PORQUE É QUE A GRÉCIA DEVE SAIR DA ZONA EURO – por ZERO HEDGE

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Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

Shadows1941
A multidão às cinco horas, Chicago, 1941 – por John Vachon

Porque é que a Grécia deve sair  da zona euro

Why Greece Must Leave

Editado por Zero Hedge, 11 de Junho de 2015

Submitted by Raul Ilargi Meijer via The Automatic Earth blog, 9 de Junho de 2015

O ministro da Economia francesa  Emmanuel Macron e o vice-chanceler alemão Sigmar Gabriel publicaram uma peça na semana passada em The Guardian, que rapidamente relançou a  nossa esperança há muito alimentada de que a profana União Europeia  iria  implodir e mais cedo ou mais tarde iria ser dissolvida,. Os dois senhores  propõem uma reforma ‘radical’ para a UE. Em total oposição ao que as pessoas pensam hoje,   contra a maré de eurosceptismo crescente, os cegos burocratas nas capitais europeias estão a falar ainda em mais centralização na UE.

Aqui está, esperamos  que eles prossigam  com toda a energia que têm para nos  oferecer, e assim ouviremos muito mais sobre as ‘reformas’ propostas. Porque isso só servirá para aumentar a resistência e o cepticismo. Deixemo-los tentar ‘reformar’ a UE. Estamos todos a esperar por isso. Esperemos que seja mesmo assim porque   fazendo-o  de forma bastante aprofundada, serão exigidos   referendos em todas as Nações na EU a  28 Membros, pois é  preciso que todos concordem e  numa votação por unanimidade

Os senhores sabem, é claro, que isso nunca vai acontecer. Assim terão de ser encontradas maneiras  bem sorrateiras para ultrapassar esta dificuldade.  Este é um campo em que  Bruxelas é altamente experiente. Eles já mostraram muitas vezes  que  não vão  deixar uma coisinha como 500 milhões de cidadãos a ficarem  por sua própria conta e risco. Estamos curiosos para ver  que manhosice   é que eles vão imaginar desta vez e  com este tempo.

Enquanto isso, no entanto, o cepticismo crescente ameaça dominar no  dia a dia , em muitos países, e Grécia não é o líder neste  campo. A Alemanha tem uma crescente  ala direita no partido que quer sair (esperam   até que Merkel deixe). Marine Le Pen prometeu tirar a França logo que  chegue ao poder, e Marine a vai à frente em muitas sondagens. Ukip  na Grã-Bretanha é simplesmente a vanguarda de uma ampla ala direita de um  movimento que quer sair ou  então ter os tratados cuidadosamente renegociados.

Os socialistas portugueses estão a subir  fortemente nas sondagens   sobre uma agenda hostil  à União Europeia. O partido Podemos de  Espanha não gosta de Bruxelas. Na Itália, o M5 Estrelas (M5S) de Beppe Grillo passou de uma posição de céptico a adversário abertamente  ao longo dos últimos anos. Existem também diferentes níveis de antagonismo em todos os outros países também.

Agora, obviamente, nem todos os países da União têm o mesmo peso, politicamente falando (no que estaremos todos de acordo, penso). Temos actualmente a  Alemanha, como o grande país, em seguida,  a França e a Grã-Bretanha.

A Grécia, igualmente, é óbvio,  não tem voz. Eles podem eleger um governo que quer mudar as coisas e para na sua própria casa, mas são informados de que não o podem fazer, de modo nenhum. Se a Alemanha elegesse  um tal partido, toda a política da UE iria mudar num piscar de olhos. Uma  verdadeira união de nações soberanas, eis o que a União Europeia claramente  não é.  E isso, claro, nunca foi possível, era qualquer coisa que as pessoas  desejavam, mas nunca contemplaram os detalhes ou as consequências .

Ainda assim, dado que todo o projecto sempre foi representado como uma estrada de um só sentido, do  qual não é possível  sair, o peso das nações menores não deve ser subestimado. Talvez tudo o que um desertor possa gerar com a sua saída é tornar todo o o edifício altamente instável. Declarações no sentido contrário, são feitas somente por pessoas que comem arrogância desde o  pequeno-almoço, almoço, jantar, até à  ceia.

Se a França ou Alemanha saírem  – a saída da França  parece ser muito mais provável agora-, o projecto europeu  acabou. O mesmo provavelmente seria verdade com a  Itália. A Espanha seria um grande golpe. A Grã-Bretanha pode ser muito mais fácil (não pertence ao euro), embora as negociações – deixemos os  referendos – sobre os tratados poderiam causar muita  confusão e agitação. Enquanto vários dirigentes europeus tentam   fazer-nos pensar que deixando as pequenas nações para trás (numa Europa a duas velocidades)  isso não os prejudicaria, o  que é um absurdo, mas eles não têm maneira de o saber.

