CARTA DE BRAGA – “de parábolas e estupidez” por António Oliveira

Parábola é um palavrão que vem dos gregos, ‘parabole’, onde tinha o significado de ‘comparação’, pela similitude que uma qualquer coisa teria com outra se lhe fosse posta ao lado. Quando os romanos a assumiram usaram-na como significado de pequenas narrativas, muitas vezes uma espécie de provérbios a explicar tal similaridade, até por que palavra, para eles, era ‘verbum’.

E por isso, a palavra passou a representar a unidade da língua, com significado e a ajudar a compreensão das outras, às vezes até uma ‘promessa’ ou um ‘compromisso’, enquanto a parábola ficou para aquelas pequenas narrativas e ficções, de onde se pode extrair uma qualquer moralidade. 

Vem isto a propósito da questão já aqui levantada de se estarem a reescrever clássicos da literatura, por não usarem uma linguagem politicamente correcta para os poderes actuais e, mais recentemente, por se ter vetado a leitura da Bíblia em algumas escolas do estado de Utah nos states, por o seu conteúdo ter sido considerado ‘pornográfico’, por conter passagens onde se fala de incestos, violações e prostituição, respondendo assim à denúncia do pai de um aluno, que considerou tal conteúdo sexual e violento. 

Nos primeiros dias de Maio li, num diário europeu, a entrevista a um monge budista, afirmando, ‘Proibir é o reconhecimento da incapacidade de convencer, e fazer da religião um compêndio de totens e tabus, é a degradação do que deve ser a celebração da diversidade na comunidade, nunca a imposição de uma norma’.

Parece-me que todas estas coisas, a notarem-se também, mas sob outras formas, em diversos campos das actividades educacionais, sociais e políticas, não passarem da demonstração da ‘quase paragem’ no crescimento do homem, a confirmar uma reflexão do escritor e bioquímico Isaac Asimov, norte-americano mas nascido na Rússia, escrita já em meados do século passado, ‘O mais triste da vida agora mesmo, é a ciência atingir o conhecimento, mais rapidamente que a sociedade alcance a sabedoria’.

Aliás, a História também nos mostra como a sabedoria e a cultura parecem ser inimigos figadais de poderes estatuídos e não controlados, como se poderá ver nas fogueiras dos autos de fé, das ‘noites de cristal’, as queima de bibliotecas, museus e similares, ainda nas tabelas de Index e Censuras, na perseguição, prisão e mesmo mortes violentas de muitos autores. 

O professor de filosofia José Ricardo Costa, autor do blog ‘Ponteiros parados’, escreveu no final do mês de Abril, ‘Graças à inteligência, o cão faz coisas que uma galinha não faz e esta coisas que um berbigão não faz, gerindo cada um a sua vidinha de acordo com as suas possibilidades. Ora, se pensarmos nos grandes desígnios que movem a humanidade, bem superiores aos do cão, galinha e berbigão, fica fácil de entender que a sua inteligência teria de ser não apenas superior, mas bastante superior’. 

Então porque será que a fé, a política mais rasteira e populista, e a desrazão, continuam a ganhar adeptos e seguidores em toda a parte? Gente a correr atrás de aldrabões e impostores, situação que Fernando Pessoa define assim ‘A estupidez humana é grande, e a bondade humana não é notável’?

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

 

 

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