
O DIA EM QUE O TELEMÓVEL PASSOU A SER MAIS IMPORTANTE DO QUE A PESSOA
por Carlos Pereira Martins
Há qualquer coisa de profundamente cómico — se não fosse, por vezes, profundamente triste — na maneira como estamos a construir a sociedade do futuro.
Inventámos máquinas capazes de falar connosco, automóveis que estacionam sozinhos, relógios que sabem quantas vezes o nosso coração bateu durante a noite e frigoríficos que, ao que parece, em breve nos informarão de que estamos sem leite antes de nós próprios darmos pela falta dele.
Mas, entretanto, há uma coisa extraordinariamente simples que a civilização tecnológica ainda não resolveu:
como ajudar uma pessoa idosa a marcar uma consulta sem lhe pedir que decifre um código QR.
E isto tem a sua graça.
Uma pessoa que passou cinquenta ou sessenta anos a trabalhar, a pagar impostos, a criar filhos, a atravessar invernos sem aquecimento central, a cozinhar sem robô, a fazer contas de cabeça e a telefonar quando o telefone servia para telefonar, chega agora aos setenta, oitenta ou noventa anos e descobre que, afinal, é considerada quase analfabeta.
Não porque não saiba ler.
Não porque não saiba escrever.
Não porque lhe falte inteligência.
Mas porque não sabe onde carregar no botão azul que desapareceu do ecrã.
É uma nova forma de analfabetismo: o analfabetismo digital compulsivo.
E tem uma particularidade deliciosa: a pessoa pode ter passado a vida inteira a governar uma casa, uma família, uma pequena empresa, uma quinta ou até uma vida inteira de trabalho, mas, para marcar uma consulta, precisa agora de um neto de 14 anos.
— Avô, dá cá o telemóvel.
E lá vem o neto, com a velocidade de um pianista de concerto, a tocar em sete sítios do ecrã ao mesmo tempo.
— Já está.
— Já está o quê?
— A consulta.
— E onde é?
— Não sei.
— E a que horas?
— Está aqui.
— Onde?
— Aqui!
O avô olha para o ecrã.
Vê um calendário, três códigos, uma fotografia, duas notificações, uma publicidade a umas sapatilhas e uma mensagem do banco.
— E qual é a consulta?
— Essa aí.
— Qual?
— Essa!
E o neto, entretanto, já desapareceu.
Modernidade concluída.
A questão não está em sermos contra a tecnologia. Seria absurdo.
A tecnologia é uma das maiores conquistas da humanidade e pode tornar a vida extraordinariamente mais simples. Pode aproximar pessoas, facilitar pagamentos, permitir consultas à distância, melhorar diagnósticos, reduzir burocracias e dar acesso imediato a uma quantidade inimaginável de informação.
O problema começa quando aquilo que foi inventado para facilitar passa a ser utilizado para obrigar.
Quando o digital deixa de ser uma opção e passa a ser a única porta de entrada para serviços fundamentais, estamos perante uma mudança muito mais profunda do que parece.
Já não se trata de perguntar:
— Quer utilizar a aplicação?
Passámos para:
— Se não sabe utilizar a aplicação, o problema é seu.
E aqui começa a verdadeira aberração.
Porque há uma diferença enorme entre uma sociedade tecnologicamente avançada e uma sociedade que simplesmente digitalizou a burocracia.
Na primeira, a tecnologia serve o cidadão.
Na segunda, o cidadão serve a tecnologia.
E esta última já conhecemos bem.
É aquela em que recebemos uma mensagem:
“Para sua segurança, confirme a sua identidade.”
Carregamos.
“Introduza o código enviado por SMS.”
Introduzimos.
“Agora confirme o código enviado para a aplicação.”
Abrimos a aplicação.
“Por motivos de segurança, volte a iniciar sessão.”
Iniciamos.
“Para continuar, confirme que não é um robô.”
E aparece um conjunto de fotografias onde temos de descobrir quais contêm semáforos.
É particularmente humilhante para um ser humano que passou a vida inteira a reconhecer pessoas, animais, árvores e paisagens ter de provar à máquina que sabe distinguir um semáforo de uma varanda.
E, depois de tudo isto, surge finalmente:
“Ocorreu um erro inesperado.”
Claro.
O erro é nosso.
