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CARTA DE BRAGA – “da História e das ruínas” por António Oliveira

Li num diário daqui ao lado, o ‘Publico.es’ de um dos dias derradeiros do ano passado, um artigo do filósofo Santiago Alba Rico, onde afirmava ‘Os democratas finalmente aceitaram que a História não só rima, como realmente se repete’. Não tenho quaisquer dúvidas de que a afirmação não só é correcta, por ser confirmado cada pela minha memória e pelas minhas leituras e, assim poder ver ouvir e ler em permanência, como se está a repetir o que se passou nas décadas de 20 e 30 do século passado.

Alba Rico conta esta repetição à sua maneira –Hitler está morto e não ressurgirá; Trump tem cabelo laranja e nunca leu um livro na vida– mas o filósofo também salienta, ‘É o mesmo fascismo que retornou agora num mundo diferente, mas repleto de armas nucleares, corroído pelas mudanças climáticas e colonizado por novas tecnologias, muito mais poderosas do que o rádio e a televisão. No entanto, a estrutura é a mesma: um desprezo ostensivo pela democracia, a adesão descarada à violência e potencial perseguição eugénica de minorias’.

E pelo comportamento destes dois e de mais algumas ‘figurões’ nacionais e internacionais, em lugares de chefia e orientação de grupos que organizaram e comandam –quando não de partidos, regiões e parlamentos– podemos ainda verificar nas palavras do também filósofo Franco ‘Bifo’ Berardi, no seu novo ensaio, onde reflecte um mundo pós-Gaza, ‘O primeiro concebia a ditadura branca como um exercício totalitário do poder estatal. O segundo concebe a ditadura branca, como um exercício igualmente totalitário do poder do mercado, e da oligarquia plutocrática’.

Podemos, como poderá qualquer pessoa que tenha estudado e aprendido nas disciplinas das Humanidades, as que tiveram uma importância fundamental no ensino depois da 4ª classe, até alguns anos atrás, ver como as tecnologias da informação e a desigualdade social, que elas aumentaram, a perda dos vínculos comunitários e sociais, o elitismo daquilo a que ainda se continua a chamar ‘esquerda’, mais as consequências de tudo isto nos pensamento e comportamento colectivos, que os media nos mostram e fazem chegar, por qualquer meio, a toda a hora e em todas as situações.

E o escritor David Torres, na habitual crónica no ‘Nueva Tribuna’ do dia a seguir ao Natal, pergunta se o que estão a fazer no mundo tais figuras, ‘os donos dos lugares de fazer dinheiro’, exactamente iguais ao segundo, ‘Que diabos fazem os banqueiros para acumular lucros estratosféricos? Porque para alguém ganhar quantias obscenas de dinheiro, alguém tem de perder. Será uma questão de fé ou confiança, como com os agiotas de bairro? Creio que são mais em empréstimos, juros, comissões e taxas exorbitantes; só que aqueles donos, em vez de te quebrarem as pernas, te põem na rua e ficam com a tua casa’.

Passam-se factos e acontecimentos estranhos, dificilmente explicados e justificados em muitos lugares e, nestes últimos anos, um curtíssimo espaço de tempo quando se pensa em História, mas onde vemos ‘enrolar’ classes sociais tão diversas como os países, por razões que os aproximam a todos, mesmo que seja só por um motivo que julguei afastado há cinquenta anos, nos Idos de Abril: acreditei então na derrota do fascismo, esquecendo como só somos um povo pequeno, habitando e vivendo num país também pequeno, mas à beira mar plantado!

Apesar de tudo, não consigo esquecer o temor que Hannah Arendt escreveu no ensaio ‘O Presente’, há já alguns anos, ‘O que é real são as ruínas, o que é real é o horror do passado, o que é real são os mortos que você esqueceu’.

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

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