CARTA DE BRAGA – “das pequenas coisas” por António Oliveira

 

Estes tempos de solidão obrigatória (fica em casa ……o!), levaram-me a voltar atrás, lá ao daqueles outros tempos onde as pequenas coisas tinham muita importância.

Mas antes de as evocar, essas pequenas coisas, devo recordar essa pequena gente cuja importância, aparentemente, só agora foi notada.

Estou a escrever dos servidores públicos da saúde, mas de todos, desde a modesta ou modesto auxiliares, aos enfermeiros, técnicos de diagnóstico e médicos, esses mesmos que agora, nos merecem palmas das janelas e varandas das casas em todas as povoações.

Mas não só esses, não se podem esquecer dos que fazem das noites e das madrugadas o viver, limpando, varrendo, acartando lixos e misérias e os outros sem os quais também é impossível viver, os que tratam dos campos, mares, fogões e balcões, para nos cuidar da fome, mais dos que velam a nossa tranquilidade e de tantos outros que nem caberiam numa centena das Cartas que aqui vou pespegando a espaços mais ou menos regulares.

No campo pessoal, meu e de alguns mais, esta espécie de prisão domiciliária ou até preventiva, de regras obrigatórias com ou sem companhia, também impõem a submissão aos meus antigos camaradas de profissão, os jornalistas, para ir percebendo o que se passa, aqui e em todo este mundo de que sou parte integrante.

Mas, voltando às pequenas coisas, lembro muito o saltitar de um melro, as auroras com as cantorias da passarada, olhar a lua ou o mar, sentado em qualquer sítio mesmo de comodidade discutível, o estender da face para um beijo e o encontro das mãos porque, quando as mãos encontram outras mãos, descobre-se a essência da verdade.

Daquela verdade que permite a companhia, o ‘ser’ e também o ‘estar’, que são diferentes só na língua portuguesa, embora pareçam querer dizer a mesma coisa.

Essa verdade está num cerrar de olhos, num jeito, naquele meio sorriso que as ruas desertas e as filas acabrunhadas armadas de impaciência e telemóvel, afastam deste viver, a meio caminho entre a resignação e a raiva da impotência.

E será conveniente arranjar um saco de veludo onde caibam e se reservem os abraços atrasados, para quando tudo isto acabar!

Só por nunca esquecer o ‘velhinho’ Bertrand Russell, ‘O amor é sábio e o ódio é absurdo. Num mundo cada vez mais interconectado, devemos aprender a toleramo-nos uns aos outros

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

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