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CARTA DE BRAGA – “a parábola e os perigos” por António Oliveira

Um dia ouvi alguém falar de uma parábola ligada a uma tarefa que executei com enorme prazer, professor. E a pessoa dizia de um professor a falar, numa aula para alunos já com alguma capacidade de raciocínio e associação, para encontrarem um fio condutor em tudo o que o professor ia dizendo, narrando uma série de acontecimentos com diversos factos e animais perigosos em épocas distintas, mas com um dos alunos a confrontá-lo, apresentando sempre um ‘herói’ conhecido dos livros de ficção, banda desenhada, televisão ou do cinema, mas adequado à situação para ‘escangalhar’ a série ficcionada pelo professor.

Surpreendido e satisfeito com a agilidade mental do aluno, o professor perguntou ‘Onde vais arranjar e encontrar tantos heróis?’, e o aluno, calmo e seguro, vendo os colegas todos a olhar para ele, respondeu assim ‘Ao mesmo sítio onde o senhor foi arranjar todos as coisas e animais que usou, para colorir o perigo’.

Hoje, os perigos são muitos e variados, com cores bem carregadas. O trumpa nas cerimónias que antecederam a posse, não contou nenhuma parábola –usando a linguagem brilhante que o caracteriza, e depois ali continuada– limitou-se a ameaçar e a desautorizar gente e instituições com aquela impunidade que se inventou para aquele cargo. Tinha uma assistência, afirma o filósofo Alba Rico, ‘Onde reaccionários cavernícolas e libertários digitais compartiram, na tribuna, o protagonismo público.

Parece que já se começam a ouvir algumas respostas de gente, das comunidades e das instituições visadas pelo do cabelo loiro, mas e de acordo com o escritor e jornalista José Millás no ‘El País’, ‘A história da Humanidade iniciou uma nova era, com a tomada de posse de Trump, um retrocesso e um grito selvagem para o universo’; e referindo os líderes convidados para cerimónia, acentuou ‘Os personagens que ali vimos, são as mesmas de uma banda desenhada, tal como Musk, ao aparecer sempre em poses raras e a levantar os braços, às vezes só um, o direito. Todos junto de Trump, mais o seu cabelo dourado, fazem um conjunto de personagens que parecem ser tirados daquela banda, além de até serem os malvados’.

E, cáustico, acrescenta, ‘Tudo aquilo sem transição alguma, como se não tivessem existido Platão e Sócrates, nem Santo Agostinho, como se não tivesse existido Cristo’, assegurando que se o ser humano retrocedesse alguns séculos, elegeria mesmo Musk e Trump’ e, descrente, ainda diz, a terminar, ‘É um espaço onde não há lugar para Cervantes, nem Shakespeare, nem Camus e, sequer para o liberal Vargas Llosa. Ali só há lugar para o escarro, para o grito selvagem com que nos deitamos hoje e amanheceremos amanhã’.

O economista Antón Losada, comentador habitual das televisões, também descarrega sobre tais personagens, aparentemente actores principais daquela cerimónia, ‘Trump é um fanfarrão imprevisível, além de ser um delinquente convicto, posto na Casa Branca por uma estranha coligação de ‘hillbillies’ (rústicos e parolos) amantes das AK-47, cristãos ressentidos, jovens machistas e latinos renegados pela sua origem’.

Rafa Maltês – ‘El gran dictador’


‘Nueva Tribuna’, 25.01.29

O jornalista Ricardo Ferreira, editor do DN, refere também o outro ‘artista’ da cerimónia, ‘Musk, sem qualquer formação académica relevante, é ‘pretensioso e vaidoso, que lança memes no seu X e, com isso, arrasta o mercado accionista ou da cripto. Nesse sentido, pode dizer-se que não é um ‘oligarca’, mas sim um ‘olidiota’’.

Surpreendentes foram os comentários do vice-secretário do PP daqui ao lado, González Pons, bem longe de qualquer ligação racional ou espiritual à esquerda ou mesmo ao centro, elogiando em primeiro lugar, a bispa anglicana no sermão da cerimónia religiosa que antecedeu a do trumpa, e não o poupou nas palavras que lhe dirigiu, ‘Uma bispa assim também quero eu!’, comentou Pons. E nas que escreveu sobre as duas cerimónias, salientou, ‘Trump será um imperador, mas não o fundador do império. O seu poder fundamenta-se no caos circundante, e na lei do mais forte que, apesar de tudo, ainda mantém o equilíbrio do planeta. Proclamou-se o macho alfa de uma manada de gorilas’.

Qual seria a reacção daquele professor contador de parábolas?

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

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