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CARTA DE BRAGA -“saudades de Setembro” por António Oliveira

Não há muito tempo, naquelas conversas ligeiras entre um grupo de amigos, quando alguém dizia uma asneira susceptível de ser ouvida fora do círculo, logo um outro dizia, mudando o tom de voz, ‘Cuidado que eles andem por aí’, e este voluntário erro verbal originava sorrisos ou risadas, dependendo da frequência com que era ouvida.

Mas agora sou eu que a escrevo, ‘Cuidado que eles andem por aí’, e alguns deles ocupam mesmo lugares de destaque em administrações de âmbito global, como o senhor Robert Kennedy Jr., bem conhecido como activista anti vacinas e teórico da conspiração, no lugar de Secretário de Saúde e Serviços Humanos do governo do senhor trumpa, e este mesmo com as anedotas sobre o autismo; só ainda não li nada que os ligue ao terra-planismo, ‘mas cuidado que eles andem por aí’, até por ele chamar ‘estúpidos aos cientistas que avisam das alterações climáticas’ (ONU, 25.09.23).

Por isso mesmo, lá pelos states, também continua teimosamente a descrença nas alterações do clima, com o patrão geral a pedir mais queima de carvão, apesar da concordância científica sobre o tema, mas como como tal concordância se deve ao estudo e à leitura, ele não deve ter gostado nada disso, a ver pelo número de livros interditos à leitura, nos estabelecimentos escolares do país.

Evoco a este propósito, uma jornalista que perguntou ao veterano e já retirado Iñaki Gabilondo, qual a questão mais importante que faria se tivesse de entrevistar o tal patrão dos states. Gabilondo disse que precisaria de pensar bem no assunto e umas horas depois mandou-lhe esta pergunta ‘Qual o livro que mais gostou de Juan Sebastian Bach’. Ela publicou pergunta e resposta, dando origem a centenas de comentários de toda a ordem nas redes sociais, nada abonatórias para o tal senhor trumpa.

Toda esta escrita vem a propósito de uma crónica que li há uns dias, assinada pelo historiador Pedro Angosto, ‘Setembro não tem mais cheiro de terra molhada; tem cheiro de incerteza e raiva, insultos e desqualificação constante’ e, a ver por tudo o que nos mostram os ecrãs e as páginas dos jornais (para os que ainda praticam com gosto, o santo sacrifício da leitura), as chacinas de gentes e comunidades, as destruições povoações inteiras, de teres e haveres, os crimes vão muito para além disso.

Mas, e por isso mesmo, recordo com saudade o tempo em que pedia férias para Setembro, por o considerar o mês mais bonito do ano, sem os calores e as filas intermináveis para qualquer lado que nos virássemos para comer, eu e os meus, ou o cheiro da terra molhada depois de qualquer chuvada, mais as conversas intermináveis com os amigos que encontrávamos, ou quando respondíamos às ‘convocatórias’ para tal, da alegria e das expectativas com que se ia às feiras, da tristeza com que víamos chegar o fim do mês, pelo regresso ao trabalho e às aulas dos mais novos que, naquela altura, só começavam (e começavam mesmo!) em Outubro.

Mas um regresso um bocado atrapalhado nestes dias e neste tema, por haver aulas e não haver professores, até porque, escreve no livro ‘O Fim da Educação’, o professor, poeta e crítico literário António Carlos Cortez, ‘Aos estudantes em Portugal, do 1º ciclo ao Secundário, o que lhes é dado viver nas escolas é da ordem da indigência. Nos 1º e 2º ciclos é-lhes roubada a imaginação e a curiosidade. É o complexo da ordem que impera em infantários e escolas primárias. As crianças amestradas, dominadas, sossegadas. Os aparelhos digitais, neste contexto, entram, bem cedo, no quotidiano educativo, e são uma «arma de domesticação maciça»; terei de voltar a este livro um dia destes.

Qual a importância, assim, de tudo aquilo que fomos, do que somos, e do que poderemos ser? A resposta talvez esteja no que disse o sociólogo e empresário Alfons Durán-Pich, a um jornalista que lhe perguntou ‘A sociedade que expulsa do mercado de trabalho as pessoas mais qualificadas, está doente e desorientada?’, já aqui deixada na Carta do passado dia 3, ‘A sociedade de hoje é governada por pessoas medíocres. Agora é como uma associação de bairro onde, às vezes, alguém menos preparado, actua como presidente’ e, por vezes também, nem se lembra da importância do povo nas descidas mecânicas nas ruas das cidades.

Se falássemos em termos de agricultura, como era antigamente em Setembro, na terra da minha Avó, lá onde o Mondego acaba de descer a Serra, não se diria mais do que estas palavras curtas e simples, ‘Há nabos a mais e tomates a menos’. Não, Setembro já não cheira a terra molhada, cheira a incerteza, não cheira mais do que a desdém para quem se dedica à política, não aquela para servir o bem comum, mas aqueloutra para defender os interesses daqueles que só amam o seu país, se houver dinheiro envolvido.

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

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