A Aguieira, Viseu: onde o português se mete à conversa com o insólito… e sai a rir de si próprio
por Carlos Pereira Martins
Na Aguieira, ali prós lados de Viseu, o mundo não gira como os outros. Anda meio de lado, tropeça nas horas e, com sorte, ainda dá uma cambalhota. A rotação segue o vento, e a translação depende da hora do merendeiro — que aqui, diga-se, é mais importante que o almoço.
Aqui e na região, o português não se fala — desenrasca-se. E se não perceberes, azar o teu. Levas logo com um “ah, tu não és daqui, pois não?” e um levantar de sobrancelha que diz mais que meia enciclopédia.
Começa-se o dia com estômago e alma
Esquece o “pequeno-almoço” dito tradicional. Aqui toma-se um mata-bicho, ou, se estiveres mais cerimonioso, um desajum. Pode ser um papo-seco com chouriça a sério — daquela que dá três voltas ao estômago antes de pousar. Agora, se pedires pão sem sal… boa sorte. Vais receber um olhar tão gelado que até o café arrefece sozinho.
Ferramentas da terra e armas de respeito
Se vais trabalhar o campo, nada de enxadas citadinas ou rendidas à agro-indústria. Aqui agarra-se na sachola, que serve para tudo: cavar, limpar e, em último caso, distribuir justiça rústica. Vais limpar a casa? Vassoura de giesta. E se alguém se armar em chico-esperto, leva com ela nas costas — e agradece.
Relações humanas, marmeladas e mal-entendidos
Dar um abraço apertado à vizinha? Ui, cuidado. Aqui isso pode ser “fazer marmelada”, e dependendo da idade da senhora, ou ganhas um beijo, ou uma sacholada. Ambas valem como experiência cultural.
À noite, nada de discotecas. Vai-se ao baile. Dança-se agarradinho, bebe-se um pirolito e pode ser que se engate alguém jeitoso. Ou se leve uma tampa tão sonora que ecoa até à aldeia vizinha. Faz parte.
Meteorologia, medicina e outros flagelos
Se chover? Leva o capote. Guarda-chuva é para turistas. Se estiveres adoentado, nada de paracetamol. Toma um chá de limonete e esfrega-te com banha de porco e aguardente. Se não curar, ao menos afasta os maus-olhados, os maus espíritos e talvez até alguns vizinhos.
Estás cansado? Vai-te deitar na esteira. Se estás com fome será porque a barriga está a dar horas. Precisas da casa de banho? Vais ao cagadeiro. E se largares um trovão? Ficas conhecido como o gaita-de-vento da aldeia. Há piores títulos, vá.
Família, sabedoria e outras pancadas
A sogra? Patroa do inferno, mas faz umas filhós que até o demo pede para repetir. O sogro? Está sempre no café, boné na cabeça, a jogar à sueca e a largar pérolas como “mais vale um burro que me leve que um cavalo que me derrube”.
No médico, não tens uma virose. Tens os azeites trocados. A cura? Um caldo verde, uma pinguita de tinto e, se for caso sério, um três-em-um: benzedura, um chá e uma suadela com quatro joelhos, como se diz mais educadamente.
Expressões que valem mais que mil palavras
Aqui, ninguém é apenas traquinas. É um raio de um piqueno, uma peste, ou — com ternura — um cabrão de um puto. Se partir alguma coisa? Foi o vento. Se te dá um abraço? É para sacar a carteira.
Não se diz que alguém é burro. Diz-se que tem “as ideias a marinar” ou “o cérebro aos saltos”. E se é convencido, ouve logo: “Olha-me este, parece que caga fininho!”
Com sorte? Tem o rabo virado para a lua. Com azar? Está com ele tão apertado como tampa de panela em dia de pressão alta.
Bicharada, silêncios e desarrumações organizadas
Os cães não ladram, ralham. Os gatos não miam, rezingam. E as galinhas? Botam ovos com um suspiro — quando não andam chocas por causa do tempo.
Para se fazer silêncio não se pede com “psiu!”. Aqui diz-se: “Cala-te que até os mortos se revolvem!”
As coisas não se perdem — vão para onde o diabo perdeu as botas. E se te dizem “está no monte, mas eu sei onde”, acredita… mais ou menos.
Estilo e sarcasmo beirão
Alguém está demasiado arranjado? “Está mais enfeitado que o altar da padroeira.” Se se arma em fino? “Deve comer ovos moles às colheradas!”
E se tiver a língua solta, sai-lhe: “Tens mais conversa que vendedor em feira de gado.” Ou melhor: “A tua língua está mais solta que os parafusos da ponte velha!”
Clima, insultos e poesia popular
Está calor? “Está um bafo que nem os porcos aguentam.”
Frio? “Um gelo que até os ossos rangem.”
Chuva? “Mais que em funeral de viúva rica.”
Nevoeiro? “Um torricado que até os fantasmas se perdem.”
E quando a paciência se esgota:
- “Vai à fava, ó melga!”
- “És mais chato que mosca na sopa!”
- “Quem te atura é santo ou está a pagar promessa.”
Moral da história?
Na Aguieira, o português é como o vinho do Dão: encorpado, com personalidade, e capaz de fazer rir, chorar e tropeçar — às vezes tudo ao mesmo tempo.
Se não perceberes o que te dizem, não te aflijas. Sorri, acena, e aceita mais uma fatia de bolo podre, que de podre só tem o nome.
E bebe mais um copo. Fazendo o favor de ser feliz.

