CARTA DE BRAGA – “das fakes às náuseas” por António Oliveira
clara castilho
Há dias li uma pequena estória, talvez mesmo falsa– uma fake do século XIX– referindo uma conversa entre o cientista inglês Michael Faraday, o pai da indução electromagnética, com o primeiro ministro da ocasião (não sei, nem vou à procura de quem foi), mas esse político, espantado com a quantidade de coisas que lhe eram atribuídas, atreveu-se a perguntar-lhe ‘E para que serve tudo isso Mr. Faraday?’
O cientista que não era parvo, respondeu num notável exemplo de sinceridade, lógica e inteligência prática, que deve ter posto a sujeito a pensar na razão que levam uns a ser só políticos e outros também não, ‘Não sei, senhor, mas um dia o senhor terá que pagar impostos por tudo isso’. Nesta curta resposta (se verdade foi!), está o esboço do que se passa hoje, dos resultados que gerem grandes benefícios económicos e sociais (mas não para todos), razão ainda das enormes desigualdades, agora potenciadas pelas IA’s, que todos pretendem comandar.
Mas hoje, nesta Europa nascida no passeio a cavalo de César, na ponte de madeira que mandou construir na junção do Reno com o afluente Mosela, e enquanto os states e a China, parecem estar a comandar a transição industrial com tarifas, os fortes investimentos e regulamentações específicas para alargar a sua influência, a União Europeia está mais interessada em não ‘mexer muito nalguns dos sectores que ainda domina’, numa altura em que a direita se está a consolidar, ao mesmo tempo que se verifica um retrocesso no Pacto Ecológico Europeu, tudo isto afirmado numa coluna no ‘Publico.es’ de 25 passado, da professora Ciência Política na Complutense em Madrid, Ruth Ferrero-Turrion.
O turco americano Daron Açemoglu, professor Instituto de Tecnologia de Massachusetts e Nobel de Economia no ano passado, tem uma visão algo diferente sobre esta questão: ‘No momento, os Estados Unidos estão em disputa com a China. Trump não quer que o país controle as grandes empresas de IA; quer controlá-las ele mesmo, como um braço do governo americano, ou até mesmo porque é bom para o seu próprio enriquecimento. E é isso que alimenta seu desejo de controle. É o mesmo que se passa com cripto moedas: Trump está interessado em cripto moedas por elas o enriquecerem, e por os seus comparsas lucrarem com elas. É uma situação muito instável e perigosa’.
Situação é também analisada no ‘Le Monde’ de 14 de Novembro, pelo filósofo Michel Fehér, num artigo com o apelativo título ‘Quem promove a unificação da direita europeia, aproveita o caminho aberto por Trump’, onde manifesta a sua preocupação com as consequências do trumpismo nas culturas europeias, perguntando-se como poderá a esquerda lidar com essa vaga ideológica.
E aponta de seguida, as perseguições aos trabalhadores estrangeiros, bem como às minorias mais vulneráveis, os ataques à educação e pesquisa, as violações do direito internacional, tudo coisas que parecem estar a revitalizar a Europa, fazendo dela um bastão do liberalismo político norte-americano. Note-se ainda que, ‘Quando Washington associa a brutalidade ao grotesco, mais seus homólogos no Velho Continente demonstram complacência e subserviência’.
Será este o exemplo do Mal? O antigo professor da Universidade de Stanford, e Prémio ‘IgNobel’ de psicologia pela tese sobre os políticos, afirmando-os como ‘Personalidades extraordinariamente simples’, define assim o Mal: ‘Agir deliberadamente de uma forma que prejudique, maltrate, humilhe, desumanize ou destrua pessoas inocentes, ou fazer uso da própria autoridade e poder sistémico, para encorajar ou permitir que outros ajam em seu nome’.
E acrescenta também, ‘Qualquer ser humano pode renunciar à sua humanidade, movido por uma ideologia assumida irreflectidamente, ou seguir ordens cruéis de autoridades que rotulam outros seres humanos como inimigos; porque, em casos como esses, a moralidade e os sentimentos humanitários podem ser afastados’.
Perante todas estas coisas, lembro-me de ter copiado um dia, um dito de algum amigo (já nem me lembro qual foi!), numa daquelas saudosas tertúlias dos anos oitenta, ‘Deus está morto, Marx está morto, e eu mesmo não tenho me sentido bem ultimamente. Há cada vez mais coisas a provocarem-me náuseas!’.
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor