Consultório Linguístico – Vai-se fazer… – por Magalhães dos Santos

 

 

Já outro dia comecei um artigo com uma anedota e, acreditando que tal não tenha suscitado reações negativas, vou repetir a “proeza”… Em determinado quartel, o sargentão chama o cabíssimo ao gabinete e diz-lhe: – Nosso cabo, forme o pelotão e comunique que logo, depois da sessão de manejo de arma, se vai fazer a sessão de ginástica. O cabíssimo chegou cá fora, mandou formar o pelotão e comunicou: – Ó rapaziada, o nosso sargento disse que depois da sessão de manejo de arma, farasse a sessão de ginástica. Destroçar! O pelotão destroçou e o sargentão, que tinha ouvido o comunicado, chamou o cabísssimo: – Nosso cabo, que é vossemecê disse aos nossos homens? – Disse o que o meu sargento me mandou dizer! – Que é lhes disse exatamente?!… – Disse-lhes que o nosso sargento disse que depois da sessão de manejo de arma, farasse a sessão de ginástica. E depois mandei destroçar… – Sua cavalgadura! – Sua cavalgadura, não! Se eu asneei, o meu sargento corrige-me mas não insulta! – Sua cavalgadura! Então como é que vossemecê conjuga aquele verbo fazer no futuro com o pronome pessoal?… – Então, meu sargento: farasse, faresse, farisse, farosse, farusse… – Sua cavalgadura! – O meu sargento ensina mas não insulta! – Então vossemecê não sabe que é far-se-á, far-se-é, far-se-í, far-se-ó, far-se-ú…

 

A anedota aí fica, oxalá tenham achado alguma graça…

 

Estas conjugações,quer do futuro quer do condicional levam a muito tropeção, dado,muitas, demasiadas vezes, por gente de cuja boca não se esperava tal hípico erro. O futuro e o condicional do indicativo, conjugados pronominalmente, formam-se com o infinitivo do verbo, intercala-se o pronome pessoal e acrescentam-se as terminações dos verbos no futuro e do condicional. ENCONTRAR-ME-EI, ENCONTRAR-TE-ÁS, ENCONTRAR-SE-Á, ENCONTRAR-NOS-EMOS, ENCONTRAR-VOS-EIS, ENCONTRAR-SE-ÃO. ENCONTRAR-ME-IA, ENCONTRAR-TE-IAS, ENCONTRAR-SE-IA, ENCONTRAR-NOS-ÍAMOS, ENCONTRAR-VOS-ÍEIS, ENCONTRAR-SE-IAM. Ao falar correntemente, desataviadamente, para muita gente de poucos ou nenhuns estudos, estas formas parecem e são arrevesadas, difíceis de pronunciar. E os tropeções acontecem e… revelam o nível (baixo!!!) de quem cai neles. Não digo o nível sócio-económico porque há muita gente bem posicionada e com fartas contas bancárias que… Valha-lhes Santa Rosa de Viterbo (e à Língua Portuguesa valha-lhe Nossa Senhora da Agrela, que não há outra como ela!) Escrevi ali acima: “O futuro e o condicional do indicativo, conjugados pronominalmente, formam-se com o infinitivo do verbo, intercala-se o pronome pessoal e acrescentam-se as terminações dos verbos no futuro e do condicional”. Três verbos constituem exceção a esta “regra”: DIZER, FAZER e TRAZER. Os ZE desaparecem e, assim, pronunciaremos: DIREI, FAREI e TRAREI. Como contornar aquelas esquinudas, rebarbativas formas? Por que não dizer: VOU-ME ENCONTRAR (em vez de encontrar-me-ei, que arranha a garganta)? Por que não dizer: IA-ME ENCONTRAR (em vez de encontrar-me-ia, que deixa a língua toda escalavrada)? Ou HEI DE ME ENCONTRAR (escreve-se sem o hífen, nas formas monossilábicas do verbo HAVER) ou HAVIA DE ME ENCONTRAR… é mais facilzinho, não?

5 Comments

  1. Por mim, este tipo de anedotas aligeira a transmissão de conhecimentos. Recebi um email com mais esta que vem a propósito e me lembra muita gente…”No Curso de Medicina, o professor se dirige ao aluno e pergunta: – Quantos rins nós temos? – Quatro! Responde o aluno. – Quatro? Replica o professor, arrogante, daqueles que sentem prazer em tripudiar sobre os erros dos alunos.- Tragam um feixe de capim, pois temos um asno na sala, ordena o professor a seu auxiliar.- E para mim um cafezinho! Replicou o aluno ao auxiliar do mestre.O professor ficou irado e expulsou o aluno da sala. O aluno era Aparício Torelly Aporelly (1895-1971), o ‘Barão de Itararé’. Ao sair da sala, o aluno ainda teve a audácia de corrigir o furioso mestre:- O senhor me perguntou quantos rins ‘NÓS TEMOS’. ‘NÓS’ temos quatro: dois meus e dois seus. ‘NÓS’ é uma expressão usada para o plural. Tenha um bom apetite e delicie-se com o capim.”Não sei a veracidade da história, nem interessa. Interessa ainda a particularidade de “Capim Seco ” ter sido o nome de um primeiro jornal humuristíco, manuscrito, que fez no colégio aos 14 anos.

