O Barro Preto de Molelos! por Carlos Pereira Martins

O Barro Preto de Molelos!

por Carlos Pereira Martins

 

Há terras que, de tão generosas, dão pão. Outras dão vinho. Algumas dão azeite, batatas, milho, floresta com pinheiros e eucaliptos  e até políticos, embora estes últimos nem sempre sejam uma colheita consensualmente apreciada. Mas Molelos, ali mesmo nas proximidades de Viseu, tem sido, durante séculos, uma terra com uma vocação mais artística: tem o segredo de bem trabalhar o  barro preto.

E não é um barro preto de mau humor, desses que parece ter passado a vida inteira sem apanhar sol. É negro, sim, mas negro de dignidade, de profundidade, de memória e de trabalho. Um negro nascido da própria terra e aperfeiçoado pelo fogo, pela técnica e pelas mãos dos oleiros. Um negro que não precisava de luto para ser elegante.

Um barro negro que faz nos tabuleiros de Molelos ainda melhor em sabor o cabrito assado no forno, qualquer peixe assado com batatinhas da terra e nos tachos, caçoilos e panelas, qualquer bom arroz ou outro manjar.

O barro de Molelos é uma espécie de aristocrata da lama.

Enquanto outras lamas se limitam a sujar botas, pneus e calças de quem se distrai num caminho rural, aquela foi, durante gerações, apanhada por mãos pacientes, amassada, moldada, cozida e transformada também em objectos de arte e decorativos que entravam na vida quotidiana das pessoas: panelas, cântaros, caçoilas, assadeiras e tantas outras peças de artesanato sem as quais uma cozinha antiga seria tão útil como um fidalgo sem dinheiro ou um telemóvel sem rede.

O segredo está, naturalmente, na arte.

Porque do barro, em estado bruto, até a uma bela peça de olaria vai a mesma distância que existe entre um punhado de farinha e uma broa de Vildemoinhos. É preciso saber. E saber muito.

Os oleiros de Molelos aprenderam a conversar com a terra. Não através de palavras — porque o barro, apesar de ter ouvido muito, nunca respondeu —, mas através do tacto. Sentiam-lhe a consistência, conheciam-lhe as vontades, percebiam quando estava pronto, quando precisava de mais água, quando exigia repouso. Depois vinham as mãos, essas ferramentas antigas que não precisam de bateria, carregador ou actualização de software.

E o barro começava a rodar.

Na roda do oleiro, a matéria informe ganhava corpo, curva, destino. Primeiro parecia apenas uma coisa. Depois, lentamente, transformava-se numa panela. E é extraordinário pensar que, durante séculos, tantas cozinhas portuguesas dependeram desta filosofia simples: apanhar lama e dar-lhe uma profissão.

Mas o verdadeiro mistério de Molelos estava no negro.

A cerâmica negra, resultante de técnicas de cozedura cuidadosamente dominadas, adquiria aquele aspecto profundo e particular que a distinguia de outras produções. O fogo fazia a sua parte, mas não sozinho. Era necessário conhecimento, experiência e uma intimidade com o forno que nenhum manual técnico conseguiria ensinar completamente.

O oleiro sabia que o forno também tinha personalidade.

Há fornos temperamentais, como há pessoas temperamentais. Uns colaboram; outros acordam maldispostos. Há dias em que tudo corre bem e outros em que o oleiro abre o forno com a mesma ansiedade com que hoje se abre uma carta das Finanças.

«Vamos lá ver o que saiu daqui…»

E, felizmente, muitas vezes sai beleza.

As peças negras de Molelos possuem essa simplicidade admirável das coisas que não precisam de gritar para serem importantes. Não tinham necessidade de brilhos excessivos, nem de dourados, nem de efeitos especiais. São feitas para servir. Para cozinhar. Para guardar. Para durar.

E talvez seja essa a sua grande elegância.

Hoje, habituados ao plástico, ao aço inoxidável, à cerâmica industrial e às panelas que prometem ter mais tecnologia do que uma nave espacial, custa-nos imaginar o tempo em que uma panela era uma peça com biografia. Vinha da terra, passava pelas mãos de um homem ou de uma mulher, atravessava o fogo e acabava numa cozinha.

Era quase uma viagem iniciática.

A panela de Molelos não nasce numa fábrica onde centenas de irmãs iguais colaboram na mesma linha de produção. Cada peça tem qualquer coisa de pessoal. Um ligeiro traço diferente. Uma curva própria. Uma marca da mão que a fez.

Se calhar por isso duram tanto.

As coisas feitas depressa têm a mania de morrer depressa. As coisas feitas devagar parecem guardar dentro delas alguma paciência.

E Molelos soube guardar uma arte que pertence não apenas à região de Viseu, mas à própria história do trabalho português. O barro preto é mais do que uma curiosidade artesanal: é a prova de que uma comunidade pode transformar um recurso humilde numa linguagem cultural.

A terra de Molelos não escreveu livros. Não compôs sinfonias. Não fez discursos sobre património imaterial. Fez algo mais convincente: ofereceu barro.

Depois vieram os oleiros e fizeram o resto.

Talvez esteja aí uma das mais belas lições desta arte. A matéria, por si só, não basta. É preciso a mão humana. É preciso conhecimento. É preciso transmissão. É preciso que alguém ensine a outro o que aprendeu com quem já não está.

É assim que a tradição sobrevive.

Não pela simples repetição do passado, mas pela capacidade de o levar connosco para o futuro.

Hoje, quando olhamos para uma peça de barro preto de Molelos, podemos admirar-lhe a cor, a forma e a técnica. Mas, se olharmos com um pouco mais de atenção, talvez vejamos outras coisas: as mãos gastas dos oleiros, as horas passadas à roda, o fumo dos fornos, a paciência das famílias, o saber acumulado durante gerações.

E talvez compreendamos que aquele preto não é ausência de luz.

É memória concentrada.

Molelos teve essa extraordinária capacidade de pegar numa coisa que, para muitos, seria apenas lama e dizer-lhe:

— Minha senhora, não fique aí estendida. A senhora vai ser património.

E a terra, pelos vistos, aceitou.

Porque ainda hoje, entre a história e a arte, entre o trabalho e a tradição, o barro preto de Molelos continua a lembrar-nos uma verdade que talvez andemos a esquecer: as mãos humanas são capazes de fazer maravilhas, desde que lhes deixemos tempo, conhecimento e uma boa porção de barro.

E, já agora, um forno que esteja de bom humor!

 

 

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