
A natureza da arte, é um tema de discussão tão antigo quanto a civilização. Milhares de filósofos e de poetas discorreram longa e sabiamente sobre este tema. Não vou entrar nesse labirinto. Nos anos 60 do século XX, num trabalho com o título «A Necessidade da Arte», Ernst Fischer (1899-1972), o ensaísta austríaco, dizia que «a arte é ela própria uma realidade social. A sociedade necessita do artista, esse supremo feiticeiro, e tem o direito de lhe pedir que tenha consciência da sua função social.» Na verdade, com o advento do capitalismo, surge pela primeira vez na história das civilizações uma classe dominante que não procura colocar, de uma maneira objectiva, a arte ao seu serviço. Pela primeira vez, o artista é livre de qualquer tutela e fica desvinculado das suas obrigações para com a comunidade de que faz parte.
Naturalmente que esta desmedida liberdade, longe do o libertar no sentido mais nobre da palavra, o sujeita a uma terrível tirania – à solidão, à angústia e ao desespero. Ao desemprego ou, em alternativa, à submissão. É uma liberdade que, em última instância, o força a enfrentar sozinho toda uma sociedade orientada para o lucro. Das duas uma: ou o que produz é mercadoria vendível ou é rejeitado. Rectifico, portanto: o capitalismo não dá liberdade ao artista – abandona-o, rejeita-o, ignora-o. Dá-lhe a liberdade de aceitar as suas leis ou de não existir.
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Há muitos anos, escrevi um texto de teor surrealizante a que pus o título Aos Ladrões de Fogo – uma espécie de recado aos poetas, lembrando-lhes a sua condição de magos. À época, muitos dos nossos melhores poetas trabalhavam em agências de publicidade, queimando as meninges na descoberta de um bom slogan. Ainda há dias o Fernando Correia da Silva lembrava anúncios concebidos pelo excelente poeta que era o Alexandre O’Neill. Mas já Fernando Pessoa três décadas antes trabalhara em publicidade. Toda a gente cita o «Primeiro estranha-se. e Depois entranha-se» que concebeu para a Coca Cola. Mas há outros anúncios pessoanos: «Uma cinta Pompadour veste bem e ajuda sempre a vestir bem.» ou «”Seja qual for a linha da moda na Toilette feminina é sempre indispensável uma cinta Pompadour.»
No tal texto os poetas eram comparados a Prometeu roubando o fogo do Olimpo para o entregar aos homens. Descontando os deuses, as comparações fazem algum sentido. A arte, a poesia em particular, é um acto de magia, pois com as mesmas palavras com que se compra um jornal ou um pão, constrói-se um poema. Tal como Prometeu, o artista é um ladrão de fogo, um mago. Com a ousadia da juventude, permitia-me ainda que veladamente censurar aos poetas o uso indevido da sua magia. Esquecia-me de que se com palavras comuns se consegue construir um poema, essa magia só permitia aos poetas comerem se as vendessem. Grandes amigos, excelentes poetas, homens de grande dignidade, usavam o seu talento para criar slogans. Numa conferência que deu em Tomar nos anos 60, Alves Redol contava como um grupo de escritores tinha estado por aqueles dias numa reunião de horas para criar uma campanha de uma máquina de lavar.
No tal recado que mandei aos poetas, esqueci-me (ou não sabia ainda) que os feiticeiros também precisam de comer.
