Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
7. Tempestade espanhola (Iº Acto)
Arnaud Parienty
O governo espanhol recusa-se a utilizar os fundos europeus para apoiar o seu sector bancário em grandes dificuldades quer pelo desejo de não manchar a sua reputação, quer ainda pelo desejo de não querer ver o seu acesso ao crédito a ficar complicado mais do que aquilo que já é e também para evitar que venham os peritos europeus vasculhar as suas contas. Numa atitude firme e determinada o governo espanhol decidiu a enfrentar a situação sozinho. Essa atitude corajosa será que acelera o suicídio europeu?
O governo de Rajoy sugere uma solução que irá agradar muito aos alemães, ou seja, o governo ia em apoio do Bankia (esperando que os outros), fornecendo-lhe os meios, os títulos do Tesouro, contra as acções, e o banco poderia, então, trocar os títulos do Tesouro espanhol junto do CE contra dinheiro líquido.
Esta solução é inteligente. Mas aproxima-se muito de um financiamento monetário do défice que é totalmente contrária à ortodoxia monetária que é objecto de um culto fetiche muito intenso em Berlim e em Frankfurt. Ainda não está nada claro se este projecto é aplicado ou não mas é óbvio que outros governos se enfiariam por esta brecha assim aberta se o projecto for avante.
Devemos entender que não se trata de ajudar o banco a resolver um problema de liquidez, que uma operação de colateral a curto prazo resolveria. Trata-se de recapitalizar o banco, de modo a fornecer-lhe capitais permanentes. A maneira como é que os capitais de curto prazo disponibilizados pelo BCE se transformariam em capital não é nada muito clara.
Para lá da sua sedução imediata, a ideia tem dois problemas:
– Este tipo de assistência prestada pelo BCE faz-se sem nenhum controle sobre a dívida ou sobre o défice. Esta é uma maneira de dizer que a regra de ouro e as medidas sofisticadas para permitirem garantir que esta regra seja respeitada são uma brincadeira. Alguns aplaudem, outros podem opor-se frontalmente.
– As consequências da operação nas contas do BCE poderiam ser pesadas, o que os seguidores de financiamento do défice pela criação monetária geralmente desconhecem. Ao mesmo tempo, mais vale que os riscos estejam localizados no BCE do que noutro local qualquer.
Enquanto isso, as necessidades financeiras das regiões, de que há já algumas que deixaram de ter acesso aos mercados de capitais por causa de sua dívida considerada excessiva, poderiam receber “hispanobonos”, ou seja, títulos do Tesouro regionais, cujos detalhes ainda estão por estão para ser definidas. Os prémios de risco da dívida pública espanhola vão inevitavelmente aumentar.
A vontade do governo espanhol em se sair sozinho é criticada por alguns que temem que isto realmente enfraquece toda a zona euro. Mais uma vez, percebemos que estamos perante uma arquitectura que confia a supervisão bancária e o papel de refinanciador de última instância para as autoridades nacionais enquanto a moeda é emitida a nível regional, o que é inconsistente. Mario Draghi não se fez rogado, de facto, e foi muito convincente a criticar as autoridades espanholas a propósito da sua gestão do caso Bankia. Segundo ele, ao subestimarem sistematicamente a extensão dos desgastos, periodicamente reavaliados, o governo aumenta o custo do resgate. Ele daí conclui logicamente que a supervisão dos bancos “sistémicos” deve estar centralizada. Precisamos de realizar rapidamente esta reforma.
O desenrolar da Zona Euro
Actualmente, a consequência concreta mais evidente da falta de confiança no sistema bancário espanhol está a acelerar a fuga de capitais. Como eu mencionei na semana passada, isso representaria centenas de milhares de milhões de euros desde o início de 2010. As últimas estatísticas do Banco de Espanha mostram que 97 mil milhões já deixaram o país nos três primeiros meses de 2012. É cerca de 10% do PIB. O efeito depressivo de uma tal sangria é considerável.
Uma das causas deste movimento é a tendência dos bancos espanhóis em utilizar o dinheiro disponibilizado pelo BCE como parte de sua nova política LTRO (operações de refinanciamento de longo termo) para comprarem dívida pública. Assim, e como seu corolário, a detenção da dívida pública é assim re-nacionalizada. Claro, os Estados ficam assim menos dependentes dos mercados internacionais. Mas isso também significa que toda e qualquer crise da dívida pública se torna também, simultaneamente, uma crise bancária. Existe, portanto, uma concentração perigosa do risco.
Por outro lado, esta renacionalização é um elemento de uma tendência mais vasta na deslocalização da zona euro, uma tendência que se iniciou quando as autoridades alemãs, em 2008, deixaram bem claro para os participantes dos mercados financeiros que não haveria solidariedade financeira na zona euro. Desde então, as taxas de juros começaram a divergir dentro da zona, acentuando-se a assimetria das conjunturas.
Os fluxos de capitais reforçam essa tendência desde há dois anos, com os capitais estrangeiros a abandonar os países considerados frágeis e nos países considerados seguros, o que só faz sentido se os operadores estiverem a antecipar uma fragmentação da zona euro.
Pode-se concluir que o fim do euro, já antecipado pelos mercados, não seria tão grave. Porém, isto seria provavelmente um erro de cálculo enorme. Na verdade, a zona euro não é viável na sua arquitectura actual. Os operadores daí tiram as consequências lógicas, aguardando que os políticos tenham uma visão coerente a oferecer-lhes.
Arnaud Parienty, Tempête espagnole (Acte I), 1 de Junho, Alternatives Economiques e disponível em: alternatives-economiques.fr/blogs/parienty
