A violência do cancelamento – por Boaventura de Sousa Santos
António Gomes Marques
A violência do cancelamento
por Boaventura de Sousa Santos
Em 7 de abril de 2023, tomei conhecimento da existência do capítulo do livro em que eram feitas graves acusações contra mim e outros investigadores do CES, bem como contra o CES como um todo. Eu estava prestes a partir para o Chile e foi lá que tomei conhecimento da magnitude do impacto público que o capítulo estava a ter. A exposição mediática atingiu o seu auge na semana de 10 de abril. Nessa altura, começou uma onda de cancelamentos que continua até hoje e que ameaça enterrar o trabalho de toda uma vida, sem que tenha havido qualquer denúncia perante um tribunal. As acusações estão apenas na imprensa e nos meios de comunicação social. Existe um relatório elaborado por uma Comissão Independente no CES que não inclui o meu nome e, se existem denúncias concretas contra mim, foi-me negado o acesso a elas. Apresentei-me voluntariamente ao Ministério Público para ser investigado, tive de iniciar uma ação civil para proteger o meu bom nome como única saída para ser submetido a um processo judicial, mas este está parado. Só me resta denunciar o cancelamento a que fui sujeito. Para que quem veja julgue por si mesmo.
Alguns exemplos do cancelamento de que tenho sido vítima desde Abril de 2023 em resultado de denúncias falsas de que só tive conhecimento pela imprensa, que nunca foram objeto de acusação em tribunal e muito menos provadas e de que nunca me pude defender.
Resumo
Entre muitos cancelamentos, refira-se que alguns distribuidores se recusaram a distribuir os meus livros, e a Editora Almedina, com quem tenho um contrato de exclusividade para publicações em português, tem dois manuscritos meus pendentes (um deles já publicado em inglês) porque teme que não sejam vendáveis. Duas editoras exigiram que os autores retirassem os prefácios que eles me tinham pedido e eu tinha escrito.
Na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra e nalgumas universidades do Brasil retiraram os meus livros da bibliografia obrigatória e incentivaram os estudantes a não citar o meu trabalho. Na Colômbia, uma editora mandou retirar o meu nome na capa de um livro de que eu era o principal autor e organizador quando a capa já estava impressa. Pelo menos uma tese de doutoramento sobre a minha teoria foi abandonada e o autor forçado a mudar de tema.
Tenho 21 doutoramentos honoris causa. Mais alguns estavam em preparação. Todos os que estavam em preparação foram cancelados. Tinha sido convidado para inaugurar o congresso de sociologia do mundo árabe de 2023, o primeiro europeu a ter tal distinção. Foi cancelado o convite. Fui expulso do Tribunal Universal dos Direitos da Natureza de que tinha sido um dos fundadores. Fui suspenso do Conselho Latino-americano de Ciências Sociais que dois anos antes publicara uma antologia da minha obra com mais de 1000 páginas.
Trata-se de uma morte civil pura e dura, que deu até lugar a um estudo comparativo com outros casos semelhantes em Portugal. Precisamente, este estudo enfatizava a politização do meu caso, destacando como a imprensa portuguesa tinha centrado a atenção quase exclusivamente na minha figura. As denúncias foram utilizadas para atacar a esquerda política e ideológica, retratando-me como símbolo da «hipocrisia da esquerda moralista» e ironizando com frases como «o guru do progressismo» ou «o profeta do Sul». Além disso, este artigo destaca que o meu caso foi usado para «desacreditar não só a pessoa, mas também o pensamento crítico e os movimentos que ele defende», «desvirtuando a discussão de fundo» e usando o caso para «ajustar contas políticas». (https://www.mdpi.com/2673-5172/6/2/60)
Alguns exemplos documentados.
CLACSO
No dia 15 de Abril de 2023, a CLACSO emitiu o seguinte comunicado:
CES
O cancelamento foi imediato. A investigadora Marta Araújo afirmou com indisfarçável orgulho e perante testemunhas (uma delas autoriza-me a mencionar o seu nome, o antigo director do CES, António Sousa Ribeiro) que fora ela a fonte anónima dos artigos de Fernanda Câncio no Diário de Notícias, a partir do capítulo em que eram difamados, não apenas três investigadores do CES, mas a instituição no seu conjunto. Esta investigadora e a sua colega Silvia Maeso já em 2014 diziam na Cova da Moura (Bairro periférico de Lisboa onde trabalhávamos no projecto ALICE) que era tanto o dinheiro para os projectos do Boaventura que talvez viesse da CIA, que o Boaventura escrevia muitos livros porque eram os assistentes quem os escrevia, e que o Boaventura não se interessava pelo racismo, apenas pelo colonialismo (testemunha proposta à Comissão Independente que pede anonimato). No entanto, quando em 2015, os companheiros da Cova da Moura foram vítimas de brutalidade policial, quem os acompanhou ao Parlamento para protestar contra a violência policial fui eu.
