REFLEXÃO SOBRE A POESIA ( uma vez mais !!! ) – por Adão Cruz
António Gomes Marques
REFLEXÃO SOBRE A POESIA ( uma vez mais !!! )
por Adão Cruz
Dizia Daniel Barenboim, que a música não é o som. Todos sabemos que a música se exprime através do som, mas o som, em si mesmo, não é música, é apenas o meio através do qual se pode transmitir a mensagem da música. Todos conhecemos as notas musicais, todos somos capazes de as dedilhar nas teclas de um piano, mas daí à música vai um abismo. Todos conhecemos as letras e as palavras, todos somos capazes de juntar palavras e com elas comunicar, de forma mais ou menos primária, mas daí a fazer arte literária vai um abismo.
Todos nós possuímos no nosso cérebro o mesmo esquema neural do sentimento, já que é o esquema neural da nossa espécie. Mas o padrão neural do sentimento, o padrão sentimental de cada um, que vai encaixar no nosso esquema neural, é completamente diferente em cada um de nós. Todos, de uma maneira geral, temos o mesmo esquema de vida, mas os nossos padrões de vida são diferentes, desde a camisa à profundidade do nosso íntimo. Cada um de nós vai criando os padrões dos seus próprios sentimentos, através de uma curva de vivência e aprendizagem de uma vida inteira.
Por tudo isto, não é fácil saber o que é a poesia. Penso que a poesia é um sentimento. Sem ter a veleidade de pretender criar conceitos de poesia, sinto a necessidade de a entender e de me entender no seu complexo e maravilhoso mundo. Parece-me, de facto, que ela é um sentimento, no sentido neurobiológico do termo, um sentimento muito subtil, uma espécie de brisa mágica, uma essencialidade rítmica e harmoniosa da vida, provavelmente de uma neuronalidade muito delicada, uma espécie de musicalidade, quase uma ascese ética e estética que nos transporta à mais nobre e sublime expressão da realidade, através das mais impressivas, expressivas e sugestivas formas da nossa linguagem.
O fenómeno poético é entendido como harmonia verbal em que todos os materiais fonéticos e simbólicos se diluem num resultado de suprema fruição estética para quem vive de forma profunda o sentimento poético. O chamado poema, considerado a matriz literária onde habitualmente nasce e germina a poesia, pode ser estéril, pode não passar dos andaimes da construção poética, ou ser mesmo a negação da poesia. A poesia percorre transversalmente qualquer forma de expressão artística, podendo ter uma presença mais viva num texto em prosa do que num poema, ou ser muito mais sentida num quadro ou numa peça de música do que em qualquer forma de expressão literária. Por isso, qualquer obra de arte, qualquer forma de expressão artística, só o é se contiver dentro de si a poesia.
Toda esta forma de ver as coisas é uma crítica válida e até bastante antiga. Muita gente partilha desta inquietação. De facto, há hoje uma tendência para pegar frases soltas ou prosaicas, quebrá-las em versos curtos e apresentar isso como poesia. A forma visual, muitas vezes, dá uma aparência de profundidade, mesmo quando o conteúdo é fraco ou nulo. Este efeito visual pode ser enganador e confundido com lirismo. Muitos leitores (e até críticos) têm receio de parecer conservadores ou desactualizados, preferindo elogiar ou premiar o que não compreendem totalmente, como se o valor da obra estivesse justamente na sua obscuridade, criando um ciclo em que o difícil ou o hermético é automaticamente tido como profundo. Porém, nem toda a poesia que parece confusa pode ser ruim, assim como nem toda poesia clara é boa. O problema surge quando não existe qualquer atmosfera literária e fica apenas a afetação ou o modismo disfarçado de arte. Sempre assim aconteceu, mas hoje o fenómeno amplificou-se pelas redes sociais e pela profusa e facilitada publicação.
O que eu chamo de sentimento poético aproxima-se muito daquilo que muitos filósofos, neurocientistas e artistas tentam considerar como a disposição sensível e criativa diante da vida, e que pode ser traduzido de mil formas, como já disse atrás. O sentimento poético é um fenómeno natural, mas exige refinamento, vivência, tempo, olhar. O virtuosismo não se improvisa e nem tudo o que se vende como arte é verdade.
Ser poeta não é ser um agente da banalização da palavra e da poesia, que é o que tantas vezes se vê, mas ser dono de um sentimento poético consolidado, muito apurado e afinado, idêntico a qualquer outro sentimento da nossa estrutura neurobiológica, capaz de descobrir o valor dos mais banais momentos da existência e dos mais simples processos de humanização do ser humano.
Só assim se entende que o sentimento poético e o sentimento artístico podem enriquecer e enobrecer todos os nossos processos de humanização, podem criar grandes afinidades com a consciência, revolucionar as inquietas questões da nossa mente, aproximar-nos de todos os mecanismos de identificação da verdade, ajudar-nos na difícil procura do caminho da harmonia…e ter a sorte de encontrar a poesia. A poesia é muito fugaz e transcende facilmente a forma. Ela está nos gestos, nos silêncios, na música do quotidiano, nas entrelinhas de uma conversa ou no modo singular como alguém olha o mundo…mas é mesmo, no árduo caminho do poeta, a pepita de ouro ou a pedra preciosa quando a forma a consegue reter.