O Pato algemado
Como é diferente o humor em Portugal
Esta glosa de “A ceia dos cardeais”, de Júlio Dantas, já foi mais do que usada e é um verdadeiro lugar comum. Mas o nosso Pato adora lugares comuns – centros comerciais incluídos. Só não gosta muito de urinóis. Um dia destes, apresentará mesmo uma história construída com lugares comuns. Mas vamos ao que interessa –Hoje, apenas publicaremos obras de humoristas portugueses.
Começamos com André Brun:
André Brun (Lisboa 1881- 1926), militar de carreira, atingindo a patente de major, combateu em França durante a Primeira Guerra mundial, sendo condecorado com a Medalha da Cruz de Guerra. Sobre o conflito, escreveu o seu livro A Malta das Trincheiras (1918). Autor de uma obra vasta, foram as suas peças teatrais que mais êxito obtiveram – A Maluquinha de Arroios (1913) e A Vizinha do Lado, (1916), ambas passadas ao cinema.
Apresentamos dois contos de André Brun:
Um Rapaz da Minha Terra
Nesse dia viera na ordem do regimento que era proibida a entrada de paisanos no quartel e o sargento da guarda mandara chamar o cabo da dita e fizera-o ciente da disposição regulamentar.
– Veja lá você agora se deixa entrar algum peludo… – concluiu o sargento.
– Mas se vier aí algum indivíduo da classe civil para falar com alguma praça? – perguntara o cabo.
– Mande chamar a praça e que falem à porta.
– Está direito, meu sargento. O sargento retirou-se todo imponente para o seu quarto com a competente caneta atrás da orelha e o cabo pôs-se à coca. Passados dez minutos, aparece um cavalheiro com cara de fora da terra e um valente sombrero de borla na cabeça que, muito lampeiro, se dispunha a entrar pelo quartel dentro.
– Psst! Ó cidadão! Onde é que vai? – inquire o cabo, com aquele desdém que os paisanos inspiram a todo o militar da tropa. – Eu desejava falar com um sujeito…
– Aqui não moram sujeitos. Aqui só moram praças.
– Um sujeito militar… que é soldado…
– Sujeitos militares são praças. Ouviu?
– Sim, senhor. É um rapaz da minha terra que, a modos, pertence cá ao regimento. – Que número é ele?
– E o António do Seixal.
– Isso não é número: isso é alcunha. De que companhia é ele? – Lá na terra era sempre da minha companhia e da do Vicente da Rosa… – Mau! Mau! Assim não nos entendemos. Pergunto eu se vossemecê sabe o número que ele tem cá no regimento?
– Lá isso não sei, senhor praça.
– Eu cá não sou praça, sou cabo. Bem. Vamos lá a saber: que jeito tem ele? Como é a cara dele?
– Ah! Isso é um rapaz com uma cara comprida, a modos assim bexigoso. – Já sei. É o 31 da 2ª do 1.° Já lo mando chamar. Passados dois minutos avança o 31.
– Nada, este não é. O rapaz da minha terra é mais alto uma lasquinha. – Mais alto? Ah! Bem sei quem é. É o 23 da 2ª do 2.° Ó 31, manda-lo bir cá abaixo. Dali por uma loja de barbeiro chegava o 23.
– Nada. Também não é este. O rapaz da minha terra é assim a modo mais cheio nas maçãs do rosto – explicou o paisano. -Ah! É mais cheio nas maçãs? Já o matei… – Ele morreu? – Não, senhor. Já sei quem é o tipo. É o 81 da 3ª do 3º. O 81 não tardou que viesse à mostra. – Ó senhor cabo! Tenha paciência mas o tal rapaz da minha terra é mais azul nos olhos e dá assim um jeito à boca – dizia o paisano. – Ora porque é que você não disse isso há mais tempo? Esse sei eu muito bem quem é. É o 34 dos adidos. Vem já aí. Em resumo: eram sete horas da noite e já tinham vindo à porta das armas trinta e duas praças do regimento. O sargento da guarda interessara-se no caso. O oficial de inspecção espreitava da janela do seu quarto. Não havia maneira de aparecer o tal rapaz da minha terra. O cabo tinha ido aquecendo a pouco e pouco e já estava ao rubro. À trigésima terceira tentativa berrou para o paisano:
– Se este agora, que ali vem, não for o rapaz da sua terra, você leva-me um pontapé na patrona que morre de fome no ar.
– Sim senhor, senhor cabo. Apareceu o trigésimo terceiro exemplar de “rapaz da minha terra” e o paisano, tratando de pôr a patrona no seguro, ainda de longe explicava ao cabo:
– Esse tamém não é. O tal é mais delgadinho das pernas… Mal o patusco se tinha eclipsado a unhas de cavalo, apareceu muito sereno o António do Seixal, recruta recentemente alistado, que, com o respeito devido à posição cabal do cabo, indagou delicadamente:
– Senhor cabo, o senhor tem a bondade de me dizer se, por acaso, não viria aí um rapaz da minha terra à minha procura.
– Você está doido? Com essa cara? Esteve aqui realmente um paisana à procura de um rapaz da sua terra; mas você não tem ventas para isso. Mais de trinta praças antigas aqui vieram e ele não quis nenhuma. Vinha agora você com oito dias de praça e já queria ser da terra dele. Viva, amigo! Girou! Girou para a caserna.
