O «QUINZE GOLO» DA IGNORÂNCIA – por Carlos Pereira Martins

O «QUINZE GOLO» DA IGNORÂNCIA

por Carlos Pereira Martins

Ontem, dia 31 de Março, já depois de ter escrito sobre este assunto que me chocou, ouvi na TSF pelas 18 horas uma locutora muito entretida e sem pára-quedas planar em queda livre na arte de mal falar português. E não me pareceu que fosse imigrante.

Dizia ela que “no prencipio” e que “o empacto” foi grande ou pequeno, já não recordo, e que o “intervalo da sondagem”!

Tudo junto, à molhada, de seguida, um chorrilho de asneira falada.

Pois bem, ao primeiro texto, tive reacções e até quem me colocasse perguntas cujas respostas eu já bem tinha debaixo da língua mas vou agora partilhar com o mesmo grupo de amigos.

 

Era uma vez um país onde se falava português. Dizia-se “décimo quinto golo”, aprendia-se a gramática, e até os jornalistas sabiam que o singular e o plural não são apenas variações estilísticas para uso livre. Mas esse país mudou. Hoje, às 12h40, um locutor de desporto na CNN – repito, locutor, não comentador – anunciou, com a autoridade de quem nunca abriu uma gramática, que certo jogador “marcou o seu quinze golo” da época. Ora, se já temos “o dez título” e “a três ponto” no futebol, porque não dar mais um pontapé na língua?

Mas a questão impõe-se: quem nos reembolsa pelos danos cerebrais causados por esta gente sem cultura nem profissionalismo? Quem nos paga os pontapés linguísticos que nos rasgam os neurónios como se fossem bolas mal cruzadas para a bancada?

Pois bem, vamos lá às perguntas necessárias:

  1. Quem formou os jornalistas que hoje são “pivot” das televisões, rádios e comunicação social?

    • Foram universidades que já não ensinam português, apenas “competências transversais”.

  2. Que escolas lhes deram os diplomas?

    • As mesmas onde se escreve “houveram problemas” nos testes de português e se passa sem saber conjugar o pretérito mais-que-perfeito.

  3. Que professores os formaram?

    • Aqueles que, obrigados a despejar “perfis de competências” em vez de ensinar, assistiram ao descalabro com impotência ou resignação.

  4. Que políticos permitiram este desnível de formação escolar a que chegámos?

    • Os que viram na educação um campo de experimentação, onde se confundiu facilitar com ensinar e nivelar por baixo com democratizar.

  5. Quem aprovou e incentivou o Acordo de Bolonha?

    • Os que acharam que “reduzir custos” e “adaptar-se à Europa” eram mais importantes do que formar pessoas capazes de falar e escrever com rigor. Os que viram que o negócio das universidades, criando a obrigação de completar a aprendizagem dos cursos “marrecos”, com muito menos tempo de formação, com a venda de novos cursos, “Mestrados” e “Doutoramentos”, seria um novo filão para os donos da Academia!

E assim chegámos a um tempo em que a língua portuguesa se tornou num campo pelado de treinos e batalhas onde os pontapés não são dados apenas na bola. Enquanto isso, a cada “quinze golo” que ouvimos, ficamos a pensar se não estaríamos melhor com um VAR para a gramática.

2 Comments

  1. Não posso estar mais de acordo. E o que é assustador é que este facilitar e nivelar por baixo estende-se a todo o ensino, em particular o universitário mais preocupado com o mercado do que com o conhecimento.

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