
Guerra Junqueiro vive de certo modo à parte, mas intensamente, as experiências da Geração de 70. Nele poesia e consciência política se abraçam em forma absolutamente pessoal.
O lirismo do autor de Oração à Luz resulta de uma formação fortemente religiosa, cedo transformada em experiência pessoal intensa. A religiosidade junqueiriana se aproxima então da participação com a natureza, dela se reapropriando e fazendo de tudo uma própria metafísica.
As dimensões de uma religiosidade panteísta original e a logo adquirida consciência política da realidade social, em que vive, fazem de Guerra Junqueiro um poeta especial. Surgem assim vozes aparentemente contraditórias, mas eficazes: cantos feitos de subjetividade profundamente religiosa e uma viva batalha contra o poder temporal da Igreja e as deformações produzidas pelo mesmo no ambiente social, sob uma semântica poética resultada da linguagem corrente e de forte espírito satírico, como no poema “O Baptismo”:
Batipzais: arrancais dum anjo um satanás.
Desinfectais Ariel banhando-o em aguarrás
De igreja e no latim que um malandro expectora.
Dizeis à noite – limpa a túnica da aurora,
E ao rouxinol dizeis: pede a bênção da c’ruja.
Dais os lírios em flor ao rol da roupa suja.
Representais a farsa estúpida e sombria
Dum cônego a lavar um astro numa pia,
Finalmente extrais da inocência o pecado,
Que é o mesmo que extrair duma rosa um cevado,
E tudo isto porquê?
– Porque na bíblia um mono
Devora uma maçã sem licença do dono!
A irreverência tenaz contra o poder temporal da igreja é apenas uma face do amplo lirismo junqueiriano. Igualmente forte e expressivo é o tom de sua luta contra a monarquia e o poder monárquico que condena Portugal ao mais absurdo subdesenvolvimento. O espírito civil do poeta se manifesta então numa linguagem poética de exaltação sentimental de sua Nação subjugada pela política retrógrada. Nesse nacionalismo sentimental, em Junqueiro ocupa posição essencial a adesão aos destinos dos pobres, dos deserdados, dos simples. Como em poemas da dimensão de “O Cavador” –
“Dezembro, noite canta o galo…
Rouco na treva canta o galo…
– Oh, dor! oh, dor! –
Aldeão não durmas!… Vai chamá-lo,
Miséria negra, vai chamá-lo!…
Oh, dor! oh, dor!”
Ou nos comoventes versos de “Os pobrezinhos” –
“Pobres de pobres são pobrezinhos,
Almas sem lares, aves sem ninhos…
Passam em bandos, em alcateias,
Pelas herdades, pelas aldeias.
……………………………………………….”
Forte espírito liberal, Guerra Junqueiro se divide igualmente com a prática política, representando o Partido Progressista no parlamento e lutando nas praças civis contra a opressão do poder monárquico aos fracos e oprimidos. Esta luta encontra o maior espaço depois do episódio do Ultimato. O nacionalista orgulhoso que sempre viveu em Guerra Junqueiro não poderia aceitar tamanhas ofensas à sua pátria –
“Cospe o estrangeiro afrontas assassinas
Sobre o rosto da Pátria a agonizar…
Rugem nos corações fúrias leoninas,
Erguem-se as mãos crispadas para o ar!…”—
