CARTA DE BRAGA – “da singularidade do ser” por António Oliveira

 

A principal tarefa da política democrática consiste em estabelecer a mediação entre a herança do passado, as prioridades do presente e os desafios do futuro.

A vitória do boris na Inglaterra, deu origem a um cartoon em que ele aparece a cantar ‘We are the champions’com o boris do lado de lá, com uma senhora a perguntar ao marido ‘Não dizias que isto era um novo ciclo?’ e ele a responder bem tristonho ‘E em estéreo!

Como se vê e valendo-me de Daniel Innerarity em ‘O futuro e os seus inimigos’, os novos tempos parecem ter agora maus advogados e a padecer de fraqueza crónica, pois ‘o problema das nossas democracias reside em o antagonismo estar absorvido pelo presente e vamos vivendo à custa do futuro, numa completa irresponsabilidade em relação a ele’.

Aliás e em artigo recente, Innerarity escreveu também ‘um dos maiores enigmas do nosso tempo é entender como se produz a mudança social, a sua lógica e contribuir para que se realize na direcção desejada’.

Na realidade, os media referem todos os dias estratégias delirantes, gestos que não passam de encenações, impulsos não orientados e uma agitação que só produz paralisação.

Também podemos ver hoje como a ‘urgência’ da atitude política, só para conseguir instituir identidades normalizadas, acaba sempre por destruir a pluralidade das sociedades, ao querer transformar a memória e a história em ficções e, pior ainda, em meras invenções.

Perder a memória é perder o sentido de andar no mar, ainda que com sofisticados GPS’s, mas sem uma Ítaca que dê sentido à viagem, é só andar pelo mar, sem saber para quê, por também não se saber o que se anda lá a fazer’, afirma o professor Ricardo Costa no blog ‘Ponteiros Parados’.

O escritor Jordi Soler também deixou escrito recentemente, ‘nós cidadãos, estamos cada vez mais intolerantes, fechados nas nossas redomas desenhadas pelas redes sociais. Já perdemos a capacidade de mostrar as nossas ideias, o que permite a compreensão, a empatia, o sentido crítico e o fluir da inteligência’.

Na origem deste problema, transformado já na realidade da nossa vida, está a normalização que se pretende fazer, dando a mesma importância ao particular e ao singular. O particular pertence ao geral, enquanto o singular se opõe sempre a qualquer generalização.

O particular só se comunica com outros particulares, mas o singular afirma-se perante todos, pondo em causa a eficácia da generalização.

Acontece que a maioria da gente esqueceu, ou nunca se lembra, da sua singularidade, ser diferente e única entre um montão de ‘amigos’ na banalidade dos likes e das selfies, por só se existir realmente, quando cada um é ‘livre’ se o outro ‘for livre’ também, coisa que pela sua grandeza não agrada às gentes das redes, as que as dirigem e as que nelas teclam.

A terminar, retiro da obra ‘Recordações da casa dos mortos’ de Dostoievski, uma afirmação que parece apropriada a estes tempos ‘É melhor ser infeliz, mas estar inteirado disso, do que ser feliz e viver como um idiota’.

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

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