Sem dúvida que neste momento é na Grécia, mais do que na França ou em Itália, que se está a jogar o futuro da União Europeia e, não será exagerado dizer, o futuro da Europa e dos europeus. A Grécia é um país periférico, um pequeno país, dirão muitos para contrariar esta afirmação. Contudo, da resposta que derem as instituições europeias e, mais ainda, das respostas que a França e a Alemanha derem ao que ali se passa, vão depender muitas das opções que vão ser tomadas noutros países. O Reino Unido, que também pode ser considerado como potência regional, com o actual governo vai virar-se cada vez para os EUA, sendo justo o reparo que os trabalhistas, que parecem estar a recuperar, não fariam muito diferente.
Era previsível que as eleições de domingo iam trazer grandes mudanças nas opções de voto dos gregos. E apesar do antidemocrático bónus de 50 deputados (tivesse sido o Syriza o partido a beneficiar dele o que não se ouviria nos jornais e televisões bem pensantes…) os partidos da troika tiveram grandes perdas e não ficaram em posição de sozinhos formar governo. O mais correcto será dizer que não o querem formar. Foi óbvio que Samaras, o líder da chamada Nova Democracia nem o tentou fazer. A acção do Syriza vai ser boicotada com o patrocínio dos responsáveis da UE, da Alemanha e da finança. O Syriza defende a formação de uma comissão internacional para avaliar da validade da dívida grega, a renegociação do memorando da troika, que se ponha fim à desregulamentação da relações de trabalho, o controle bancário, entre outras medidas, representando o conjunto uma viragem ideológica considerável, obviamente indispensável para relançar a economia do país, pôr fim à chamada austeridade e assegurar uma vida minimamente decente aos gregos. Isso vai bulir com os interesses que estão detrás das presentes políticas de austeridade, defendidas na Grécia pela chamada Nova Democracia e pelo PASOK. Estes dois partidos, entre si poderiam totalizar 149 deputados (com o bónus acima referido). Os partidos à sua esquerda totalizam 97 deputados e os partidos à direita 54. Obviamente que os partidos pró-troika não tentam o governo minoritário para forçarem novas eleições, induzindo alterações no sentido de voto.
As novas eleições poderão aumentar os problemas na Grécia, ao contrário do que alguns afirmam. A taxa de abstenção, domingo passado, ficou perto dos 35 %. Aumentará certamente noutra eleição, com o sentimento de que se pretende forçar os gregos a votar não nos seus interesses, mas sim nos de outrem. Por outro lado, poderá aumentar a votação no Aurora Dourada, o partido nazi. E convém ter presente que o poderoso exército grego poderá querer ter uma palavra a dizer. A Grécia esteve em ditadura militar no período 1967-1974.
Os responsáveis da UE, a começar pelos alemães e pelos sediados em Bruxelas fariam bem em ponderar estas questões, e prepararem-se para rever as suas políticas. O povo português tem toda a vantagem em acompanhar de perto o que se passa na Grécia. A reunificação alemã trouxe um profundo desequilíbrio à Europa. Nos outros continentes, a começar pela América do Norte, não haveria grande descontentamento pela consumação do fracasso da UE. Pelo contrário. Os lamentos de circunstância que ocorreriam pouco significariam. Países como a Grécia e Portugal seriam arrastados para outra dependência sem terem tempo para se prepararem para outros caminhos. É por isso que é importante começar a prepará-los hoje já, dentro e fora da Europa.

