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AOS LADRÕES DE FOGO – por Carlos Loures

A discussão sobre a natureza da arte, é tão antiga quanto a civilização. Milhares de filósofos e de poetas discorreram longa e sabiamente sobre este tema. Labirinto em que não vou entrar. Como em todos os labirintos, a entrada é fácil – sair é mais difícil. Nos anos 60 do século XX, num trabalho com o título «A Necessidade da Arte», Ernst Fischer (1899-1972), o ensaísta austríaco,  dizia que «a arte é ela própria uma realidade social. A sociedade necessita do artista, esse supremo feiticeiro, e tem o direito de lhe pedir que tenha consciência da sua função social.» Na verdade, com o advento do capitalismo, surgiu pela primeira vez na história das civilizações uma classe dominante que não procurou colocar, de uma maneira objectiva, a arte ao seu serviço. Pela primeira vez, o artista ficou livre de qualquer tutela,  desvinculado de quaisquer obrigações para com a comunidade de que faz parte.

Naturalmente que esta desmedida liberdade, longe do o libertar no sentido mais nobre da palavra, o sujeita a uma terrível tirania – à solidão, à angústia e ao desespero. Em alternativa, à submissão. É uma liberdade que, em última instância, o força a enfrentar sozinho toda uma sociedade orientada para o lucro. Das duas uma: ou produz  mercadoria vendível ou é rejeitado. O capitalismo não lhe deu liberdade – abandonou-o, rejeitou-o, ignorou-o. Ficou com a liberdade de aceitar as leis do sistema ou de não existir como artista.

Há muitos anos, escrevi um texto de teor surrealizante a que pus o título  Aos Ladrões de Fogo. A expressão é de Jean-Arthur Rimbaud(Donc le poète est vraiment voleur de feu) e o meu texto era umaespécie de mensagem aos poetas, lembrando-lhes a sua condição de magos. À época, muitos dos nossos melhores poetas trabalhavam em agências de publicidade, queimando as meninges na descoberta de um bom slogan. Ainda há dias o Fernando Correia da Silva lembrava anúncios concebidos pelo excelente poeta que era o Alexandre O’Neill. Mas Fernando Pessoa três décadas antes trabalhara em publicidade. Toda a gente cita o «Primeiro estranha-se. e Depois entranha-se» que concebeu para a Coca Cola. Mas há outros anúncios pessoanos: «Uma cinta Pompadour veste bem e ajuda sempre a vestir bem.» ou «”Seja qual for a linha da moda na Toilette feminina é sempre indispensável uma cinta Pompadour.»

No tal texto os poetas eram  comparados a Prometeu roubando o fogo do Olimpo para o entregar aos homens. Descontando os deuses, as comparações fazem algum sentido. A arte, a poesia em particular, é um acto de magia, pois com as mesmas palavras com que se compra um jornal ou um pão, constrói-se um poema. Tal como Prometeu, o artista é um ladrão de fogo, um mago.  Com a ousadia da juventude, permitia-me ainda que veladamente censurar aos poetas o uso indevido da sua magia. Esquecia-me de que se com palavras comuns se consegue construir um poema, essa magia só permitia aos poetas comerem se as vendessem. Grandes amigos, excelentes poetas, homens de grande dignidade, usavam o seu talento para criar slogans. Numa conferência que deu em Tomar nos anos 60, Alves Redol contava como um grupo de escritores tinha estado por aqueles dias numa reunião de horas para criar uma campanha de uma máquina de lavar.

Um poeta a gastar o seu talento a encontrar um slogan para uma máquina de lavar, é como se Prometeu tivesse roubado o fogo do Olimpo para acender um cigarro. Alexandre O’Neill escrevendo anúncios para os colchões Luso Espuma foi um atentado contra a poesia. Parecia-me nesses anos em que comparava os poetas aos magos e continua a parecer-me. Porém, aprendi à minha custa que os poetas precisam de comer, de comprar pão, de alimentar a família.  Como diz Fischer: «O artista na época do capitalismo encontrou-se numa situação muito peculiar. O rei Midas transformava tudo o que tocava em ouro: o capitalismo transformou tudo em mercadoria.»

A arte passou, pois, a ser uma mercadoria e o artista um produtor. O sistema de mecenato foi substituído por um método de iniciativa privada e por um mercado livre onde a apreciação mercantil da obra ficou à mercê do gosto do público, gosto (de)formado por toda uma dinâmica de marketing. É uma aberração, mas nós aceitamo-la. O capitalismo é como a Coca-Cola: primeiro estarnha-se e depois entranha-se.

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