David Cameron tenta convencer-se que ele pode sair  alcançando  algum tipo de estatuto especial  para a Grã-Bretanha, mas outros também podem querer esse mesmo estatuto,  e  podem ter uma lista de pontos que  querem ver discutidos,  se e quando tais modificações do Tratado forem colocadas sobre a mesa. Múltiplos de  28 e já se percebeu  também que  ou nada muda ou então  muda tudo.

A União foi à pressa e de forma descuidada enfiada numa malha apertada e em ponto cruz, com todos os países juntos, quando todos eles ainda estavam  exclusivamente a sonhar mais com os barcos ao largo carregados com um enorme volume  de lucros de que beneficiariam todas as economias num futuro próximo, em vez de se  estarem  a  preocupar com as notas em letras miudinhas e colocadas  entre parêntesis dos compromissos alcançados  nos Tratados ou a considerarem  possíveis consequências futuras desses mesmos Tratados, se e quando os lucros deixassem de serem ilimitados. Portanto, tudo o que acontece agora é uma improvisada peça representada  por 28 actores, e na melhor das hipóteses,  actores levemente talentosos a tentarem transmitir um ar de confiança. Isso é tudo que resta.

Atirar tudo para um monte e renegociar qualquer Tratado da  EU comporta  um elevado grau de probabilidade de ser semelhante a abrir-se a caixa de  Pandora. E além disso, quaisquer alterações não passariam se um referendo fosse feito.  Macron e Gabriel estão muito conscientes    da mesquinhez  da sua ideia.

“O que é importante é o projecto”.  disse Macron numa  entrevista ao Le Journal du Dimanche. “A alteração do Tratado é um método que decorreria e que teria de ser  preparada  no seu  devido tempo,” disse ele, avisando  que o povo europeu    provavelmente rejeitaria um novo Tratado se fosse questionado sobre o mesmo em referendo.

Entretanto, as exigências britânicas de opting-out da “União cada vez mais restrita” podem ser acomodadas através de um especial “protocolo” aos tratados da UE, de acordo com Manfred Weber, um deputado do Parlamento europeu do grupo CSU (União Social-Cristã), que é um aliado próximo da Chanceler alemã Angela Merkel. Mas em troca, a Grã-Bretanha teria que aceitar perder  o seu direito de veto  em áreas onde outros querem avançar  com uma integração mais profunda, advertiu este  Eurodeputado alemão .

Em 2005, a França e a  Holanda rejeitaram a constituição da UE em referendos nacionais respectivos. Mas Bruxelas  “forjou” um ir em frente  como se  nada mais importasse.  Hoje, no entanto, vamos vê-la a tentar de novo.

Há dez anos antes, os lucros estavam ainda na moda. Mas as coisas mudaram, e os problemas são muitos e por toda a parte. São  problemas que Bruxelas procura “resolver”, oferecendo-se para isso a sim-mesma  poderes cada vez mais centralizados. Mas o problema indubitavelmente maior de todos eles é que não há agora  10% dos europeus que  estariam de acordo, pelas  urnas de voto, em dar-lhes  estes poderes. Assim, por favor, por favor, tente.

Quanto à  Grécia, todas as negociações são realmente apenas situações em que correremos o risco de neste momento nos pormos a tocar música enquanto Roma arde. Mas isso não é por causa de a  Grécia estar em dificuldades; é devido àquilo em que se transformou a União Europeia: um clube que depende apenas da  sua capacidade em aterrar os Estados membros na sua submissão, e o mesmo pode ser dito do FMI.  As negociações são sobre os valores das  dívidas que foram impostas sobre a  Grécia pela “Troika” quando esta decidiu resgatar os  bancos das nações  mais poderosas da Europa e pôr o povos grego  de pernas para o  ar.

A poderosa e arrogante  Europa ainda virá a lamentar a decisão de não reestruturar esses bancos, porque este será o catalisador que fará explodir a  União. Será por esta  razão que se aperceberá  como é que a dívida aumenta ainda mais e os  mercados de activos começam a cair como os  penhascos na falésia.

A Grécia deve sair da zona euro e o mais rápido que  puder,  todos os países o deverão fazer, especialmente os mais pobres. Não há nenhum futuro benigno ou mesmo economicamente viável para qualquer um na União. Um futuro no seio da União é infinitamente mais assustador do que o futuro de  estar fora.

