Entre Véus e Silêncios: Verdades Interditas na Guerra entre Israel e o Irão – por Carlos Pereira Martins

Entre Véus e Silêncios: Verdades Interditas na Guerra entre Israel e o Irão

por Carlos Pereira Martins

É uma das marcas do nosso tempo: quanto mais urgente parece o julgamento, mais rarefeita se torna a compreensão. E nada expõe com tanta crueza esta tendência como a tentativa de compreender — com rigor, distanciamento e honestidade intelectual — o conflito que hoje opõe Israel ao Irão. O que se apresenta, nas manchetes e nas declarações oficiais, como uma colisão entre o Ocidente democrático e o radicalismo teocrático do Médio Oriente, revela, ao olhar mais atento, uma teia densa de motivações ambíguas, temporalidades suspeitas e silêncios convenientes.

Com efeito, não é tarefa fácil — talvez seja mesmo uma tarefa vã — chegar a conclusões sólidas, lógicas e suficientemente fiáveis sobre os reais objectivos das partes envolvidas. A guerra, como sempre, é um teatro onde a verdade é a primeira vítima e a propaganda, o mais fiel general.

Não surpreende, portanto, que mesmo vozes habitualmente críticas e distantes das polarizações fáceis, se deixem arrastar pelo argumento aparentemente mais sólido: “Neste caso, Israel até terá razão.” E o raciocínio que se segue é, à primeira e até à segunda e terceiras vistas, convincente. 

O Irão é governado por uma elite clerical reaccionária, herdeira do pensamento dos Aiatolas, que impõe uma ordem social retrógrada, suprime liberdades fundamentais e exerce um poder brutal, sobretudo sobre mulheres, dissidentes e minorias étnicas e religiosas. Além disso, sustenta material e logisticamente grupos armados — como o Hezbollah, o Hamas ou os Houthis — cuja acção ultrapassa há muito os limites da resistência legítima para entrar no campo do terrorismo.

Esses factos são indesmentíveis. E, contudo, a sua invocação não deve funcionar como dispensa do pensamento crítico. 

Uma verdade, por mais crua que seja, pode tornar-se instrumento de manipulação se for utilizada para justificar cegamente todos os actos de quem se apresenta como seu adversário.

A pergunta que se impõe, então, é esta: se o Irão representa, de facto, uma ameaça existencial tão iminente, sobretudo com o seu alegado avanço no desenvolvimento de uma bomba nuclear, porque razão Israel esperou até agora para actuar com a violência e a visibilidade que hoje testemunhamos? Será plausível que uma ameaça dessa magnitude tenha sido ignorada durante tanto tempo por um Estado cuja doutrina de segurança se baseia na antecipação e no uso preventivo da força?

Ou terá havido, como parece cada vez mais provável, uma conjugação de factores internos que tornaram conveniente — não inevitável, mas conveniente — o alastramento da guerra?

Não se pode ignorar o contexto. Até há poucas semanas, Israel enfrentava uma das suas maiores crises de legitimidade internacional. As operações militares e a destruição e genocídio em Gaza, condenadas por uma parte crescente da comunidade internacional, acumulavam acusações de violações do direito internacional humanitário, limpeza étnica e genocídio. Vários países, antes aliados incondicionais, passaram agora a manifestar publicamente o seu repúdio pelas acções israelitas. Benjamin Netanyahu, cada vez mais isolado política e judicialmente, via a sua posição interna fragilizar-se.

E, aqui, surge outra dúvida: se Israel mostrou ser capaz de usar tanta crueldade, mentira e hipocrisia com a Palestina e Gaza, não será bem capaz de encenar, mentir e usar cruelmente a população e o estado Iraniano para os seus objectivos neste momento?

E eis que, subitamente, o foco da narrativa muda. O inimigo deixa de ser a criança palestiniana soterrada sob escombros para passar a ser o cientista iraniano em laboratório secreto. A pergunta que alguns ousam colocar — mas que muitos evitam formular — é se esta guerra, para além das motivações estratégicas, não terá também um valor instrumental, quase terapêutico, para um governo em estado avançado de desgaste e degradação. 

Num país profundamente dividido, nada une mais do que um inimigo externo de proporções épicas. E, para isso, o Irão serve melhor do que ninguém: ameaça real, conveniente e sempre disponível.

Seria, claro, um erro grotesco inverter o maniqueísmo e transformar Israel no vilão absoluto desta história. Os perigos do regime iraniano são reais e concretos. A sua ambição regional é conhecida, o seu desprezo pelos direitos humanos, evidente. A manipulação religiosa do poder e a repressão violenta de qualquer dissidência tornam-no, de facto, um regime sombrio. Mas reconhecer isso não pode implicar ignorar as contradições do lado oposto. Se o Irão instrumentaliza o terror, Israel não hesita em instrumentalizar o medo.

Além disso, paira uma questão moral mais profunda: poderá um Estado democrático — como Israel afirma ser — recorrer aos mesmos métodos que denuncia no seu inimigo? Assassinatos selectivos, destruição de infra-estruturas civis, punições colectivas, propaganda, manipulação mediática? Se os meios forem idênticos, o que distingue, no fim, os regimes? O objectivo? A narrativa? A aliança com o Ocidente?

As guerras, por definição, deformam a verdade. Mas há guerras que a apagam quase por completo, substituindo a análise pela emoção, o juízo pela identificação cega, a crítica pelo tribalismo. A guerra entre Israel e o Irão corre esse risco — e talvez já o tenha consumado. No ruído das sirenes e no eco dos mísseis, deixamos de ouvir as perguntas fundamentais. Perdemos, pouco a pouco, a capacidade de ver as zonas cinzentas, os dilemas éticos, os paradoxos estratégicos.

Porque, no fundo, talvez a mais perigosa arma desta guerra não seja nuclear, nem balística, nem sequer retórica — mas sim a nossa pressa em escolher um lado antes de compreender o todo.

2025 Junho 14

 

 

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