A CANETA MÁGICA – O TRIUNFO DOS PORCOS – por Carlos Loures

Esta série nasceu sob a égide de Jean-Jacques Rousseau e em torno na crítica que, em Do Contrato Social, faz à democracia representativa de que naqueles meados do século XVIII o Parlamento inglês era exemplo eloquente. As principais deformidades do conceito, revelavam-se já em toda a extensão da sua perversidade – o clientelismo, as falsas promessas, as estratégias partidárias que rapidamente ultrapassam e esquecem o compromisso que, implicitamente, o político assume com o eleitor. A verdadeira democracia, entendia Rousseau, só estava ao alcance de um povo de deuses. O saber e a informação generalizados, os avanços da ciência e da tecnologia, transforma-nos em deuses em comparação os contemporâneos do grande humanista suíço. Mas, numa sociedade em que as inovações são incensadas, só o modelo político é arcaico. Parecemos estar condenados a escolher entre totalitarismos assumidos e democracias onde os partidos e a classe política substituem com eficaz hipocrisia a despótica, inflexível e omnipresente autoridade do Grande Irmão.

Todos viram em 1984, a genial ficção de George Orwell uma clara alusão aos perigos de uma ditadura estalinista se estender a todo o Mundo. O XX Congresso do PCUS começou a diluir esta ameaça e em 1989, com a queda do muro de Berlim, o «socialismo real» entrava em colapso total. Orwell, que era indubitavelmente um democrata, não podia prever que um pesadelo do Big Brother a uma escala planetária nos podia também chegar através daquilo a que no pós-guerra se chamava o «mundo livre». Que a globalização da repressão nos podia vir daí. Que a opressão nos podia chegar por via democrática.

Num outro livro anterior (1945), Animal Farm, Orwell explicara já como se traem revoluções, como se subvertem ideais em nome desses mesmos ideais. Todos viram, como disse, nas ficções orwellianas críticas ao estalinismo; creio que não as podemos interpretar de forma tão estrita – o espírito democrático veiculado pelo neo-liberalismo é, em si, uma traição à democracia.

Transforma a liberdade numa alavanca para manter todas as iniquidades que tornaram necessária a implantação da democracia. A «democracia», na versão neo-liberal, concedendo todas a liberdades, começou paulatinamente a destruir a Liberdade. Os governos democratas, ligados a interesses económicos e por eles patrocinados, começam a configurar inamovíveis estruturas oligárquicas.

Podemos escolher os governantes que quisermos desde que escolhamos gente corrupta ou que convive com a corrupção, vendo-a, os que não são corruptos activos, como um mal necessário. Se defendemos castigos exemplares para criminosos, aqui del rei, o peso do politicamente correcto e do pensamento único cai-nos em cima.

A tão celebrada «mudança de mentalidades» tantas vezes evocada por quem quer manter nas mãos de minorias as rédeas do poder, é uma falácia. Claro que as mentalidades mudam e se adaptam à realidade – mas é isso um bem? Nem sempre. Importante era mudar a natureza humana e evitar que, sob ditaduras ou sob democracias plenas o desfecho seja sempre igual – o triunfo dos porcos.

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