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SER PORTUGUÊS! – por Carlos Pereira Martins

SER PORTUGUÊS!

por Carlos Pereira Martins

Há qualquer coisa de imediatamente reconhecível num português. Mesmo a milhares de quilómetros de casa, no meio de uma multidão anónima, há sinais subtis — um modo de falar, uma certa postura, um olhar entre desconfiado e caloroso — que denunciam a origem. Diz-se muitas vezes, em tom de brincadeira, que um português se identifica “à légua”. E há verdade nisso.

Talvez comece pela forma como ocupamos o espaço. O português tende a observar primeiro, a medir o ambiente antes de se impor. Não somos, por tradição, um povo espalhafatoso. Há uma contenção muito própria, uma mistura de humildade e reserva, herdada de séculos de vida difícil, de trabalho duro e de adaptação constante. Mas basta quebrar o gelo para surgir outra característica profundamente portuguesa: a hospitalidade. O português recebe como quem acolhe família. Insiste para que se coma mais um pouco, pergunta se está tudo bem, faz questão de acompanhar até à porta. Há um calor humano discreto, sem excesso de cerimónia, mas genuíno.

Falamos do português comum, do geral. Como em tudo e com todos, … há casos patológicos !

Outra marca inconfundível é a saudade. Não apenas a palavra, tantas vezes apontada como intraduzível, mas a maneira como sentimos o tempo e a distância. Portugal foi um país de partidas: marinheiros, emigrantes, pescadores, soldados, trabalhadores espalhados pelo mundo. Durante séculos, as famílias habituaram-se à ausência, à espera e à esperança do regresso que, infelizmente, ou pela guerra ou pelas condições difíceis de uma emigração sem apoios e como último recurso para o sustento dos que partiam e dos que ficavam, poderia não ter regresso. 

Isso moldou profundamente o carácter nacional. O português aprendeu a viver entre a alegria do encontro e a melancolia da separação. Talvez por isso a nossa música, a nossa literatura e até as conversas mais simples tenham frequentemente um fundo nostálgico.

Há também uma extraordinária capacidade de adaptação. Poucos povos estiveram tão espalhados pelo mundo durante tanto tempo. Dos Descobrimentos à emigração contemporânea, os portugueses aprenderam a integrar-se em diferentes culturas sem perder completamente a sua identidade. É comum encontrar portugueses que falam várias línguas, que se adaptam rapidamente a novos contextos e que conseguem criar comunidade em qualquer lugar. Talvez venha daí aquela habilidade tão portuguesa de “desenrascar”: improvisar soluções, contornar dificuldades e seguir em frente mesmo quando os recursos são poucos.

A história ajudou a consolidar estas características. Portugal nasceu num território pequeno, frequentemente ameaçado por conflitos externos e crises internas. A necessidade de sobreviver e afirmar independência criou um povo resiliente, habituado a enfrentar dificuldades sem perder totalmente o humor. Depois vieram os séculos marítimos, que abriram horizontes ao mundo e deixaram marcas profundas na identidade nacional: curiosidade pelo exterior, espírito aventureiro e contacto com diferentes povos e culturas.

Ao mesmo tempo, a longa ligação à terra e ao mar criou uma relação muito emocional com os afectos simples: a comida partilhada, a aldeia, o café da esquina, a conversa demorada, a família reunida à mesa. O português pode criticar o país todos os dias, mas dificilmente aceita que um estrangeiro faça o mesmo. Existe um patriotismo discreto, menos exibicionista do que noutros países, mas profundamente enraizado.

E depois há pequenos detalhes impossíveis de explicar totalmente: a forma expressiva como usamos as mãos; a capacidade de rir no meio da adversidade; o hábito de criar intimidade rapidamente; o orgulho silencioso nas tradições; o comentário inevitável sobre comida em qualquer conversa. Tudo isso compõe uma identidade colectiva construída ao longo de séculos.

Ser português é, talvez, viver entre contrastes: humildade e orgulho, melancolia e alegria, prudência e aventura. E é precisamente essa mistura, difícil de definir mas fácil de reconhecer, que faz com que um português seja identificado “à légua”, esteja ele em Lisboa, Paris, Toronto, Luanda, Rio de Janeiro ou no outro lado do mundo.

 

 

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