POESIA – O QUE PENSO – por Adão Cruz

 

 

É muito difícil saber o que é a poesia. Duvido de quem diz que sabe o que é a poesia. Desde a depuração absoluta da palavra à respiração de Deus, tenho ouvido todas as definições. Isto não impede, contudo, o direito que temos à manifestação do nosso pensamento.

Penso que a poesia é um sentimento como outro qualquer. Por isso eu prefiro chamar-lhe sentimento poético. Um sentimento como o sentimento do amor, o sentimento da alegria, o sentimento da tristeza, o sentimento do medo.

Sem ter a veleidade de pretender procurar definições de poesia, sinto a necessidade de a entender e de me entender no seu complexo e maravilhoso mundo. Parece-me, de facto, que ela é um sentimento, no sentido neurobiológico do termo, um sentimento muito subtil, uma espécie de brisa mágica, uma essencialidade rítmica e harmoniosa da vida, provavelmente de uma neuronalidade muito delicada, uma espécie de musicalidade, quase uma ascese ética e estética que nos transporta à mais nobre e sublime expressão da realidade, através das mais impressivas, expressivas e sugestivas formas da nossa linguagem. Ela combina a palavra justa com toda a energia sinestésica e sensível que faz o poema acordar ou deflagrar.

A poesia não é um sentimento de cópia da realidade, mas a simbolização, a evocação e a invocação ao mais alto nível, da beleza e da nobreza da realidade. O fenómeno poético é entendido como harmonia verbal em que todos os materiais fonéticos e simbólicos se diluem num resultado de suprema fruição estética para quem vive de forma profunda o sentimento poético.

O chamado poema, considerado a matriz literária onde habitualmente nasce e germina a poesia, pode ser estéril, pode não passar dos andaimes da construção poética, ou ser mesmo a negação da poesia. A poesia percorre transversalmente qualquer forma de expressão artística, podendo ter uma presença mais viva num texto em prosa do que num poema, ou ser muito mais sentida num quadro ou numa peça de música do que em qualquer forma de expressão literária. Por isso, qualquer obra de arte, qualquer forma de expressão artística, só o é se contiver dentro de si a poesia, o sentimento poético.

Como dizia Daniel Barenboim, a música não é o som. Todos sabemos que a música se exprime através do som, mas o som, em si mesmo, não é música, é apenas o meio através do qual se pode transmitir a mensagem da música. Todos conhecemos as notas musicais, todos somos capazes de as dedilhar nas teclas de um piano, mas daí à música vai um abismo. Todos conhecemos as letras e as palavras, todos somos capazes de juntar palavras e com elas comunicar, de forma primária ou erudita, mas daí a fazer arte literária ou poesia vai um abismo. Criar poesia não é ligar palavras dentro de uma construção ou estrutura chamada poema, encastelar versos uns em cima dos outros, fazer frases labirínticas que ninguém entende, engendrar rimas forçadas ou outras coisas que não passam, muitas vezes, de execuções sumárias da poesia.

Assim sendo, o sentimento poético pertence á nossa área neuronal, à esfera das emoções e dos afectos. Todos nós possuímos no nosso cérebro o mesmo esquema neural do sentimento, já que é o esquema neural da nossa espécie. Mas o padrão neural do sentimento, o padrão sentimental de cada um, que vai encaixar no nosso esquema neural, é completamente diferente em cada um de nós. Todos, de uma maneira geral, temos o mesmo esquema de vida. Todos nos levantamos, todos tomamos banho, todos tomamos o pequeno-almoço, vamos para o trabalho, andamos de carro, frequentamos o café, fazemos férias, todos rimos e choramos, mas as nossas vidas, os nossos padrões de vida são completamente diferentes desde a camisa à profundidade do nosso íntimo.

Os sentimentos não aparecem nem se manifestam de um dia para o outro. Todos nós nascemos, como disse, com os esquemas dos sentimentos da nossa espécie. Mas cada um de nós vai criando os padrões dos seus próprios sentimentos, através de uma curva de vivência e aprendizagem de uma vida inteira. Uma pessoa que tenha tido uma vida repleta de amor, que tenha vivenciado o amor na sua plenitude, tem um padrão do sentimento do amor muito diferente do sentimento do amor de uma pessoa que nunca amou ou nunca foi amada. Uma pessoa que toda a vida viveu na miséria, no meio de agruras e dificuldades de toda a ordem, tem um sentimento de carência totalmente diferente do sentimento da pessoa que nunca teve dificuldades e viveu toda a vida na abundância. Os sentimentos nascem, vivem e vivem-se, constroem-se, elaboram-se, estruturam-se, cinzelam-se, esculpem-se, apuram-se e afinam-se. Para o bem e para o mal. Assim acontece com o amor, o ódio, a alegria, a tristeza, o medo, sentimentos do nosso dia-a-dia. Não acontece tão facilmente com o sentimento poético e o sentimento artístico, porque eles, de uma maneira geral, só fazem parte das pessoas que os vivenciam, que deles necessitam, que os apuraram e com eles se habituaram a conviver. E como é óbvio, mesmo assim são diferentes em cada um de nós.

