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DIÁRIO DE BORDO, 5 de Setembro de 2012

Um dos problemas do nosso tempo é o envelhecimento da população. Parece que, de entre os vários continentes, a Europa é o mais afectado. De tal modo que já se põem em causa as políticas de planeamento familiar que se aplicaram no último meio século, e que tanto ajudaram as famílias a equilibrarem as suas vidas, a reduzir as taxas de natalidade, o crescimento excessivo da população, a reduzir também as taxas de mortalidade infantil e de mortalidade materna, a evitar  o recurso ao aborto, nomeadamente ao aborto clandestino, a melhorar a saúde infantil, etc.

Nos outros continentes as realidades são diferentes. Por exemplo, nos EUA, tido como o país mais rico do mundo, a taxa de natalidade é superior à da Europa, mas o mesmo já não acontece com a esperança de vida, tendo de se atender, no que respeita a este país, às grandes diferenças sociais que ali reinam. O Japão tem uma esperança de vida das mais altas do mundo, com uma natalidade baixa. Estas realidades são de difícil análise, sobretudo quando se quer relacioná-las com os problemas mais gerais da economia e da sociedade. Mas não será exagero dizer que aquilo  a que se chama o envelhecimento da população,  só por si, não é um mal. Está é relacionado com fenómenos aos quais é preciso prestar atenção.

Um dos problemas mais preocupantes dos tempos actuais é o aumento do número de casos de isolamento de idosos. Recorde-se o impacto que teve, no inverno passado, o elevado número de casos de idosos encontrados mortos em casa. Durante o ano de 2011  terão sido quase 3000 ao todo. Celebrações como a do Ano Europeu do Envelhecimento Activo e da Solidariedade entre Gerações, que decorre precisamente em 2012, pouco ou nenhum contributo têm dado para se chegar a conclusões sobre estratégias, mesmo vagas, a adoptar para prevenir esta situação, ou outras relacionadas. Claro que se tem procurado dar respostas, mas acaba-se sempre por concluir que as que há não resolvem problemas, ou então que, se evitam algumas situações, criam ou ajudam a criar outras. Foi benéfico sem dúvida encarregar as forças policiais de sinalizar estas situações, mas não chega, é apenas pegar numa ponta do assunto.

Em Portugal, segundo o Censo de 2011, vivem mais de 2, 2 milhões de pessoas com mais de 65 anos. Destas, 400 000 vivem isoladas. Outras 800 000 em companhia de outro idoso. Isto dá uma ideia da dimensão do problema.

Entretanto a resposta mais visível e com mais impacto é o lar. Há também o apoio domiciliário, os centros de dia, os centros de convívio. Mas apesar de todos os esforços para se criarem e desenvolverem alternativas, o lar continua a ser uma resposta de grande peso. E é o tal tipo de resposta, que resolve uns problemas e traz outros. Nomeadamente pelo seu custo, e por, ao evtar situações de abandono, criar aquilo a que se poderá chamar situações de isolamento acompanhado. E implica a perda quase total de privacidade para a maioria dos seus utentes. Olhando para trás, sob certas políticas, definidas por um dos governos Cavaco Silva, foi patrocinada a construção de um número considerável de lares por todo o país, que depois foi precisou encher de pessoas, disseminando a ideia de que o internamento seria a resposta adequada para quem trabalhou a vida toda e agora precisa de descansar, uma espécie de ideologia, o larismo. Achou-se também que, em termos de economia de mercado, em termos concorrenciais, a tal ideologia dominante, seria também a resposta adequada para responder à proliferação de lares clandestinos, tidos como funcionando em más condições. O que se verificou foi o aumento de pessoas a viverem em lar, (serão com certeza mais de cem mil em todo o país), em condições que muitas vezes não são as melhores, pessoas essas que na maioria desejariam ter uma alternativa, mas não conseguem encontrá-la. Os lares clandestinos continuam, até porque os lares, mesmo os ligados a instituições de solidariedade, e apoiados pelo Estado, não são baratos.

Para dar uma ideia, veja-se o papel reduzido que os grupos económicos têm neste sector. Reduzido porque a sua intervenção, desde a primeira hora, obviamente por motivos financeiros, dirigiu-se sobretudo para as faixas mais abastadas, que não são, como se sabe muito numerosas no nosso país. E muitos dos seus elementos podem perfeitamente dar-se ao luxo de ficar em casa, custeando as despesas inerentes aos cuidados indispensáveis.

Concluindo com uma pequena nota histórica, veja-se uma notícia do Expresso de 26 de Junho de 1999, sobre um projecto do grupo Amorim que não terá avançado, por motivos óbvios. Os dirigentes do grupo pensaram criar 11 empreendimentos residenciais nalgumas zonas, dirigidas para o segmento alto do mercado. Existiriam então 300 000 pessoas, 15 % da população com mais de 60 anos, com capacidade económica para aceder ao projecto. Este não avançou. Os grupos económicos que estão no terreno neste capítulo trabalham claramente com a população mais abastada, e têm clientela entre uma faixa reduzida da população. A resposta para o problema do isolamento dos idosos não passa claramente por aqui.

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