Não sei qual é a ‘marca’ delas, também não o pergunto aos ‘funcionários’ que, duas vezes ao ano, lhes vêm aparar as pontas, aqueles galhos fininhos que as acrescentam todas até aos fundilhos, a parte mais perto do chão, a que é visita obrigatória dos cães que por ali passam, com ou sem trela, com ou sem a atenção dos donos das trelas.
Só sei que, mal começa a aquecer a Primavera, os tais galhos crescem também, ajudando à nascente de folhas, que não tardam a tapar as ‘vistas’ para as casas da frente, para que a gente não dê fé do que ali, eventualmente, se poderá vir a passar, mas está bem, até são assim as coisas da natureza, para evitar coscuvilhices rascas.
Depois, vindo Outubro e Novembro, as milhares de folhas, que nem sequer são grandes por aí além, começam a dar trabalho aos limpadores da rua, aquelas pessoas por aqui vestidas com uns tristes fatos a dar para o verde, mas a quem devemos também conseguir atravessar a calçada sem agarrar umas meias solas baratas, daquelas que os tais bichos atrelados, vão ‘descarregando’ à vontade, perante o incivismo indiferente dos donos das trelas.
E quando todas as folhas acabam por desaparecer, primeiro pelo vento e depois pela acção dos tais senhores vestidos de esverdeado, ficam nos ramos algumas centenas de pequenos botões, da cor da palha, aquele amarelo desmaiado que não entusiasma ninguém, nem sequer os pássaros, sempre à procura de sementes. Mas como eles também estão a desaparecer, pelos ‘outonos’ de glifosato, que tantos apaixonados tem neste país, a que se junta uma calçada bem juntinha, os botões estão condenados a desaparecer sem honra nem glória, sem dar origem a outras árvores iguais, que me são simpáticas, mas cuja ‘marca’ desconheço.
Cuido que os carrinhos empurrados pelos tais ‘funcionários’, com a triste farda a dar para o verde, terminam por ser como a Porta Libitinensis, a porta por onde, nos circos romanos, saíam os cadáveres dos gladiadores caídos, arrastados por um gancho. Esta porta estava no lado oposto ao de uma outra, virada para oriente e em direcção ao sol nascente, a Porta Triumphalis, por onde saíam os vencedores, entre aplausos e aclamações.
Só que aqui, no lugar onde irão ser descarregados, não haverá nenhum templo, nem uma Libitina caseira, a fazer as vezes da deusa romana dos cadáveres e dos funerais, para acompanhar os botões na despedida, talvez só a presença de outros funcionários, talvez vestidos também com aqueles fatos a dar para um verde triste, que os farão desaparecer sem cerimónias fúnebres, como a sua cor de palha desmaiada já deixava prever.
Não posso deixar de referir Camus, para ainda acrescentar, ‘Não é o fim que justifica os meios, mas os meios que justificam o fim’, porque se não o fizesse, nem sequer as árvores da minha rua, mais as folhas e os botões cor da palha desmaiada, me desculpariam um obituário tão mísero.
Mas pela quase banalidade de todas estas coisas, pelos cães desbragados, pelo incivismo dos donos das trelas, pelos fatos tristes a dar par o verde, a juntar ao final melancólico dos tais botões, até acabo, por vezes, a odiar a realidade, mas como disse uma vez Woody Allen, ‘É o único sítio onde se pode comer um bom filete’.
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor