamente nada, nem se interessa por nenhum dos pormenores, atarefado pelas teclas do telemóvel, e pela pressão da incultura.

Como li, na semana passada de um escrevinhador como eu, lamentando o fingir acreditar na magia, para vencer a ilusão do ano, ‘Jesus expulsou os mercadores do templo e, dois séculos depois, eles expulsaram-no do seu aniversário. Já não é o ‘superstar’, o significado cristão foi substituído pelo consumo e a sua efígie quase eliminada’.

O filósofo Séneca, que viveu nas primeiras décadas deste milénio, tem uma frase que reflecte um universo de sabedoria, ‘Pobre não é o homem que tem pouco, mas o homem que anseia por mais. Qual é o limite adequado para a riqueza? É, primeiro, ter o que é necessário, e, segundo, ter o que é suficiente’. Tenho a convicção de que raramente se chega a isto, olhando apenas os pequenos ecrãs!

Da incultura nasce a falta de respeito e, por isso, talvez seja melhor dar atenção ao ‘outro’ e ter consciência do ‘eu’. Mas como estes tempos, muito mais estes dias, não são apelativos para filosofias e se prefere ter asas (ecrãs) na imaginação, talvez valha a pena recordar um provérbio bem antigo, ‘A formiga quando se quer perder, cria asas’. Entenda-se este ‘perder’ como se quiser…

Feliz Natal!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

 

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