Disseram-me, já lá vão alguns dias, que um T4 (sem garagem) numa zona próxima do centro em Braga, estaria à venda por mais de dois milhões de euros –escrevo assim, por extenso, porque a quantidade de zeros até me assusta!-, e nem sei se já foi vendido; não há dúvida que é brutal e bem se nota se nota a carestia da vida, com reflexos óbvios nos hábitos das pessoas e mesmo no tipo e escolha de relações e convivências.
Dificilmente, um casal com filhos, se o cabeça de casal não for ‘afilhado’ de algum potentado da Odebrecht ou da EDP, ou beneficiar de outras ajudas ministeriais, daquelas que demoram muitos anos sem dizer “água vai”, poderá ter acesso a uma casinha com acesso fácil ao supermercado, à padaria ou à farmácia e, muito menos, sonhar em pôr algum filho a aprender piano, isto só para falar dos anseios mais comezinhos; e como agora é muito difícil deixar que os filhos andem a jogar futebol nas ruas –vamos lá saber com quem?– até terão de o encaminhar para um colégio privado porque, nas escolas públicas, –já nem se sabe quem entra agora!–
Um catedrático de filosofia raciocinava assim num jornal diário há pouco mais de uma semana, ‘Porque é tão caro viver? A carestia no preço da casa, está a transformar os hábitos de vida e convivência; assim não se pode arriscar, nem preparar-se para ser músico; muitos casais, hipotecados, não podem ter filhos e optam por ter cãezinhos. São os novos filhos das cidades avançadas, “a casa ou a vida!”’
Ao mesmo tempo, segundo o economista Eugénio Rosa, no blog ‘aviagemdosargonautas’, e referindo os lucros, por vezes obscenos, das instituições bancárias, ‘Os lucros dos cinco maiores bancos que operam em Portugal no 3°trimestre de 2023 são imorais e inaceitáveis, perante as dificuldades crescentes que enfrentam as famílias e as empresas e o país. Os bancos seguem à risca as recomendações dadas por Mário Centeno, quando disse ser bom que os bancos tivessem lucros para compensar os que não tiveram no passado’.
Recomendações que parecem ter sido bem recebidas por cá, –DN, 30 de Outubro. Santander, BPI e BCP juntos, mais do que duplicam lucros até Setembro à boleia dos juros– e também aqui ao lado –Diario.es, Outubro, mesmo dia. La gran banca dispara su beneficio hasta un nuevo récord de 19.761 millones, gracias a la subida de tipos–
Questão que o filólogo e sociólogo, Julián Molina Illán, num artigo publicado no Diário 16, explica, dura e cruamente, ‘Acontece que o dinheiro não se quer retirar desses sítios, que não são outros senão os bolsos dos poderosos, dos que mandam na OCDE, nos jornais, nas televisões, nos partidos políticos; dizem que o sistema não é sustentável como está desenhado. Já o sabemos! O que me parece grave é que nos mandem trabalhar até à morte, para os benefícios tocarem sempre aos mesmos’.
E para amenizar esta Carta, desejando a todos um Novo Ano bem melhor que este, conto aqui uma estória aprendida de um colunista que leio há anos, ‘A multiplicação dos pães, no deserto de Betsaida, deve-se a uma iniciativa de Filipe. Para dar de comer à multidão, apresentou a Jesus, uma espécie de orçamento, que lhes custaria mais de duzentos denários. Como não havia hipótese de os conseguir, optaram pelo milagre!’.
Ainda bem que estas coisas não se passam agora, muito menos na política. Hoje, além dos riscos, políticos e outros, que traz agarrados, aprovar um orçamento, é mesmo um verdadeiro milagre!
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor