CARTA DE BRAGA – “de pecadores e de perdão” por António Oliveira

Lembro-me, era ainda miúdo e quando acompanhava a minha mãe à missa, ela ainda de véu na cabeça como era obrigatório então e, a certa altura da cerimónia alguém dizia, ‘vamos rezar pelo pecados do mundo!’ e eu papagueava o que me tinham ensinado na catequese, obrigatória também para os mais novos, mas sempre pensava que as religiões tinham sido ‘inventadas’ para pedir perdão para pecados, que eu garoto, nem sequer sabia quais, nem quantos eram, nem quem eram os pecadores. 

Também pensava que aos pedidos de perdão, se tivessem algum efeito, garoto era, deviam ser feitos em cerimónias especiais, diferentes e a horas apropriadas, nunca ao começo da manhã, mas com os seminaristas alinhados a cantar e a passear as coroinhas da nuca a caminho da Sé, para dar alguma importância ao acto, mas não ali, no meio de gente a pensar no que teria de fazer para o almoço, dos rapazes de olho nas raparigas que eu bem via, das beatas já bem antigas a desfiar rosários como se fossem empreitadas, de gente a olhar para os botões dos sobretudos e samarras porque o frio apertava lá fora. 

Também deviam ser escolhidos alguns pecadores bem conhecidos, que pudessem chamar pessoas para as cerimónias, mas pecadores especiais, que pudessem carregar aos ombros, com custo e sacrifícios notórios e pesados, todos os pecados que seriam do mundo, apesar de gente não conhecer do mundo muito mais do que uma ida à aldeia da minha avó, ou de uma outra com um primo afastado, a uma cidade a meia centena de quilómetros, para ver um dos grandes do futebol de então. 

Mas em todas as viagens que tinha feito, tanto à aldeia como à cidade do futebol, não tinha encontrado gente com cara e jeitos de serem grandes pecadores, a menos que eles disfarçassem muito bem, apesar de também saber que os pecados de cada um eram para se esconderem, até chegar às filas das confissões para a semana da Páscoa, ou de uma outra qualquer com a mesma importância. 

Os tempos mudaram muito desde então, vivemos numa época em que podemos adquirir de imediato informação já convenientemente acompanhada por fotos e textos de razoável credibilidade, apesar dos fakes, das montagens e dos manhas, todos especialistas em confundir e inventar factos e autorias e, por que não, pecados.

Se fosse agora, o meu problema dos tempos de garoto até já teria solução, se considerarmos o auxílio desinteressado das redes sociais, especialistas em disseminar conteúdos com veracidade mal confirmada e também por saberem, como afirmou Goebbels ‘Uma mentira repetida mil vezes, torna-se verdade’ e nelas, a repetição tem apenas o custo do tempo de um click

Aliás, Mark Twain também já tinha feito um apelo a toda a sua ironia, para deixar escrito ‘Qualquer referência ou notícia inventada, pronunciada com convicção, tem muitas possibilidades de enganar’, pelo que, se juntarmos estas duas citações com imaginação a malvadez, arranjar ou inventar pecadores será (é!) uma ‘arte’ específica e adaptada a estes tempos, embora a dispensar o desfile dos ‘coroinhas’!

Apesar de tudo e da ironia que perpassa por todo este texto, sei perfeitamente que compete à ciência e à informação ‘mostrar’ a realidade dos factos, como compete à filosofia, especialmente à ética, analisar o ‘universo’ onde o homem se movimenta, para lhe explicar o melhor possível, o significado e a finalidade da sua existência. 

Não passam de questões de reconhecimento e aceitação mútua, mas que, de algum modo, fazem também o único caminho para o homem se conhecer a si mesmo, o sonho último de todos os filósofos e de todos os poetas. 

E a confirmar este texto, circulou durante décadas e continua a circular, que Groucho Marx teria no seu epitáfio, ‘Perdoem-me por não me levantar’, mas não passa de um fake sinistro, por no epitáfio constarem apenas as datas do nascimento e do passamento do actor. 

O filósofo e escritor Parra Montero, também explica isso, bem como todas estas dúvidas que me acorrem volta e meia, ‘Diz-se que uma boa mentira é melhor que uma má verdade, tudo reside na forma de a anunciar e na rotundidade com que se exteriorizam as convicções!

Como rotundo e apelativo é este escrito, achado num quadro preto à porta de um bar, ‘Necessitam-se clientes. Não é preciso ter experiência!

Também aceitarão pecadores, daqueles, dos antigos, dos de se pedirem rezas? E com desfile de ‘coroinhas’?

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

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