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CARTA DE BRAGA – “do passado e do presente” por António Oliveira

Era a década 60/50 a.C. e um cidadão romano que na situação até era imperador, Júlio César, achou que uma ponte de madeira (não existiam ainda as grandes construtoras especialistas em betão) sobre a junção do Reno com o afluente Mosela, seria o caminho ideal para entrar na terra dos Godos e dos Germanos; diz a História que foi o primeiro romano a fazer tal caminho, devidamente amparado por centuriões e centúrias, que nem o deixariam ficar mal, numa eventual fotografia.

Quero dizer com isto que, aquilo a que chamamos hoje Ocidente –ele tinha partido da que era conhecida por Gália, ‘França, Bélgica, Holanda e Luxemburgo’, mais a parte da Itália que Roma dominava– a que depois veio anexar a Hispânia, Cartago e outras mais porções de territórios em volta do Mediterrâneo, nasceu de uma ponte de madeira, cuja segurança ainda hoje nos faz tremer e as razões são diversas.

De qualquer maneira saíram dessa mesma ponte de madeira, por uniões, guerras, conquistas e outras malvadezes, a maioria dos tidos por impérios que, durante alguns séculos, dominaram o mundo conhecido então, e até mesmo depois de um Senhor, Vasco da Gama, nascido em Sines, uma povoação marinheira do Alentejo, lhes ter aberto as portas para a globalização e novas terras; mas controlaram, mandaram e exploraram tais terras, com consequências variadas que agora até ‘empurram’ os apaniguados e afins do ‘americano bufão que queria ser um império’, assim diz dele o escritor Alberto Montagud, no periódico ‘Nueva Tribuna’, de 17 de Outubro.

Para o colunista Paco Peris, no ‘Publico.es’ do dia 7, com o sugestivo título ‘Os engenheiros do caos’, este assunto é fundamental, ‘Os eleitores punem as forças políticas tradicionais e voltam-se para líderes e movimentos cada vez mais extremistas, porque se sentirem ameaçados por uma sociedade multiétnica, penalizados pelos processos de inovação e globalização que as elites os fizeram engolir, em altas doses, no último quarto de século; a imigração tornou-se assim a arma narrativa mais poderosa dos engenheiros do caos: fácil de usar, altamente emocional e extraordinariamente amplificável. Desperta medos e fobias, raiva e ansiedade de identidade’.

Mas a parte de cá da tal ponte, parece ter entrado em colapso, seguindo as palavras de Gerard Fageda, correspondente em Bruxelas do mesmo periódico, ao escrever também no dia 7, ‘Os líderes europeus continuam a ceder aos EUA, para evitar maiores iras de Trump, o que, ironicamente, pouco contribui para melhorar a imagem da União Europeia, e a afasta mais da autonomia desejada, numa actuação lamentável da Von der Leyen, subserviente a Trump, e envolvida em uma corrida armamentista sem sentido’.

Na verdade, já estamos a viver numa sociedade que substituiu o pensamento pelo olhar, como se pode comprovar facilmente pela substituição da política pela imagem, ‘pelo boné de Trump não ser apenas um acessório, mas a condensação simbólica de sua ideologia, uma ferramenta de sedução em massa que se conecta com emoções profundas, ou com Milei, cuja moto-serra não representa uma política concreta, mas uma promessa de ruptura, ‘Não estamos mais falando de cortes com tesoura, mas de demolição com moto-serra’’.

Estas palavras são do investigador de política Toni Aira, que acaba de publicar ‘Mythologists. A Arte de Seduzir as Massas’, um ensaio onde analisa como os líderes políticos constroem narrativas visuais a apelar à emoção, e não à razão. Mas Toni Aira pensa que este período pode ser revertido, ‘Creio muito na lei do pêndulo. Estamos claramente num extremo e, como seres humanos, temos a tendência de um extremo ao outro. Espero que alguma e certa revolução da informação venha, e que ser ignorante deixe de ser sexy’.

Mas não devemos esquecer que tais engenheiros do caos, foram os primeiros a perceber como a raiva é uma fonte colossal de energia, a poder ser explorada por algoritmos, para atingir qualquer objectivo. Um estudo recente do MIT descobriu que informações falsas têm, em média, 70% mais possibilidade de serem partilhadas online, por serem mais originais e envolventes que a verdade. De acordo com o estudo, nas redes sociais, a verdade leva seis vezes mais tempo que as fake news, para chegar a 1500 pessoas. Funciona a persuasão a serviço da fraude e da manipulação.

E a terminar esta para da Carta, uma afirmação do ensaísta holandês Rob Rimen, com farta divulgação no mundo do jornalismo europeu, ‘Uma democracia é guiada por valores morais e espirituais, ao mesmo tempo que uma democracia de massas, como a impulsionada por Trump, é guiada pelo medo e pela ganância’.

Mas devemos ter em atenção que a política também se resume nos detalhes, nos gestos e nas percepções que agora transcendem fronteiras em tempo real. Lembro Eduardo Lourenço através de uma frase que tirei do seu ensaio ‘Montaigne ou a vida escrita’, porque até parece referir estes tempos, ‘Uma Europa cortada da sua relação com os valores culturais que criou, indiferente à sua herança e à sua riqueza cultural, será apenas uma Disneylândia para a nossa pseudo-infância de europeus’.

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

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