O que é evidente até agora é que os credores da Troika não vem à mesa para negociar, eles vêm para impor a sua vontade. E aqueles países que carregam a maior  parte das  dívidas estão mais vulneráveis às ameaças atiradas do  outro lado da mesa. Se um país não quiser  sair, em devido tempo a  Alemanha irá decidir sobre o que  cada país  pode comer, o que os seus filhos irão aprender na escola e como é que  todos nós nos  devemos  comportar. Deixaremos de viver enquanto nações soberanas.

A zona euro deve ruir. E então, deve  ruir  também a  UE. Isto é o melhor para todos   os  que não estão  dentro dos círculos de poder, a longo prazo. O que os países  devem fazer agora é ‘proteger-se ‘  o melhor que podem dada  a precipitação nuclear que a falha irá provocar. Concentrem-se na resiliência.

Enquanto a liderança em todos os lugares sonha com um  poder cada vez mais centralizado, a realidade económica dita a descentralização. Este movimento para a descentralização  só pode ser parado  através da propaganda e da violência. Mas isso será apenas temporário.

Mesmo se  Bruxelas de alguma forma ‘resolver’ a questão da Grécia, outras nações seguir-se-ão no sentido de passarem a serem  elas  os alvos dos mercados financeiros, e uma vez que se trate  da Itália ou de Espanha, que estão ambos em situações  muito precárias, a UE e o BCE simplesmente não são  suficientemente  fortes para absorver o golpe. E então a pergunta a fazer é: assim para onde é que  caminhamos  ?

Muitas vezes já falámos de que todos os governos, as estruturas de poder e as organizações supranacionais são um ímã para as últimas pessoas que cada um dos nós gostaria de encontrar: os sociopatas. Isso não é uma opinião, é uma descrição da dinâmica da psicologia de grupo humano. A própria Grécia antes de Syriza é um bom exemplo disto mesmo.

Quanto menores forem os  países, Estados, regiões a que aos políticos é  permitido  governarem,  menos provável será que os postos de direcção atraiam  os sociopatas. Outras considerações contam também, a remuneração, as probabilidades para forjarem  laços com uma elite que possa servir os seus interesses.  Maiores entidades seguramente atraem mais estas mentes patológicas. Excepções à regra são de longe muito poucas . Também: quanto mais uma sociedade gere  o campo da propaganda, o mais provável é ter – e manter – um sociopata como sendo o seu principal dirigente político.

Os EUA são um bom exemplo. Assim é a  EU igualmente. E obviamente, o FMI, o Banco Mundial, NATO, FIFA. Nós sempre falhamos na questão de  “ fazer em grande escala “ ‘ em benefício dos cidadãos. Quanto maior a escala,  quanto menos as pessoas beneficiam.

Só quando o seu momento de glória parece  estar a chegar, é que a globalização nos irá conduzir   para a descentralização e para o proteccionismo.  Tal como a  estabilidade leva à instabilidade.

Uma característica sociopatológica  da UE é evidente   na  forma  em que os líderes da organização lidam  com a Ucrânia, com os refugiados ao longo da costa Sul  e,  mesmo dentro e no interior das suas  fronteiras , com a sociedade grega, com os  hospitais, com o desemprego, com a  fome. Não há nenhuma compaixão, não há nenhuma consciência.

Na UE, o ideal  (l)  tornou-se   o problema, argumenta George Friedman de  Stratfor:

Está  a União Europeia já à beira do desastre inevitável?

O importante  da questão é que uma zona de comércio livre, em que o buraco negro  está  no centro, a Alemanha, bate absolutamente todos   os seus concorrentes  e a concorrência não pode proteger-se, é uma situação  insustentável.

 [..]Assim, as grandes ideias com que a União Europeia começou mudaram muito,  como  frequentemente acontece na história, e transformaram-se em problemas.

Pergunta: [..]Mas falou  num  grupo de países arruaceiros  e  já fez alusão à história. Quer dizer, que desde a guerra Franco-Prussiana até 1945, a história é muito, muito desagradável mesmo.

É o corolário que a Europa eventualmente pode caminhar para a guerra ?

Resposta de George Friedman: Bem, a questão é que caminhou ? De  45 para 92, a Europa foi ocupada pelos soviéticos e pelos americanos. As questões fundamentais da soberania não estavam nas mãos de Londres, de Berlim ou de  Roma, estava nas mãos de Washington e Moscovo. Em 92, a União Soviética entrou em colapso, e pela primeira vez desde a segunda guerra mundial, a Europa tornou-se verdadeiramente soberana. E há 16 anos, eles tiveram sucesso. Nos últimos sete anos, tem sido bastante desastroso, e a questão  é então:  será que poderão inverter este caminho ? E se eles não mudam de caminho, o que é que os impede de voltar para o tipo de história que é normal na Europa?