Então poderemos tentar dizer, cautelosamente, o que será um poeta. Ser poeta é, antes de tudo, ter um sentimento poético muito apurado e afinado, construído através de uma vivência de amor, atracção e dedicação à poesia, lendo muito, escrevendo muito e vivendo a poesia de uma forma indissociável do viver da vida. Mas para além desta aprendizagem de uma vida inteira, é fundamental na construção do sentimento poético uma formação cultural global do ser humano, tão profunda quanto possível, e uma segura formação humanística, a par de uma bem estruturada formação ética e estética. Só assim se entende, como parece comprovado através de estudos psicológicos, sociológicos e neurobiológicos, que o sentimento poético e o sentimento artístico enriquecem e enobrecem todos os nossos processos de humanização, criam grandes afinidades com a consciência, aproximam-nos de todos os mecanismos de identificação com a verdade, afinam todas as outras emoções e sentimentos, e ajudam-nos no caminho do equilíbrio, da justiça e da harmonia.

Penso ainda muitas vezes, que o que andamos para aqui a fazer pouco ou nada tem a ver com poesia. Fazer poesia, ou melhor, pesquisar a poesia como eu gosto mais de dizer, é sentirmo-nos como uma espécie de garimpeiros da poesia. Todos sabemos que os garimpeiros são aqueles homens que, nas margens dos rios das regiões auríferas, passam dias, semanas, meses e anos, a lavar pedras e cascalho, a ver se encontram umas pepitas de ouro. Nós, os que nos consideramos pesquisadores de poesia, passamos os dias a lavar o cascalho das palavras a ver se encontramos algumas pepitas de poesia, o que nem sempre acontece. Com a agravante de que há ouro verdadeiro e ouro falso, nem sempre fáceis de distinguir.

Concluindo, julgo que é um erro pretender que o sentimento poético chegue às pessoas por artes mágicas. Dito por outras palavras, julgo que é um erro pretender levar às pessoas a poesia ou sentimento poético como se de uma prenda banal se tratasse.

Dizia Schiller que o vulgar é tudo aquilo que não desperta outro interesse que não seja o sensível. A arte e a poesia não devem descer ao puramente sensível, à mera receptividade sensorial, à fugaz captação de estímulos incapazes de serem trabalhados condignamente nas complexas oficinas neuronais da nossa mente.

Não devem ser levadas compulsivamente ao povo impreparado, sobretudo de forma massificada, sem que haja uma estrutura cultural produtiva que permita introduzi-las nas suas vidas como metabolitos essenciais, de forma edificante e vivencialmente estruturante. Não é a poesia e a arte que têm de ir ao encontro das pessoas, não é a poesia e arte que têm de descer ao seio do povo, mas é o povo que que tem de ascender ao sentimento artístico e poético. Mesmo que este dito seja um velho lugar-comum, só criando na sociedade, através de políticas culturais autênticas, todas as condições que permitam ao povo reconhecer a necessidade da poesia e da arte, ele poderá sentir a sua procura como um elemento essencial da vida.

1 Comment

  1. Há cerca de quatro anos, no blogue Aventar, o Adão Cruz e eu, travámos uma amistosa polémica em torno desta questão – a natureza da poesia e o seu papel nos dias de hoje. Quem ler os três textos que há dias publiquei, quem ler o depoimento que o Adão acaba de publicar, facilmente concluirá que, por palavras diferentes, mantemos as posições de há quatro anos atrás. Rachel Gutiérrez, uma argonauta brasileira, tem nos seus artigos expendido uma opinião que, embora mais próxima da que o Adão emite, tem particularidades em que dela difere, Parecem-me reunidas as condições para lançarmos uma discussão interessante sobre a poesia, sobre a palavra que, dizem os publicitários citando Confúcio, vale mil vezes menos do que uma imagem. E aqui radica, parece-me, o pomo da nossa discórdia. A palavra é um adorno ou uma alavanca? A poesia eleva-nos até às regiões etéreas, entre harpejos e clarões, ou traz-nos para a terra, para onde se travam as lutas e se enfrentam os inimigos – os animais racionais que nos querem impedir de ser humanos?
    ,

Leave a Reply