“fruto del trabajo que llevamos haciendo vários GTs a raiz de las denuncias sobre Boaventura de Sousa Santos”. Na altura, eu ainda era director emérito do CES, apenas auto-suspenso para facilitar as averiguações. Este email foi posteriormente retirado pela direcção.
Conferências
Tribunal Universal dos Direitos da Natureza
A 27 de Março de 2024 fui demitido do Tribunal Universal dos Direitos da Natureza, que ajudei a fundar, com um documento que ficará para a história vergonhosa dos processos inquisitoriais naturalizados pelo #MeToo. Este documento é ilustrativo do modo como em democracia é hoje possível transformar denúncias nunca confrontadas em nenhum fórum com provas da sua falsidade em condenações “fundadas em provas evidentes”. Isto sucede sobretudo em ONGs internacionais financiadas pelo Norte Global (maioritariamente os EUA, tais como USAID, Fundação Ford e a Open Society de George Soros).
Livros censurados
Censura do meu nome como organizador do livro por parte da editora colombiana (Siglo del Hombre, hoje Siglo). Fui posto perante o dilema de insistir na inclusão do meu nome e o livro não ser publicado ou aceitar retirar o meu nome para que o livro fosse publicado. Como o meu compromisso era com a luta dos jovens revoltosos de Cali, e com os colegas que aceitaram escrever capítulos, incluindo os meus dois jovens co-organizadores (uma ex-posdoutoranda e outro doutorando), senti-me forçado a aceitar a censura.
Capa original
Capa censurada
A extrema-direita e a “verdadeira” esquerda
Pouco depois de se iniciar o meu cancelamento, Mitha Gabriel Ribeiro, então deputado do partido Chega afirmava na Comissão de Educação e Ciência que o “CES era um centro de pensamento esquerdista” e acrescentava com satisfação que “o caso está já quase resolvido”.
A “verdadeira” esquerda esmerou-se também nos ataques sobretudo depois de publicação da sexta carta das supostas vítimas.
Os extremos tocam-se, mas há uma importante diferença neste caso. Quando a extrema direita mata por linchamento a morte é homicídio. O homicídio fortalece-a. Quando a extrema-esquerda mata por linchamento a morte é suicídio. O suicídio enfraquece-a. Os resultados eleitorais provam-no.
Prefácios censurados
Prefácio a um livro Fronteira-Matria de autoria de dois rappers publicado por uma editora portuguesa (Editora Urutau, 2023)
Prefacio para André Neves e Vinicius Terra
Tenho o gosto de vos apresentar um livro escrito a quatro mãos. Conheço e admiro há anos André Neves, enquanto rapper Maze, e fomos parceiros em vários eventos culturais. A ele junta-se neste livro Vinicius Terra cuja poesia também tenho o gosto de vos apresentar. Neste livro mergulhamos no que de mais profundo e rico nos traz o mundo Rap, a capacidade de criar beleza e arte a partir da denúncia sem compromisso da injustiça, da exclusão, do silenciamento e da discriminação em que as nossas sociedades contemporâneas parecem estar cada vez mais viciadas.
