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CARTA DE BRAGA – “DO QUE DAMOS AO QUE PODEMOS HERDAR” – por António Oliveira

 

 

Gabriel Magalhães é um escritor português, professor universitário de Literatura e também cronista do ‘La Vanguardia’ de Barcelona. No passado dia 3 de Fevereiro, escreveu assim, ‘Confesso que não acreditava que os Estados Unidos se renderiam nos braços de Donald Trump. É um hipnotizador –com o olhar duro de futuro prisioneiro– que nos leva a falar sempre dele. E, aos poucos, vai conseguindo convencer de seu poder quando, na realidade, governa um país dividido ao meio, onde muitas pessoas são mesmo contra ele e, ao mesmo tempo, as relações com aliados tradicionais e importantes dos EUA estão a tornar-se num atoleiro. Comparada à América de Trump, a Europa parece-me cada dia mais bonita. Depois dos impérios passados, grandes e criminosos, nós, cidadãos da Europa, estamos tentando dar ao mundo algo mais, paz, diálogo e desenvolvimento

Outra professora de ciência política em Madrid, Máriam Martínez-Bascuñán, pergunta no ‘El País’, ‘Que é o Ocidente? Associávamo-lo a um imaginário de valores democráticos e de mercado, direitos humanos, liberdade e bem-estar. Agora tudo isso está assediado por movimentos reaccionários, demonização de minorias e de grupos vulneráveis, deportações massivas, a até sabemos  bem as coisas que nos recordam’. Mas as ‘manobras’ do trumpa vão mais longe: com o seu sócio, assessor ou mesmo ‘chefe’, Elon Musk, desmantelou a Agência para o Desenvolvimento Internacional e integrou-a no Departamento de Estado, debaixo da supervisão do secretário Marco Rubio, duas semanas depois de ter congelado toda a ajuda exterior, à excepção de Israel e Egipto.

Um dia depois do fim da Agência, despediu os dois altos cargos de segurança que tinham proibido o Departamento de Eficiência Governamental dirigido pelo tal ‘chefe’ Musk, de aceder, de acordo com o ‘New York Times’, aos documentos de informação classificada, na prática o acesso aos dados confidenciais do Tesouro e dos contribuintes, mesmo os da Segurança Social e do programa de saúde Medicare; note-se que o Departamento do Tesouro é responsável pela saída de fundos para as agências governamentais, qualquer coisa como 5 biliões de dólares em 2023, só inferior à feita para a Defesa.

O eleito e dito presidente tinha afirmado antes que a Agência estava ‘dirigida por um grupo de lunáticos radicais’ ignorando os interesses nacionais e o tal secretário Marco Rubio, acusou-a mesmo de se ter convertido numa ‘organização benéfica global’.

Todos estas coisas só fazem que continuemos a evocar a filósofa Hannah Arendt e a sua obra muitas vezes já aqui referida, ‘A banalidade do mal’, onde ela tenta fazer-nos compreender como alguns indivíduos, normalmente em situações de mando, agem sem se preocuparem com as consequências dos seus actos, para seguirem apenas e, obedientemente, as ordens que receberam. Todos têm em mente, os actos dos nazis na II Guerra Mundial, e a libertação do campo de concentração de Auschwitz, de que se comemoraram oitenta anos há poucos dias.

Essa mesma banalidade quer agora a participação dos países europeus, no aumento da produtividade, nos campos tecnológico e energético, bem como na segurança europeia nos sectores da Defesa e do Espaço. Mas como Guilherme d’Oliveira Martins escreve no DN do dia 4, ‘A Defesa Nacional obriga a considerar a cobertura dos riscos sociais, a salvaguarda da Educação, da Cultura e da Ciência e Política Externa e de Segurança. Quem o esquecer comete um erro fatal de consequências dramáticas. A capitulação de Munique em 1938 esqueceu a sociedade, o que teve de ser rectificado sob pena da derrota da Europa. Num tempo pleno de incertezas, vivemos hoje a tentação das conclusões fáceis e imediatistas, confundindo o essencial e o acessório’.

E reflecte, a seguir, sobre a situação na Ucrânia, o agravamento em Israel, e a incerteza na Ásia Oriental que podem levar ao risco de perigosas guerras simultâneas, ‘pelo que não basta o discurso da imposição de mais despesas militares, quando a ideia de solidariedade estratégica é contrariada pelo isolamento. Talvez não seja fatal o declínio norte-americano, mas uma guerra global gerada por aprendizes de feiticeiros, pode tornar-se provável e com temíveis resultados’.

Talvez seja importante pensar bem no que diz também o economista e cronista Joaquín Estefanía, na Cadena Ser do dia 5, ‘Quase tudo o que Trump faz segue a mesma tendência, desmantelar a agência de ajuda externa, a suspensão de subsídios para programas de diversidade, igualdade e inclusão, a expulsão de imigrantes usando métodos degradantes, o abandono de acordos multilaterais contra as mudanças climáticas, da Organização Mundial da Saúde, e tudo o que leve ao mesmo resultado– a redução da protecção aos mais fracos

A ver por tudo isto, que mundo ruim será aquele com que poderemos ficar?

António M. Oliveira

 

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

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