Não da máquina.
Nunca da máquina.
A máquina é moderna.
Nós é que somos antigos.
Sobretudo se tivermos cabelos brancos.
Há aqui, contudo, uma questão que ultrapassa largamente a comodidade.
É uma questão de dignidade.
Uma pessoa idosa não pode ser obrigada a depender de um filho, de um neto, de um vizinho ou de qualquer outra pessoa para exercer direitos básicos.
E há idosos que não têm filhos.
Há filhos que vivem longe.
Há netos que emigraram.
Há pessoas que vivem sozinhas.
Há pessoas que simplesmente não conseguem acompanhar a velocidade com que os sistemas mudam.
E há, sobretudo, pessoas que não querem transformar cada acto da sua vida numa operação informática.
Não têm obrigação de querer.
A sociedade não pode responder-lhes:
— Então fique para trás.
Porque essas pessoas não ficaram para trás.
Foram elas que nos trouxeram até aqui.
Foram elas que trabalharam quando havia pouco.
Que levantaram casas.
Que cultivaram terras.
Que trabalharam em fábricas, oficinas, escritórios, hospitais, escolas, lojas e campos.
Que fizeram horas extraordinárias quando nem sequer havia a palavra work-life balance para lhes explicar que estavam a trabalhar demasiado.
Foram elas que educaram filhos que hoje lhes dizem:
— Mãe, manda-me isso pelo WhatsApp.
E, quando a mãe responde:
— Não sei como se faz.
O filho, cheio de paciência moderna, explica:
— É muito fácil!
Há poucas frases mais perigosas na era digital do que esta:
“É muito fácil.”
Normalmente significa que quem está a ouvir vai precisar de três tentativas, duas chamadas telefónicas e uma crise existencial.
Não podemos confundir inclusão digital com obrigação digital.
Ensinar uma pessoa idosa a utilizar um smartphone é excelente.
Obrigá-la a possuir um smartphone para poder aceder a um direito é outra coisa.
A primeira é inclusão.
A segunda pode ser exclusão disfarçada de progresso.
E talvez devêssemos recordar uma regra muito simples: uma sociedade verdadeiramente moderna é aquela que oferece mais caminhos, não aquela que fecha todos os caminhos excepto um.
Se queremos que tudo seja digital, muito bem.
Façamos aplicações melhores.
Mais simples.
Mais intuitivas.
Com letras que não exijam uma lupa de relojoeiro.
Com instruções compreensíveis.
Com pessoas reais disponíveis para ajudar.
E, sobretudo, mantenhamos sempre uma porta humana aberta.
Uma pessoa ao balcão.
Uma voz do outro lado do telefone.
Um funcionário que possa dizer:
— Não se preocupe. Eu trato disso consigo.
Não é um luxo.
Não é um atraso.
Não é falta de modernidade.
É civilização.
Porque talvez estejamos a cometer uma curiosa confusão: estamos a tornar as máquinas cada vez mais inteligentes e, simultaneamente, a exigir aos seres humanos que se adaptem cada vez mais às máquinas.
Quando deveria ser exactamente o contrário.
A inteligência artificial, a digitalização, os algoritmos e os smartphones deveriam libertar-nos da burocracia, não transformar-nos em funcionários das nossas próprias aplicações.
E talvez seja altura de perguntar que espécie de progresso queremos.
Porque há um progresso que acrescenta anos à vida.
Outro que acrescenta conforto.
Outro que acrescenta velocidade.
Mas há um progresso muito mais importante: aquele que não deixa ninguém pelo caminho.
Se, para marcar uma consulta, pagar uma factura, pedir um documento ou exercer um direito, uma pessoa de 80 anos precisa de um neto que saiba mexer no telemóvel, então talvez o problema não esteja na idade dessa pessoa.
Talvez esteja na idade da nossa própria ideia de modernidade.
Uma sociedade que respeita os seus idosos não lhes pede que sejam jovens para poderem continuar a ser cidadãos.
E há uma coisa que nenhuma aplicação consegue fazer:
substituir o respeito.
Esse ainda não se descarrega.
Não precisa de palavra-passe.
Não exige autenticação em dois factores.
E, felizmente, continua a funcionar sem código QR.
Basta uma coisa bastante antiga, quase pré-histórica:
bom senso.