E o que defendo é que, basicamente, o período de 92 a 2008 foi uma aberração interessante. Estamos agora de volta ao velho normal, e de quanto é que isto vai ser mau  depende de muitas questões.

Mas primeiro temos de realmente reconhecer que a ideia de Europa que perspectivámos com a União Europeia não vai voltar,  [ deixa de pertencer ao futuro, morreu com este presente]

Nós faríamos melhor em não nos esquecermos disto. Se a Europa nunca vai ser o que era suposto vir a ser, então porque alguém irá  querer ser parte dela, com excepção  de alguns poucos que lucram com isso? Se verdadeiro, o corolário é que a Europa vai descer eventualmente e regressar à guerra, não é hora de cuidar de si próprio? E se não o é, realmente, o que os gregos estão a tentar fazer hoje?

Muito a ver com este artigo, Tyler Durden publicou hoje um artigo por Jeff Thomas que vai mais fundo:

The New World Order – A Faustian Bargain

[..]a maioria das pessoas em qualquer  país que se considere  parecem acreditar que os partidos políticos que estão no poder  não conspiram  no seu próprio interesse colectivo e contra os melhores interesses dos seus respectivos eleitores.

Da mesma forma, é improvável que aceitem  que o fascismo existe no  seu país — que  os membros do seu partido favorecido pactuem  com as indústrias. Além disso, a maioria das pessoas parecem não acreditar  que os líderes do seu próprio país conspiram com os dirigentes  dos inimigos do seu país, de forma a que possam gerar prejuízos  ou perigo para o próprio povo. Isso é ingenuidade. Tais conluios são a norma e não a excepção.

Aqueles que tendem a estar melhor  informados, prontamente reconhecem  que o conluio existe entre todos os casos  acima, de  um grau a  outro. Se este grupo erra, está muitas vezes na hipótese oposta — é que o conluio é abrangente.

Não pode haver dúvidas de que se está a procurar alcançar uma Nova Ordem Mundial por alguns dirigentes — isto foi tornado  claro pelo menos há  uma centena de anos por muitos que se consideram  como uma Elite. É, portanto, um segredo de polichinelo.

Como afirmou  David Rockefeller nas suas memórias: Na minha experiência em lidar com dirigentes  políticos (e aspirantes a políticos) de várias jurisdições,  encontrei aí uma a existência de  uma consistente sociopatologia  (por definição, o desejo de domínio sobre os outros, uma  imerecida  autoconfiança, falta de empatia, de um sentido de jurisprudência, de uma  falta de consciência, etc.). 

Sociopatas são atraídos para a liderança política por razões óbvias. Primeiro, eles são propensos aos conluios, na medida em que eles reconhecem o que os pode favorecer o mais que possível nos seus interesses (acordos com um pequeno grupo de indivíduos que permita a dominação sobre  outros, sobre maiores grupo de indivíduos.

Foi postulado por muitos que aqueles que se vêem como sendo uma elite estão a chegar à conclusão  que eles próprios se sentem como sendo  dominantes  no  mundo. No entanto, por muito bem sucedidos que eles  sejam,  eles próprios  irão trair os seus parceiros no dia seguinte,  é da natureza serem assim. O seu  comportamento provável seria  o   de um grupo de gatos com as suas caudas conjuntamente amarrados .

Primeiro há,  com toda a certeza,  forças  que são extremamente dominadoras (independentemente de como é que podem estar  intimamente associadas) que, num futuro próximo, darão e serão a causa de imensos prejuízos à causa da liberdade do mundo, particularmente nos países onde  são mais dominantes ou onde se vão  tornar muito mais dominantes. Em segundo lugar, a situação parece estar a chegar a uma situação limite.

As duas maiores incertezas será a de saber qual a dimensão dos danos  antes que a poeira assente e os disfarce e, em termos de tempo, qual será  a duração do  período de destruição e de luta pelo domínio do mundo.[…]. O melhor que pode ser feito é trabalhar de modo a  colocarmos-nos nós próprios  fora da sua esfera de influência e tanto quanto  possível.

O que descreve como são as funções da UE e porque é que a Grécia – primeiro de tudo e a primeira coisa a fazer logo de  manhã –  precisa de abandonar  a zona euro.  Não há futuro na União Europeia para quem tenha o desejo de ali viver. Não é uma vaga que irá levantar todos os barcos, é uma vaga que os vai afundar.

Editado por Zero Hedge, Why Greece Must Leave. Texto disponível em:

http://www.zerohedge.com/news/2015-06-10/why-greece-must-leave

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