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A MINHA CRÍTICA AO TEXTO “Deixem de conspurcar a palavra genocídio” de José Manuel Fernandes, publicado a 22 de Setembro passado – por Carlos Pereira Martins

A MINHA CRÍTICA AO TEXTO “Deixem de conspurcar a palavra genocídio”

de José Manuel Fernandes, publicado a 22 de Setembro passado*

por Carlos Pereira Martins

O artigo de José Manuel Fernandes tenta, com uma retórica implacável, desqualificar todas as vozes que ousam classificar o que se passa em Gaza como genocídio. Mais do que uma simples opinião, o texto adopta um tom acusatório e hostil, que ataca tanto os factos como os princípios humanitários. É precisamente por isso que merece uma crítica firme, informada e ética.

O uso selectivo e manipulador da definição de “genocídio”

José Manuel Fernandes baseia o seu argumento principal numa leitura restritiva e juridicamente oportunista da definição de genocídio. Afirma que, por não se provar a intenção deliberada de destruir o povo palestiniano, não há genocídio. 

Mas:

A intencionalidade genocida pode ser inferida dos actos sistemáticos, da escala de destruição, das declarações públicas de responsáveis políticos e militares, e da ausência de medidas para proteger civis.

O Tribunal  Internacional de Justiça (TIJ), instância máxima de justiça internacional, declarou há meses que há indícios “plausíveis” de genocídio por parte de Israel e exigiu medidas urgentes para impedir tal crime. Ignorar isto é desonestidade intelectual.

O autor ignora também os ataques sistemáticos a infra-estruturas civis essenciais, como hospitais, escolas, redes de água e electricidade, aliados ao cerco total imposto à Faixa de Gaza, com cortes de ajuda humanitária, combustíveis e comunicações. Estes factos encaixam, sim, nos critérios definidos nas convenções internacionais sobre genocídio.

Portanto, a negação do genocídio aqui feita não se baseia numa defesa dos factos, mas numa tentativa de silenciar e desacreditar quem se indigna com a barbárie.

 

A banalização da solidariedade e o desprezo pela cidadania ativa

O autor fala em “alimárias”  que peroram na televisão, uma linguagem desumanizante e ofensiva para descrever pessoas e especialistas que denunciam crimes contra a Humanidade. Este tipo de linguagem:

Esta atitude revela mais sobre a postura ideológica do autor do que sobre a realidade no terreno.

 

O mito da “guerra justa” e o uso enviesado do conceito de “guerra urbana”

O autor do texto e jornalista procura justificar as dezenas de milhares de civis mortos em Gaza com explicações técnicas: “guerra urbana”, “escudos humanos”, “ausência de fardas”. Estes argumentos:

 

A desvalorização do sofrimento civil e a manipulação dos números

Fernandes desconfia abertamente dos números das vítimas, que afirma  virem do “Ministério da Saúde de Gaza”, sob controlo do Hamas. Essa desconfiança:

Negar o sofrimento dos outros por motivos políticos viola os princípios da ética e da fraternidade.

 

A tentativa de inverter a acusação de ódio e preconceito

O autor acusa quem usa a palavra “genocídio” de perpetuar preconceitos anti-semitas. Esta acusação é tão perigosa quanto infundada.

Recusar o genocídio de um povo não é anti-semitismo. É uma exigência de justiça, humana e civilizacional.

 

A falta de verdade e a arrogância eurocêntrica no discurso diplomático

Finalmente, o desprezo pelo reconhecimento do Estado da Palestina como “alinhamento com Andorra ou São Marino” revela um complexo de superioridade diplomática injustificável:

 

Conclusão

O texto de Fernandes não é uma análise informada, é um exercício de desinformação e desumanização, que contraria os valores fundamentais da solidariedade, da ética, da fraternidade, da cidadania e dos direitos humanos.

Ao negar o genocídio, ao descredibilizar os mortos, ao atacar os que protestam e ao defender uma versão simplista de “guerra justa”, o autor está, conscientemente ou não, a legitimar a barbárie.

Mais do que nunca, o mundo precisa de consciência, não cinismo; de compaixão, não calculismo; de verdade, não propaganda. Gaza não precisa de mais vozes a negar a realidade. Precisa de quem tenha a coragem de nomear a violência, exigir justiça e defender a vida.

 

*Nota do Editor

Não se reproduz no final o texto de José Manuel Fernandes, como o autor do texto que agora se publica o faz no original, por não termos obtido a autorização prévia, que, na verdade, não solicitámos nem a José Manuel Fernandes, nem ao Observador.

 

 

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