UMA LIÇÃO DE ARITMÉTICA, por André Brun.

 

O cabo 30 acha-se na parada do quartel, durante a instrução, ocupado na grave tarefa de iniciar oito senhores recrutas da sua escola nos mistérios metafísicos do quatro à direita.

– À voz, quando eu disser “quatro à direita”, vocês não fazem nada. Quando eu disser então depois “vórvér… í” os números que forem impres não se mexem; isto é: só se mexem sem se tirar do mesmo sítio, fazendo direita vorver, e os números pares, esses dobram.

Perceberam? Vou mandar… Atenção… Quatro… à direita… vorvér í

Os alunos do distinto catedrático executam melhor ou pior a manobra, à excepção do 23, natural de Alcabideche, rapaz muito inteligente, mas que não quer dar grandes tratos à imaginação com medo de a estragar.

– Ó seu burro! – exclamou o cabo 30, vendo a desarmonia do conjunto. – Você não ouviu dizer que os números pares é que dobravam para a direita?…

O de Alcabideche, moita. Aquilo para ele é latim.

– Você é dos pares ou dos impres?

– Saberá o senhor cabo que sou da outra banda…

– Não é isso. Você onde estava?

– Estava na minha terra!…

– Na forma é que eu pergunto.

– Ah! Estava ao pé do senhor 42.

– Bem – concorda o 30, armado de paciência até aos dentes. – Ora o 42 numerou 2. Logo você é 3. O 2 é par. Sempre foi, ouviu?, pelo menos denos que eu estou cá no regimento. Logo vossemecê é impre. Percebe?

– Não, senhor cabo.

– Então você não sabe o que é número impre?

– Saberá V. S. a que não sei.

– Ó homem! Um número par é aquele que não é impre e o número impre é aquele que não é par. Por exemplo: uma mulher não é um homem e um homem nunca foi uma mulher. Pois os números impres são a mesma coisa. Está percebendo?

– Não senhor.

– Arre que é besta!

O sargento, que andava por ali, julga dever intervir e dispõe-se a ensinar o que são números pares e ímpares ao nosso amigo 23.

– Números pares são aqueles que são parecidos com 2. Números ímpares são os que são parecidos com 3. Pouco mais ou menos… sim… mais coisa menos coisa…

O alferes, que tem estado a ouvir a explicação, não julgando suficientemente clara a teoria do sargento, decide pôr a cousa nos devidos termos.

– Não explique assim que o rapaz não percebe. Um número par – continua ele, dirigindo-se ao indígena de Alcabideche – é um número múltiplo de 2. Todos os outros são ímpares. Percebeste?

O 23 não faz cerimónia para dizer que não, a ponto que o capitão, que andava fiscalizando a companhia, entra de ajudar à missa:

– Isto quer dizer que um número par é sempre divisível por 2, ao passo que um número ímpar não é. É muito simples, meu rapaz…

Nisto chega o major, que vem ver o estado de asseio da instrução do batalhão. Posto ao facto do caso, acrescenta para explicar a charada:

– Todos os números pares têm por divisor comum o número 2, ao passo que os números ímpares são quase todos números primos e, por conseguinte, só divisíveis por si próprios e pela unidade…

O pobre 23 dá mostras de alienação mental iminente e o grupo de oficiais volta as costas em coro ao desgraçado alcabidechense, que rebola cada olho de meter pavor. Então o cabo tem uma inspiração luminosa.

– Olha, 23. Quando fores par, eu dou-te um caldinho no cachaço e, quando fores impre, dou-te um pontapé no c…

Foi assim que o 23 aprendeu o “quatro à direita”.

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