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RETRATOS, IMAGENS, SÍNTESE DOS EFEITOS DA CRISE DA ZONA EURO SOBRE CADA PAÍS

 Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

UM DIA NO MUNDO DE NADA E COM  GENTE SEM NADA, EM PARIS

Em Paris, os pedidos para abrigos de emergência   dispararam nos últimos anos: + 17,5% entre Janeiro e Dezembro de 2011.

Um dia na vida de Eric, um SDF em Paris (SDF – Sem domicílio fixo)

Soren Seelow (texto) et Karim El Hadj (imagens), publicado por Le Monde

27 Outubro de 2012

Parte II

(conclusão)

” Tu já conseguiste ? Sim? Um lugar no Refúgio?  Filhos da p. ! Que 115 de merda! » Nacer, aliás ‘ Pastèque ‘, não está em  situação de se  alegrar por Jean-Marc. Espera, a loteria das camas, a perspectiva de mais uma noite na rua, por vezes, criando-se assim  tensões e ciúmes… ” Isto não é uma vida, não tenho nada. ‘. Estou cansado, eu vou-me abaixo. No  115, disseram-me para telefonar pelas  19 horas. É isto que me enerva,  diz-nos ele e mostra-nos o seu saco . Durmo em abrigo de anúncios nas paragens dos autocarros, metro, parques… Eu não posso ir trabalhar com um saco! Mas é preciso que eu me lave, que tome um duche… »

O tempo da primeira cerveja. Uma  Koenigsbeer, a mais barata, 54 cêntimos  no Carrefour Market, 7 graus. Mata-se o tempo, cigarros uns atrás dos outros, lata após lata. «É muito comprido, um dia, quando não se  faz nada, é muito comprido mesmo “, suspira  Eric.

Nacer  parte para a sua  entrevista com uma assistente social em Charonne, que  deve teoricamente  ajudá-lo  a encontrar alojamento. Com um tecto debaixo do qual pode  colocar o seu saco, ele diz que “na hora”  pode  encontrar trabalho na construção.  Não há muitas ilusões  quanto ao resultado da entrevista. “Vou-te deixar o meu saco”, diz ele para Eric.

10 h 07

 Depois da sua  “tournée  a apanhar beatas de cigarros”, Didier consegue uns poucos  cigarros   de enrolar . |. | Karim El Hadj

Didier voltou da sua “tourné de apanhar beatas” . Em geral, arranja-se sempre para fazer cigarros de enrolar Mas os cigarros menos queimados, as beatas  mais longas, fumam-se mesmo assim. De pernas cruzadas na ponta de um banco , ele começou com uma série de piadas. “São aqueles do  Parisien, eles são bastante fáceis. »

Disc-Jokey  na Bretanha durante  oito anos e, em seguida, barman numa boite , Didier chegou a Paris  em 1997, onde começou como empregado de café durante  alguns anos. Este  perdeu o emprego em Setembro de 2010 e sofre o seu golpe de misericórdia: “um ajustamento  fiscal”. ‘ Joguei, perdi, admite ele. Inicialmente, eu devia  3.000 euros. Mas, com  os juros, ascendeu a 8.000. E uma vez na rua, desempregado, tornou-se  impossível reembolsar. »

Em fim de linha, em fim de direito a subsídio, Didier não tem mais nenhum rendimento. O seu pedido de RSA está pendente, está à espera, e entretanto faz uns “biscates”, dois ou três dias por semana. Esta tarde, irá “ trabalhar ‘ na estação Pasteur, onde ele já tem os seus hábitos.

No seu saco, Eric tem um mapa de Paris, um livro sobre Bourvil, uma edição especial de Le Point sobre os personagens de Tintim, sudokus, espuma de barbear, uma Gillette , meias, cuecas,  desodorante, um rádio, pilhas,  um pequeno instrumento para  fazer limonadas  (“super importante, todos devem ter um”) e os seus documentos de identidade  . Ele trás também duas raquetes de ping-pong  “Didier,   sabes  jogar?”

Aparecem três crianças, raquetes na mão e ostensivamente  cobiçam a mesa. Estes são os primeiros visitantes da Praça desde o início da manhã. Estes dois precários  aqui “jogadores de ping-pong” rapidamente lhes cedem o seu lugar . “Eles, eles são bem melhores,” sorriu Didier.

10 h 46

Este é o momento do  primeiro abastecimento.  Em frente ao centro comercial Itália 2, Eric e Didier cruzam-se com  José, sempre “no mesmo lugar ‘, imóvel, uma garganta  mineralizada pela tristeza, como uma surpresa por um fluxo de lava em um momento de susto. Um pouco mais longe, é o canto do polaco.

10 h 54

No mercado Carrefour, na direcção da prateleira Cerveja . Com os braços carregados com oito Koenigsbeer 50 cl passa-se à caixa.  “Oferecem-se àqueles que não têm os  meios para pagar,”, diz Eric. A  “Solidariedade, é importante”.

Nacer está de volta do seu serviço, vazio,  como já era esperado. Ele está nervoso, quase agressivo, cheio de raiva  contra o sistema de abrigos de emergência que  privilegia “os loucos”  e os estrangeiros “que ainda não falam francês”. “ Faz já  três semanas que eu dormo fora!”, enfurece-se.

11 h 45

Jürgen ‘Blitzkrieg’   cala-se.  Com um barrete de lã  azul que tapa  a sua cabeça de velho e já enrugado , ele não disse uma palavra nesta  manhã. Ele permanecerá assim fechado no seu silênciol  durante todo o dia.

11 h 52

 

 http://www.lemonde.fr/societe/article/2012/10/26/une-journee-dans-la-vie-d-eric-sdf-a-paris_1781513_3224.html
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