  2. Para além das delícias…Porque não dizer seja o que for de qualquer das fomas que a língua admite como correctas? Não vejo qualquer problema. Simplesmente, a pergunta “porque não dizer”, proposta por Magalhães dos Santos, não pode pressupor que as outras formas que, eventualmente, “arranharão” as gargantas de algumas pessoas, sejam postas de lado. Pessoalmente, dizer “encontrar-me-ei” – ou outra conjugação verbal semelhante – não me arranha nada, considero-a esteticamente superior e, naturalmente, continuarei a usá-la… Direi, já agora, que prefiro a construção “vou encontrar-me” a “vou-me encontrar”, ainda que, não sendo especialista em linguística, não considere errada nenhuma das formulações. Algumas sugestões de Magalhães dos Santos parecem-me, no entanto, mais próximas da prosódia brasileira que da portuguesa. O que não tem mal. Gosto da prosódia brasileira, só que ela não independe do peculiar sotaque que a integra, o que não é pormenor de somenos. Mas, sendo de Portugal, habituado a falar de um outro modo, com construções morfo-sintácticas diferentes, não vejo razão para alterar a minha forma de falar e escrever. Também gosto das derivações geniais de Mia Couto, tal como me agrada a apropriação do modo mais comum da fala popular de cada PALOP, por parte dos seus escritores. Nada disso ofende a minha concepção do que é (e vai sendo) a língua portuguesa. O que me irrita, não poucas vezes, é o falajar ignorante de profissionais dos média, políticos, ou criaturas que arvoram graus académicos elevados e manisfestam uma ignorância irresponsável da sua própria língua e da “norma” dela que prevalece no espaço geográfico a que pertencem. Quanto à língua, propriamente dita, essa seguirá, nos diversos países onde é falada, uma evolução que, quer nos agrade, quer não, no essencial sempre nosescapará: será sempre o resultado de uma evolução colectica, de uma espécie de soma de vectores, de uma sua resultante que os escritores a sério e alguns dos seus cultores mais informados condensarão em novas e sucessivas sínteses…Já não se escreve como quando comecei a ler e a escrever. Dentro de 30 ou quarenta anos (quando já não andar por cá), a fala e a escrita terão mudado, nalguns casos em direcções que não me agradariam, o que será indiferente aos mais notáveis dos seus falantes de então. Aliás, já hoje prevalecem termos e expressões que me recuso a usar, mas sei que, inevitavelmente, serão, no futuro, habituais e generalizados (algumas já o são hoje e até alcançaram a dignidade “dicionarial”, como a aberrante e ilógica “chamar à atenção”!) Se estivermos atentos ao que se escreve em jornais e revistas, ou ao que se ouve na rádio e na televisão – cuja influência é esmagadora – verificaremos que o uso das preposições está claramente a “involuir”, o seu número se reduz drasticamente e a pertinência do seu uso se dissolve numa extraordinária nebulosidade. A confusão, noutros tempos inadmissível, entre tempos verbais diferentes (“passamos” já é igual a “passámos”…) já impera. O próprio peso “civilizacional” da “sociedade da comunicação” tende a impôr a simplificação, a redução do vocabulário, a submissão das línguas nacionais à “língua franca” que é hoje o inglês imperfeitíssimo em que toda a gente, por todo o Mundo, procura “entender-se” e que, inevitavelmente, contamina todas s outras línguas. Continuo a gozar com a ignorância linguística mais espessa difundida pelos média, mas sei que não se trata de nenhuma luta pela manutenção de um “estado” da língua que considero o mais correcto. É apenas uma tomada de posição, cada vez mais quixotesca, uma afirmação do tipo “eu não faço parte da vossa pandilha”, que a própria “pandilha” já nem entende. Há poucos dias, Antonio Tabucchi afirmava, a propósito do italiano e da sua actual degradação, que atingia classes sociais como a dos camponeses que, há não muito tempo, o falavam com notável correcção. O mesmo acontecia em Portugal, onde a língua foi igualmente “aplanada” numa mescla incaracterística e vastamente errónea e de onde as saborosas diferenças regionais e locais vão sendo rapidamente erradicadas. Será isto o “progresso”? Será inevitável, irrecuperável? Língua e literatura ficarão acessíveis tão só a alguns núcleos rarefeitos de intelectuais?

  3. Olha, Paulo, digo-te mais: houve aí umas décadas, e não sei se isso não acontecerá ainda, que muitos dos supostamente bem falantes maltratavam mais a língua do que as pessoas com menos instrução. O caso da conjugação do verbo haver é paradigmático. Eu nunca ouvi na minha família, onde ninguém tinha “canudo”, dizer “houveram muitos dias”,mas ouvi com frequência esta conjugação a um dos últimos presidente da república, homem culto. Não ao actual, claro.

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