São duas vozes distintas em seus estilos poéticos, mas convergentes na temática. Ás vezes faz lembrar a poesia à desgarrada com profunda tradição tanto no interior de Portugal como no Nordeste do Brasil. É um diálogo transatlântico, um livro de travessias pelo triângulo histórico de Portugal, Brasil e países africanos de língua oficial portuguesa. Travessias que também são fronteiras. Diz Maze, “mas o nosso plano é o mar” e responde Terra “Vá que dessa vez os donos sejamos nós?! / É um belo plano”. Continua Terra “ Porque no fundo é só o mar/somente o mar/ inventaremos/ uma Epopeia/ com o título/ ‘Pra Lusofonia Nasce um Novo Dia’”. E logo Maze responde bem consciente do seu lugar de fala, do seu lugar de Rap “ Caro mestre trovador/ por aqui as agruras da vida sulcam-nos a todos/ mas talvez seja ofensivo lamentar-me quando sou/ homem/ branco/ heterosexual/trabalhador/letrado/saudável”. E o livro segue assim, num ritmo envolvente de dores e de esperança, de pesadelos e de sonhos, onde não faltam evocações que nos são caras, da Zeca Afronso à Cesária Évora, do Zé Mario Branco aos Racionais e ao Funk carioca. Este livro faz do luto uma luta e da luta, a utopia de uma sociedade mais justa. E, neste caso, a homenagem devida é ao Rap. Como escreve Terra,
“posto isto
até aqui
o rap nos salvou
até aqui
o rap nos safou
daqui por diante…
Continua
R.E.P.
Ritmo
E Poesia
ritmo de concreto
bumbo caixa objeto
poesia cianureto decreto
dura porrada contra o secreto
Tudo está aqui…
nitidamente
são só duas cabeças transatlânticas
com os pés na aldeia de olho à beira numa perspectiva romântica
feito a brincadeira crua da infância”
E responde Maze:
“algumas vozes soaram na praça meu caro
mas sai caro pensar por nós próprios
porque as ideias alastram
desesperadas por ganhar vida
e parece-me que isso convém pouco
nos dias que correm
e se nos dias que correm
o acaso é caso que
jamais a definir
Abraço… Tamos aí
Abraço… Tamos aí
Abraço…
Tamos
Aí”
Os poemas deste livro não são letras de Rap mas devem ao Rap a sua vida e a beleza do encontro que eles simbolizam. O livro é exemplar na busca das solidariedades sem esquecer as identidades e os contextos. É uma poesia intercultural.
Tenho muitas reservas sobre o conceito de lusofonia, não só pela ocultação que faz das outras muitas línguas que existem e são faladas no espaço que foi colonizado por Portugal, mas também pelo modo como o conceito instrumentalizado por políticos oportunistas e sempre a pensar nos negócios. Pois se houvesse uma lusofonia era na lusofonia do Maze e do Terra que eu apostaria, a lusofonia dos jovens, dos artistas, dos povos inconformados por viverem em sociedades capitalistas, racistas e sexistas, em suma, sociedades injustas. A bandeira do RAP, içada ao alto, seria a lusofonia do abraço contra todas as xenofobias.
Prefácio ao livro de Jaime Breilh, Epidemiología crítica y la salud de los pueblos. Prefacio para la edición en español 2021.
Prefacio para Jaime Breilh.
Les presento uno de los libros más brillantes de epidemiologia que he leído en los últimos tiempos. Hay muchas razones para mi afirmación. Este libro es un libro de síntesis, producto de una larga y brillante carrera científica, escrito por alguien que conoce a fondo el paradigma de la ciencia moderna en el que se basa la epidemiología convencional. Este conocimiento le ha permitido ir a las raíces de este saber e identificar sus presupuestos epistémicos, ontológicos, culturales y políticos. A partir de ahí fue capaz de hacer una crítica radical e implacable de las principales lagunas y limitaciones de este paradigma, y de proponer una poderosa alternativa, basada en las tradiciones de la teoría crítica latinoamericana, de la que es uno de sus más destacados representantes. Leyendo a Jaime Breilh, me acordé del dicho del gran intelectual cubano Roberto Retamar, de quien tuve el privilegio de ser amigo. Decía que el buen intelectual surgido del mundo colonizado por los europeos, por ejemplo, el buen intelectual latinoamericano, tenía ventaja sobre el intelectual procedente del mundo colonizador. Mientras que este último sólo conoce la literatura y la cultura del colonizador, el intelectual latinoamericano conoce la cultura y la literatura tanto del colonizador como del colonizado. Jaime Breilh es un excelente ejemplo de buen intelectual latinoamericano en el sentido que le dio Retamar. Lo que Retamar no ha dicho, y yo añadiría, es que la contribución de este intelectual va mucho más allá del contexto regional. Es una contribución válida para el mundo en su conjunto. Leyendo a Breilh, uno comprende rápidamente la razón de esta afirmación.
Veamos brevemente los principales méritos de este estudio.