– Mas eu é que sou o António do Seixal – afirmava o recruta.
– Viva, amigo. Vá intrujar outro. Se você fosse você, o paisano tinha-me logo dito quem é que era você. Andar!
in André Brun,
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Uma Lição de Aritmética
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O cabo 30 acha-se na parada do quartel, durante a instrução, ocupado na grave tarefa de iniciar oito senhores recrutas da sua escola nos mistérios metafísicos do quatro à direita. – À voz, quando eu disser “quatro à direita”, vocês não fazem nada Quando eu disser então depois “vórvér… í” os números que forem impres não se mexem; isto é: só se mexem sem se tirar do mesmo Os alunos do distinto catedrático executam melhor ou pior a manobra, à excepção do 23, natural de Alcabideche, rapaz muito inteligente, mas que não quer dar grandes tratos à imaginação com medo de a estragar. – Ó seu burro! – exclamou o cabo 30, vendo a desarmonia do conjunto. – Você não ouviu dizer que os números pares é que dobravam para a direita?… O de Alcabideche, moita. Aquilo para ele é latim. – Você é dos pares ou dos impres? – Saberá o senhor cabo que sou da outra banda… – Não é isso. Você onde estava? – Estava na minha terra!… – Na forma é que eu pergunto. – Ah! Estava ao pé do senhor 42. – Bem – concorda o 30, armado de paciência até aos dentes. – Ora o 42 numerou 2. Logo você é 3. O 2 é par. Sempre foi, ouviu?, pelo menos denos que eu estou cá no regimento. Logo vossemecê é impre. Percebe? – Não, senhor cabo. – Então você não sabe o que é número impre? – Saberá V. S. a que não sei. – Ó homem! Um número par é aquele que não é impre e o número impre é aquele que não é par. Por exemplo: uma mulher não é um homem e um homem nunca foi uma mulher. Pois os números impres são a mesma coisa. Está percebendo? – Não senhor. – Arre que é besta! O sargento, que andava por ali, julga dever intervir e dispõe-se a ensinar o que são números pares e ímpares ao nosso amigo 23. – Números pares são aqueles que são parecidos com 2. Números ímpares são os que são parecidos com 3. Pouco mais ou menos… sim… mais coisa menos coisa… O alferes, que tem estado a ouvir a explicação, não julgando suficientemente clara a teoria do sargento, decide pôr a cousa nos devidos termos. – Não explique assim que o rapaz não percebe. Um número par – continua ele, dirigindo-se ao indígena de Alcabideche – é um número múltiplo de 2. Todos os outros são ímpares. Percebeste? O 23 não faz cerimónia para dizer que não, a ponto que o capitão, que andava fiscalizando a companhia, entra de ajudar à missa: – Isto quer dizer que um número par é sempre divisível por 2, ao passo que um número ímpar não é. É muito simples, meu rapaz… Nisto chega o major, que vem ver o estado de asseio da instrução do batalhão. Posto ao facto do caso, acrescenta para explicar a charada: – Todos os números pares têm por divisor comum o número 2, ao passo que os números ímpares são quase todos números primos e, por conseguinte, só divisíveis por si próprios e pela unidade… O pobre 23 dá mostras de alienação mental iminente e o grupo de oficiais volta as costas em coro ao desgraçado alcabidechense, que rebola cada olho de meter pavor. Então o cabo tem uma inspiração luminosa. – Olha, 23. Quando fores par, eu dou-te um caldinho no cachaço e, quando fores impre, dou-te um pontapé no c… Foi assim que o 23 aprendeu o “quatro à direita”.
Falemos agora de Stuart de Carvalhais
José Stuart de Carvalhais (Vila Real, 7 de Março de 1887 — Lisboa, 2 de Março de 1961), é considerado como o pai da banda desenhada em Portugal. Estudou no Real Instituto de Lisboa e em 1912 foi para Paris. A sua primeira banda desenhada – Quim e Manecas surge em 1915 no jornal O Século. Em 1916, estas personagens motivam o primeiro filme cómico português. As histórias de Quim e Manecas serão publicadas até 1953.
Pintor ligado à corrente modernista, fez diversas exposições individuais. Trabalhou no Teatro como figurinista e cenógrafo. Foi colaborador de muitos jornais e revistas, tais como O Século, Diário de Notícias, Diário Popular, Diário de lisboa, a Bola, Sátira, Sempre Fixe, Repórter X e muitas outras publicações.
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Gato Fedorento é o nome de um famoso grupo de humoristas – Ricardo Araújo Pereira, José Diogo Quintela. Miguel Góis e Tiago Dores. Em 2003, resolveram criar um blogue e,baseando-se num tema musical da série americana “Friends”, Smelly cat – baptizaram o blogue Gato Fedorento. Estava encontrado o nome de uma equipa terrível – é com esta equipa que terminamos por hoje: um debate sobre a ameaça do terrorismo, com a esclarecedora intervenção do Gajo de Alfama




Estão muito bem as recordações (ia a dizer reprises) do humor português. Nas tags referes o Vilhena, de que seria óptimo fazer uma apresentação. Não temos tag ainda para o gato fedorento, creio.
O José Vilhena fará parte da próxima edição. O Pato incluirá sempre colaboração portuguesa, inão esquecendo os “clássicos” – Rafael Bordalo Pinheiro, Gervásio Lobato, Armando Ferreira… Estes e outros, estão na mira do Pato .