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UM RAPAZ DA MINHA TERRA, por André Brun

Nesse dia viera na ordem do regimento que era proibida a entrada de paisanos no quartel e o sargento da guarda mandara chamar o cabo da dita e fizera-o ciente da disposição regulamentar.

– Veja lá você agora se deixa entrar algum peludo… – concluiu o sargento.

– Mas se vier aí algum indivíduo da classe civil para falar com alguma praça? – perguntara o cabo.

– Mande chamar a praça e que falem à porta.

– Está direito, meu sargento. O sargento retirou-se todo imponente para o seu quarto com a competente caneta atrás da orelha e o cabo pôs-se à coca. Passados dez minutos, aparece um cavalheiro com cara de fora da terra e um valente sombrero de borla na cabeça que, muito lampeiro, se dispunha a entrar pelo quartel dentro.

– Psst! Ó cidadão! Onde é que vai? – inquire o cabo, com aquele desdém que os paisanos inspiram a todo o militar da tropa. – Eu desejava falar com um sujeito…

– Aqui não moram sujeitos. Aqui só moram praças.

– Um sujeito militar… que é soldado…

– Sujeitos militares são praças. Ouviu?

– Sim, senhor. É um rapaz da minha terra que, a modos, pertence cá ao regimento. – Que número é ele?

– E o António do Seixal.

– Isso não é número: isso é alcunha. De que companhia é ele? – Lá na terra era sempre da minha companhia e da do Vicente da Rosa… – Mau! Mau! Assim não nos entendemos. Pergunto eu se vossemecê sabe o número que ele tem cá no regimento?

– Lá isso não sei, senhor praça.

– Eu cá não sou praça, sou cabo. Bem. Vamos lá a saber: que jeito tem ele? Como é a cara dele?

– Ah! Isso é um rapaz com uma cara comprida, a modos assim bexigoso. – Já sei. É o 31 da 2ª do 1.° Já lo mando chamar. Passados dois minutos avança o 31.

– Nada, este não é. O rapaz da minha terra é mais alto uma lasquinha. – Mais alto? Ah! Bem sei quem é. É o 23 da 2ª do 2.° Ó 31, manda-lo bir cá abaixo. Dali por uma loja de barbeiro chegava o 23.

– Nada. Também não é este. O rapaz da minha terra é assim a modo mais cheio nas maçãs do rosto – explicou o paisano. -Ah! É mais cheio nas maçãs? Já o matei… – Ele morreu? – Não, senhor. Já sei quem é o tipo. É o 81 da 3ª do 3º. O 81 não tardou que viesse à mostra. – Ó senhor cabo! Tenha paciência mas o tal rapaz da minha terra é mais azul nos olhos e dá assim um jeito à boca – dizia o paisano. – Ora porque é que você não disse isso há mais tempo? Esse sei eu muito bem quem é. É o 34 dos adidos. Vem já aí. Em resumo: eram sete horas da noite e já tinham vindo à porta das armas trinta e duas praças do regimento. O sargento da guarda interessara-se no caso. O oficial de inspecção espreitava da janela do seu quarto. Não havia maneira de aparecer o tal rapaz da minha terra. O cabo tinha ido aquecendo a pouco e pouco e já estava ao rubro. À trigésima terceira tentativa berrou para o paisano:

– Se este agora, que ali vem, não for o rapaz da sua terra, você leva-me um pontapé na patrona que morre de fome no ar.

– Sim senhor, senhor cabo. Apareceu o trigésimo terceiro exemplar de “rapaz da minha terra” e o paisano, tratando de pôr a patrona no seguro, ainda de longe explicava ao cabo:

– Esse também não é. O tal é mais delgadinho das pernas… Mal o patusco se tinha eclipsado a unhas de cavalo, apareceu muito sereno o António do Seixal, recruta recentemente alistado, que, com o respeito devido à posição cabal do cabo, indagou delicadamente:

– Senhor cabo, o senhor tem a bondade de me dizer se, por acaso, não viria aí um rapaz da minha terra à minha procura.

– Você está doido? Com essa cara? Esteve aqui realmente um paisana à procura de um rapaz da sua terra; mas você não tem ventas para isso. Mais de trinta praças antigas aqui vieram e ele não quis nenhuma. Vinha agora você com oito dias de praça e já queria ser da terra dele. Viva, amigo! Girou! Girou para a caserna.

– Mas eu é que sou o António do Seixal – afirmava o recruta.

– Viva, amigo. Vá intrujar outro. Se você fosse você, o paisano tinha-me logo dito quem é que era você. Andar!

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