En el plano epistemológico y teórico, este libro forma parte y enriquece significativamente la tradición teórica que suele ser designada por poscolonial o decolonial y que prefiero designar como Epistemologías del Sur para resaltar tanto su dimensión crítica como su dimensión propositiva[1].
Este estudio muestra con una lucidez impresionante, no sólo el fracaso del paradigma dominante de la epidemiologia sino la urgente necesidad de alternativas que no deja de identificar.
Entiendo por epistemologías del sur los dispositivos para identificar y validar los conocimientos nacidos en las luchas sociales contra la exclusión y la discriminación causadas por las tres principales fuentes de dominación de la modernidad eurocéntrica: el capitalismo, el colonialismo y el patriarcado. Las epistemologías del sur no pretenden sustituir el norte por el sur, sino construir formas de conocimiento que reconozcan la diversidad epistémica del mundo y que promuevan el dialogo entre ellas para que todos se enriquezcan y contribuyan así a fortalecer las luchas contra la injusticia social en sus múltiples dimensiones (socioeconómica, cultural, racial, sexual, histórica, generacional). A este diálogo mutuamente transformador, le llamo la ecología de saberes. De ahí que no sea posible la justicia social sin justicia cognitiva. La ciencia moderna es obviamente una forma válida de conocimiento, pero no es la única forma de conocimiento válido.
La contribución más importante de este libro en el plano epistemológico es la elaborada crítica de la monocultura del conocimiento científico eurocéntrico que subyace a la epidemiologia convencional y sus consecuencias. És una crítica asiente en un profundo conocimiento del paradigma científico dominante. En conformidad con la tradición del pensamiento crítico, la crítica tiene dos dimensiones fundamentales, la dimension propiamente epistemologica y la dimension política. El reducionismo positivista que domina la ciencia de matriz eurocéntrica es analizado exhaustivamente, pero la vehemencia de la crítica deriva de una mirada radical sobre las consecuencias sociales e, políticas e culturales de este reducionismo teorico y epistemico. Escribe Breilh: “Todos los medios básicos de reproducción social y la salud de los pueblos están en manos de unos pocos gigantes corporativos. Una dominación con mano dura de los recursos estratégicos y mercancías se logra a través del acaparamiento de tierras y agua, del control de las semillas por medio de la protección de patentes y, en general, del control oligopólico del sistema alimentario y la imposición de una dieta neoliberal. Por tras de la masiva inducción de comportamientos no saludables, pro grandes empresas, en los consumidores, está la formación de enormes corporaciones transnacionales. Se trata de sistemas de salud sometidos a una lógica comercial y oportunista que opera tanto en espacios públicos como privados, bajo un modelo curativo biologicista”.
Entre muchas otras, este libro enriquece los debates científicos y políticos de nuestro tiempo en tres campos fundamentales suscitando tres cuestiones decisivas.
La primera y más decisiva cuestión es esta: ¿la epidemiologia crítica tiene por objetivo proponer otra ciencia o una ecología de conocimientos o saberes? La crítica radical que es hecha al reduccionismo positivista puede llevar a pensar que Breilh aspira a otro modelo de ciencia no reduccionista. Esta es la tradición del pensamiento crítico de matriz eurocéntrica. No podemos olvidar que en el inicio del siglo XX los mejores científicos (Albert Einstein incluido) y filósofos de la ciencia aspiraban a construir un conocimiento transdisciplinar, unificado. No es esta la propuesta de epidemiologia critica presentada en este libro. Breilh sabe que la ciencia en cuanto producción de conocimiento separado de las prácticas sociales tiene límites intrínsecos que provienen del siguiente dilema: la ciencia solo puede responder a preguntas formuladas científicamente. La verdad es que hay muchas preguntas cruciales que no se pueden formular científicamente. Por ejemplo, que es la felicidad? Nuestros ancestros están con nosotros? Cual es el sentido de la vida o el sentido de hacer ciencia? De hecho la segunda pregunta fue formulada por un gran físico teórico, Karl von Weizsacker para ejemplificar los límites de la ciencia. El objetivo humano, colectivo y individual que orienta la investigación de Breilh es el bien vivir, un concepto que proviene de las filosofías prácticas de los pueblos indígenas andinos. El bien vivir no puede ser captado por la ciencia debido a los presupuestos filosóficos occidentales que la sostienen. Es por eso que Breilh defiende “La epidemiología, como todo trabajo científico involucrado en la defensa de un modo de vivir saludable y de la salud, debe abordar sus objetivos con valentía y mente abierta, asumiendo también el conocimiento y sabiduría de nuestros pueblos como un componente vital de la investigación y la acción.” O sea, la epidemiologia critica que defiende Breilh solo puede ser construida sobre la base de una ecología de saberes, un concepto que he propuesto para designar el dialogo mutuamente transformador ente conocimientos diferentes. Por esta razón, la propuesta de Breilh rompe con el pensamiento crítico eurocéntrico y propone un conocimiento que designo por conocimiento pos-abisal, un conocimiento segundo las epistemologías del sur. Porqué pos-abisal?
