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Diário de bordo de 14 de Dezembro de 2011

Quando, em 1949, George Orwell publicou Nineteen Eighty-Four, todos viram na genial ficção uma clara advertência sobre os perigos de uma ditadura estalinista se estender a todo o Mundo. Estava bem viva na memória, nas cicatrizes, nas ruínas, o horror do totalitarismo nazi-fascista. O XX Congresso do PCUS começou a diluir esta ameaça e em 1989, com a queda do muro de Berlim, o «socialismo real» entrava em colapso total. Não seria o estalinismo que iria impor uma nova tirania, cumprindo a profecia distópica de Orwell.

 

Orwell, que era indubitavelmente um democrata, não podia prever que o pesadelo de o Big Brother se instalar a uma escala planetária nos podia também chegar através daquilo a que no pós-guerra se chamava o «mundo livre». Mesmo as pessoas de esquerda não acreditariam que um novo totalitarismo estivesse a ser criado, amamentado num Ocidente, dissoluto, imoral, socialmente assimétrico e injusto, mas que parecia imune ao vírus da opressão. Não se imaginava que a globalização da repressão nos pudesse vir de Washington. Que a opressão nos pudesse chegar por via democrática. A bem dizer, referendada democraticamente.

 

Num livro anterior (1945), Animal Farm, Orwell explicara já como se traem revoluções, como se subvertem ideais em nome desses mesmos ideais. Todos viram, como disse, nas ficções orwellianas críticas ao estalinismo; creio que não as podemos interpretar de forma tão estrita – o espírito democrático veiculado pelo neo-liberalismo é, em si, uma traição à democracia. Transforma a liberdade numa alavanca para manter todas as iniquidades que tornaram necessária a implantação da democracia. A «democracia», na versão neo-liberal, concedendo todas a liberdades, começou paulatinamente a destruir a Liberdade.

 

Os governos democratas, ligados a interesses económicos e por eles patrocinados, começam a configurar inamovíveis estruturas oligárquicas. Podemos escolher os governantes que quisermos desde que escolhamos gente corrupta ou que convive com a corrupção, vendo-a, os que não são corruptos activos, como um mal necessário. Se defendemos castigos exemplares para criminosos, aqui del rei, o peso do politicamente correcto e do pensamento único cai-nos em cima. É uma alquimia perversa, invertida – o neo-liberalismo transforma a democracia em opressão, através de métodos democráticos. Converte o ouro em chumbo.

 

O Hélder Costa ontem, no anúncio do seu espectáculo, dizia que Alves dos Reis se arrisca a perder o título do maior burlão português de sempre. Vou mais longe – Alves dos Reis foi um banqueiro mais sério do que estes que nos  governam e a sua burla uma brincadeira de meninos quando comparada com esta de que estamos a ser vítimas. Imaginada em Nova Iorque e executada por toda essa escumalha sem nacionalidade, sem ideal, sem ética… os banqueiros e os seus empregados. Essa gente que fala como se tivesse dignidade e diz as maiores ignomínias com o ar sério de quem cita Platão.

 

A História os julgará. Mas será daqui a muito tempo. Entretanto, seria bom que nós os julgássemos. E não ficássemos, como os animais da fábula de Eduardo Galeano, a discutir se queremos ser fritos em molho de manteiga ou em azeite. Também podemos escolher não ser fritos.

 

 

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