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HISPANIDADE E COLONIZAÇÃO – por Carlos Loures

Castela seria, quando das grandes navegações portuguesas e castelhanas, um dos mais pobres territórios da Península. Não havia nenhuma cidade castelhana que pudesse competir em grandeza e importância com Barcelona, Lisboa: Mesmo Sevilha, reconquistada em 1248 no reinado de Fernando III, rapidamente, mercê do seu porto, se transformou numa urbe de grande dimensão e importância económica. Terá sido, a interioridade, a carência de recursos, numa palavra – a miséria – que impeliu o povo castelhano à conquista. Conquista é aliás o termo preferido pelos castelhanos para caracterizar a violência da sua penetração nos territórios recém-descobertos. A ávida busca de tesouros, de ouro sobretudo, transformou plácidos camponeses em soldados sanguinários. Conquista – com o beneplácito da Igreja – o termo serviu de capa ao genocídio, ao roubo, á criminosa destruição de milenares civilizações.

Os portugueses preferiram outra palavra – Colonização. Em certos aspectos, os dois conceitos equivaleram-se em irracionalidade integrista. – a imposição da cruz pela espada. De modo algum quero branquear os crimes cometidos. Porém, por um lado os colonizadores portugueses não encontraram civilizações avançadas (tê-las-iam destruído também, presume-se). Mas não, deparou-se-lhes tribos que praticavam uma agricultura rudimentar, com paralelo na passagem do Paleolítico para o Neolítico.  Houve confrontos, nem tudo foi pacífico, mas talvez o maior volume de mortes causadas pelos portugueses tenha sido o das epidemias que espalharam entre os índios.  Com todos os erros, brutalidades e crimes comeetidos pelos colonizadores, o Brasill é hoje um país de grande importância. Pese embora as suas assimetrias sociais, é  a principal potência económica do subcontinente. Conservou até hoje a  integridade territorial – com uma ou outra ameaça de secessão. A  conquista castelhana, brutal e devastadora, deu lugar a mais de 20 estados.

Já ouvi a brasileiros o lamento de que se tivessem sido colonizados pelos holandeses, o Brasil seria hoje um país mais desenvolvido – pura ingratidão. Irmãos brasileiros, achais que a Indonésia, rica em recursos naturais, é um país mais desenvolvido do que o Brasil?  Mas nem só num território rico em recursos naturais, como o Brasil, a política de colonização praticada pelos portugueses, muito baseada na miscigenação, resultou em terrs áridas como o arquipélago de Cabo Verde – sem recursos, apenas com a inteligência  e abnegação dos  cabo-verdianos, o país tem um rendimento per capita superior ao de países ricos do continente africano.

Onde quero chegar é que a hispanidade nos países colonizados por Portugal e Castela também foi (e é) vivida de formas diferentes. As próprias independências foram obtidas de maneiras diferentes no Brasil e nas ex-colónias espanholas. A hispanidade dos latino-americanos é vivida com base em dois idiomas – o castelhano e o português. Nos barcos que suas majestades católicas enviavam à descoberta e à conquista, iam catalães, bascos, galegos… A presença nas Américas de outras línguas, que não o castelhano, é residual. Se não tivessemos recuperado a independência, o Brasil teria sido conquistado pelos holandeses. Ou falaria castelhano.

É aqui que quero chegar. Um pequeno país, inventado, imaginado por barões medievais, pobre – ora sonho, ora pesadelo, transportou até aos nossos dias,  durante nove séculos, um idioma que colheu a norte do seu território, conservou-o, deu-lhe forma literária, espalhou-o pelo mundo. Isto porque a nossa hispanidade é vivida de costas para Madrid e de olhos postos no mar.

Somos hispanos – mas isso não nos preocupa.

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