Inspirado por Franz Fanon, defiendo que el pensamiento eurocéntrico (incluido el pensamiento crítico) es un pensamiento abisal (por último, El Fin del Imperio cognitivo, Madrid, Trotta, 2019). Establece y oculta simultáneamente una diferencia radical entre dos realidades, la realidad que toma por existente y relevante y la realidad cuya existencia no reconoce o, si se reconoce, la considera irrelevante porque es radicalmente inferior o incluso peligrosa. Fanon habla de la zona del ser y la zona del no-ser y yo hablo de la sociabilidad metropolitana (de los seres plenamente humanos) y de la sociabilidad colonial (de los seres subhumanos, los cuerpos y las poblaciones racializadas o sexualizadas). Esta designación evoca la continuidad del proyecto colonial más allá y a pesar de la independencia política de las colonias europeas. Con la independencia se acabó una forma específica de colonialismo (colonialismo histórico: ocupación territorial por una potencia extranjera), pero continuó en muchas otras formas (racismo, expulsión de territorios ancestrales, supresión cultural, aculturación o asimilación, que siempre fue desculturación, xenofobia, etc.). Común a todas las formas es la radicalidad de la diferencia y, por lo tanto, de la inferioridad cualitativa de la sociabilidad colonial en relación con la sociabilidad metropolitana. Las poblaciones que se consideran pertenecientes al otro lado de la línea abisal, al lado colonial, se consideran radicalmente inferiores y, por lo tanto, son inferiores sus modos de vivir, sus culturas, sus conocimientos, sus religiones, sus cuerpos, sus gustos, sus formas de vestir, comer y hablar, sus emociones y sentimientos. En suma, para la epistemologia eurocentrica son seres ontológicamente degradados y como tales sería un grave error político tratarlos como iguales.
El presente libro muestra de modo muy convincente que la epidemiologia dominante está atravesada por una línea abisal que separa el mundo occidental eurocéntrico (sociabilidad metropolitana) del mundo indígena (sociabilidad colonial). Partiendo de esta línea, todo lo que se desvía o diverge de la cultura eurocéntrica que subyace al pensamiento abisal es ignorado o suprimido. El pensamiento abisal se basa en presupuestos monoculturales y, por lo tanto, excluye en el mismo proceso en el que se propone incluir. El monoculturalismo de la epidemiologia eurocéntrica transforma en problema individual de salud todo aquello que no entiende o no cabe en su radar de inteligibilidad, un radar que, según sus premisas, ve todo lo que es digno de ver y nada puede ser válido si no está validado por él. En verdad, lo que ignorado o suprimido por la epidemiologia que yo designaría como abisal son los modos de vivir no capitalistas, no colonialistas e no patriarcales. Los modos de vivir propios de los campesinos, pueblos indígenas y afro-descendientes están más próximos del bien vivir propuesto por Breilh que los modos de vivir considerados “naturales” o relevantes por la epidemiologia abisal. Claro que eses otros modos de vivir, de ser y de conocer tienen limitaciones como las feministas han mostrado de manera elocuente. Pero por eso mismo proponemos las ecologias de saberes. Ellas promueven la transformación no solamente del conocimiento eurocentrico como de los conocimientos del sur epistémico (no del sur geográfico, porque en este domina igualmente el pensamiento abisal)
La separación e incomunicación entre dos modos de vivir se muestra magistralmente en este libro. La denuncia de la línea abisal sólo es posible porque Breilh se basa en una epistemología que desafía radicalmente el monopolio eurocéntrico de la visión y de la evaluación, mostrando que este consiste en una sociología de las ausencias, como designo esta producción como inexistente de todo lo que no cabe en la verdad monocultural. En el plano epistemológico, la sociología de las ausencias es un epistemicidio como he designado negación y destrucción de conocimientos otros.
