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Dois Homens e Uma Mulher – por Carlos Pereira Martins

 

Dois Homens e Uma Mulher

por Carlos Pereira Martins

Quando alguém ouvia falar deles, logo se insinuava um cenário de devassidão moderna, um ménage à trois digno de revistas cor-de-rosa. Mas a verdade estava longe disso, e a realidade daquela história era bem mais insólita do que qualquer suposição lasciva.

Ricardo e Manuel eram amigos há muitos anos, companheiros inseparáveis desde os tempos da faculdade de Medicina. Trabalhavam juntos numa clínica de cirurgia e, para poupar despesas e dividir responsabilidades, partilhavam um confortável apartamento no centro da cidade. Tinham uma rotina estruturada e regrada, suportada pela confiança mútua e pelo respeito que sempre nutriam um pelo outro. Não eram apenas colegas de trabalho ou amigos, eram irmãos na vida.

Foi numa noite fria de outono que o inesperado aconteceu. Ao entrarem em casa, depois de um longo dia de cirurgias extenuantes, encontraram sentada na soleira da porta uma figura do passado: Ana Isabel, uma antiga colega de liceu que ambos conheciam bem, mas da qual tinham perdido o rasto. Viera de longe, sem dinheiro nem abrigo, e soubera, por acaso ou de outro modo, da morada deles. Sem mais opções, tomara a liberdade de ali se dirigir, aguardando que chegassem.

Após a surpresa inicial, a decisão foi tomada sem grandes delongas. Ela ficaria ali até se reorganizar. No início, parecia uma situação temporária, mas rapidamente Ana Isabel assumiu um papel tão essencial na casa que nenhum dos dois homens conseguia imaginar como tinham vivido sem ela até então. Cozinhava com esmero, mantinha o apartamento impecável, tratava das compras e, num gesto de generosidade extrema, aliviava-lhes o cansaço com massagens terapêuticas que nada tinham de lascivo, apenas um cuidado genuíno por aqueles dois amigos que a acolheram sem hesitação.

Os três tornaram-se uma pequena família improvável, unidos por uma cumplicidade natural e espontânea. Mas o equilíbrio foi posto à prova quando Ricardo se apaixonou, fora do grupo, claro. A mulher que lhe roubou o coração chamava-se Beatriz, uma assistente administrativa da clínica, de uma beleza discreta mas cativante. O enamoramento foi avassalador e, de repente, a estrutura do grupo, triunvirato caseiro,  oscilou. Manuel e Ana Isabel começaram a sentir que algo se alterava na harmonia construída ao longo dos meses.

Quando Manuel seguiu o mesmo caminho e encontrou também e fora de portas o seu próprio amor, a ameaça àquele mundo singular que haviam construído tornou-se ainda mais evidente. De fora, os olhares eram carregados de insinuações, sempre na crença de que aquela relação a três teria algo de impróprio. Mas a verdade era simples: três amigos que se apoiavam mutuamente, sem erotismos ou motivações e episódios sexuais. Apenas amizade e respeito.

Ana Isabel observava tudo com apreensão. Pela primeira vez temeu que aquele pequeno paraíso ruísse. Sabia que Ricardo e Manuel nunca deixariam de ser amigos, mas como poderia ela manter o seu lugar sem se tornar um peso na nova dinâmica? A resposta surgiu como uma epifania: ela também teria que encontrar alguém. Não por obrigação, nem por impulso, mas porque sentia que era a única forma de consolidar o equilíbrio do grupo.

E assim foi. Pouco tempo depois, Ana Isabel começou a namorar com António, um professor de Filosofia de espírito inquieto e conversa fascinante. Em pouco tempo, os seis tornaram-se inseparáveis. E a solução que ninguém esperava revelou-se a mais acertada: decidiram comprar um andar espaçoso, de oito assoalhadas, onde cada casal teria o seu espaço, mas todos poderiam continuar a viver naquela harmonia perfeita, que desafiava convenções e preconceitos.

Os anos passaram, e aquela amizade, forjada num acaso improvável, permaneceu sólida como uma rocha. As relações evoluíram, filhos vieram, e a casa tornou-se um refúgio de paz, onde reinava um companheirismo que poucos compreendiam. Olhares de fora continuavam a lançar julgamentos precipitados, mas dentro daquelas paredes, vivia-se uma felicidade rara, construída na base da confiança, da liberdade e da mais pura amizade.

Com o tempo, aquele lar tornou-se ponto de encontro para muitos. Festas de aniversário, jantares animados e debates filosóficos aqueciam as noites, e todos que ali entravam sentiam uma energia diferente, uma sensação de pertença. Os filhos cresceram a correr pelos corredores, criando laços inquebráveis entre si, aprendendo que família não se define pelo sangue, mas pelos afetos e pelo respeito.

Os desafios vieram, como sempre acontecem na vida. O primeiro grande teste surgiu quando António recebeu uma proposta de trabalho irrecusável no estrangeiro. A casa ficou dividida entre a tristeza e o orgulho, e Ana Isabel teve de tomar a difícil decisão de partir com ele. Mas o vínculo entre os seis nunca se desfez. Continuaram a visitar-se regularmente, e quando António e Ana Isabel regressaram anos depois, encontraram o mesmo calor e amizade à espera deles.

À medida que envelheciam, os três casais enfrentavam juntos as dificuldades da vida, apoiando-se nos momentos difíceis, celebrando as conquistas e enfrentando as perdas inevitáveis. Com o passar do tempo, começaram a surgir netos, e a velha casa de oito assoalhadas, agora cheia de novas gerações, tornou-se um santuário de amor e partilha.

Porque, afinal, nem tudo o que parece tem a necessidade de ser rotulado, e há relações que ultrapassam qualquer explicação simples. Como o 25 de Abril, que trouxe uma liberdade inesperada, também aqueles três amigos descobriram um novo conceito de família, um modelo próprio de felicidade que poucos ousariam imaginar.

x – x

(Só com a força de um grande padecimento de males inicialmente tocados, seria possível ter uma tão rija imaginação para escrever um texto destes! Afinal, ainda estarei para durar. Não devia ter escrito durar, … eu sei!)
Finalmente: este texto, para ficar próximo da perfeição, deveria sempre ser lido cumprindo o ritual de, no final, ser ouvida a música e a letra de uma canção:
We all live in a yellow submarine
Yellow submarine, yellow submarine.
We all live in a yellow submarine
Yellow submarine, Yellow submarine!
That’s it.
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