Al denunciar la sociología de las ausencias, Breilh revela, en un mismo proceso de investigación, todo lo que es negado por ella, un conjunto de experiencias sociales muy ricas, culturalmente diversas, formas de conocer, ser y hablar que confieren otros significados existenciales, éticos y políticos a la vida y la salud individual y colectiva. De la sociología de las ausencias se pasa así a la sociología de las emergencias. Y lo que emerge de la negación eurocéntrica es un mundo muy diverso de experiencias que valen por sí mismas, pero que, además, podrían contribuir a la construcción de sociedades más inclusivas, más justas y solidarias.
La segunda cuestión crucial respeta al ámbito de una epidemiologia pos-abisal. Como afirme anteriormente la ecología de saberes exige un a investigación que capte y valores conocimientos e epistemologías no eurocéntricas. Pero eso no basta. Como se muestra convincentemente en este libro las epistemologías del sur son epistemologías políticas, o sea, apunta para luchas anti-capitalistas, anti-colonialistas y anti-patriarcales. Las epistemologías del norte asientan en cinco monoculturas: la monocultura del conocimiento rigoroso (ciencia moderna); la monocultura de las clasificaciones sociales naturalizadas (hombre-mujer, sociedad-naturaleza, blanco-negro), clasificaciones que producen y ocultan relaciones de jerarquía brutales); la monocultura del tiempo lineal(el progreso); la monocultura de las escalas (el privilegio del global y del universal); y la monocultura de la productividad (la productividad capitalista definida en un solo ciclo de producción). O sea, la ecología de saberes nunca logrará sus objetivos si no es parte de una lucha teórica y política más amplia que incluya las otras ecologías. En este libro, Breilh da indicaciones preciosas en este sentido sobretodo en el brillante capítulo 3.
Finalmente, este libro, suscita una tercera cuestión radical, la cuestión de las metodologías. No es posible avanzar para un conocimiento pos-abisal con base en metodologías que fueran pensadas para promover el pensamiento abisal. Breilh torna evidente que, por ejemplo, la alternativa entre metodologías cuantitativas y metodologías cualitativas, a pesar de relevante, no resuelve el problema metodológico que enfrenta su epidemiologia pos-abisal porque los presupuestos de las dos metodologias es lo mismo y es el presupuesto de un conocimiento separado de otras prácticas, reductor y fragmentador de la realidad. ¿Cómo analizar la dinámica dialéctica de procesos y movimientos contradictorios, constituidos por sistemas y subsistemas con relativa autonomía? ¿Cómo identificar y validar los conocimientos indígenas sin estar en la lucha social con ellos? A nivel metodológico este libro es igualmente innovador porque apunta para metodologías de investigación colaborativas, no extractivistas, metodologías que promueven el estudio con en lugar del estudio sobre, que reconocen subjetividades en lugar de crear objetos de estudio.
Este libro es un libro especializado, pero es igualmente un lúcido y profundo análisis crítico de las sociedades contemporáneas. Abre pistas para pensar que la misma lógica monocultural y colonialista de la epidemiologia convencional dominante aquí identificada en el campo de la salud, puede encontrarse con variaciones, en otros campos como en la educación, en la seguridad social, la cultura, la política, la economía, la religión. Las fracturas y divisiones que dividen nuestras sociedades encuentran aquí pistas preciosas para estudiar. Pero Breilh no se limita a denunciar, sino que propone alternativas que conciben la justicia cognitiva y la justicia histórica como dimensiones fundacionales de la justicia social. A través de la denuncia basada en conocimientos sólidos y la formulación de alternativas de esperanza será posible construir sociedades interculturales, justas y solidarias. Yo no solo en lo que respeta las relaciones entre humanos, sino también en lo que respeta las relaciones entre seres vivientes, humanos y no humanos.
Por estas razones les recomiendo vehementemente la lectura y la difusión de este libro fundamental para enfrentar los tiempos que vienen y los desafíos que comporta.
[1] Sobre las convergencias y diferencias entre poscolonialismo , decolonilidad y epistemologias del sur ver, Poscolonialismo, Descolonialidad y Epistemologias del Sur, CLACSO,2022 (acceso libre).