RETRATOS, IMAGENS, SÍNTESE DOS EFEITOS DA CRISE DA ZONA EURO SOBRE CADA PAÍS

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

UM DIA NO MUNDO DE NADA E COM  GENTE SEM NADA, EM PARIS

Em Paris, os pedidos para abrigos de emergência   dispararam nos últimos anos: + 17,5% entre Janeiro e Dezembro de 2011.

Um dia na vida de Eric, um SDF em Paris (SDF – Sem domicílio fixo)

Soren Seelow (texto) et Karim El Hadj (imagens), publicado por Le Monde

27 Outubro de 2012

Parte I

Eric guarda o saco de Nacer, na Praça Montgolfière.| Karim El Hadj

6 h 59. O sinal  de alarme toca. Eric abre os olhos. Ao lado dele, no seu colchão, a mochila de que  nunca se separa. Vestido com  calças de cidade, deixa-se  escorregar ao pé da cama do beliche. Na “caixa”, duas camas  já estão vazias. Um colega do quarto prepara-se, os outros quatro estão  ainda a dormir . Eric tira de debaixo do colchão a sua toalha de banho que   lhe deram  na noite anterior  à entrada,  tira o seu saco-cama e sai. Os azulejos  do corredor onde   estão  alinhados os “quartos” ,  iluminados pela luz  néon estão  cheios de folhas da noite. Eric toma  um banho com o seu «kit de  limpeza» diário  e, em seguida,  vai à caixa buscar uma camisa.

Eric tem 50 anos. Ele é um sem abrigo desde há  dois anos e meio. Esmagado pelo seu trabalho, abalado por um divórcio, este antigo funcionário da  polícia   foi-se abaixo, “rebentou “.  Ele  caiu na  depressão, perdeu  o emprego. Ele atingiu “o fundo”: noites  nos  parques de estacionamento,  o inverno parisiense, as chamadas para o 115, o número do Samu social de Paris que, às vezes, permite encontrar uma cama para a noite. Em Outubro de 2010, ele conseguiu um lugar no “Refúgio”, um centro de albergue de emergência (CHU) que dispõe de alojamento  com  426 camas  no inverno ( verão 200) gerido pela Associação Mie Pain no 13ª bairro. .

Às 08:30, depois do pequeno almoço no refeitório, o Refuge fecha. Várias centenas de SDF encontram-se pela rua  condenados a vaguear de praças a estações de metro até à reabertura de portas, no início da noite. Um dia de espera, longa e frio começa então. Passámos este dia com Eric.

  • 8 h 25
 Didier, antigo empregado de café é um SDF desde há dois anos . | Karim El Hadj

«Hei,  Didier, vais ao  parque? ” No passeio em frente  está  Didier, 52 anos, parceiro de Eric, chamado também de o  Bretão   com quem às vezes jogam juntos . O antigo polícia e o ex-empregado de café  encontraram-se em o Refuge, dois anos antes, quando estes tinha perdido tudo. Ambos sobem a rua de Charles Fourier, saco às costas. O 13ª bairro  tornou-se o seu território, uma área que eles conhecem de cor e salteado,  cheio de hábitos e de  referências.

  • 8 h 35

.A praça Montgolfière  está  a algumas dezenas de metros do Refuge. É aqui que Eric encontra todos os dias os seus camaradas de paciência, aqueles com quem ele mata o  tempo saboreando  algumas cervejas  de baixo preço . É sobre estes três bancos, sempre os mesmos, que eles irão passar a  manhã, uma manhã  interminável, uma manhã à Beckett, interrompida aqui e ali por um  encontro à CAF para tratar da sua sobrevivência , algumas horas de “trabalho” ou um reabastecimento no supermercado.

No decorrer do tempo, das horas que se seguem umas a seguir às outras, vários ”habituados”  desfilaram   por  estes três bancos, cada um também designado  por uma alcunha: Eric, dito “o belga”, em referência ao seu país de origem, Didier o “Bretão”, Nacer  “natural de Marselha e de origem  argelina, apelidado de ” Pastèque” em homenagem a sua morfologia, Jürgen, dito  ‘Blitzkrieg’,  “o  único alemão que não  foi libertado depois da guerra”, Thierry, o “da Réunion”  Jean-Marc, dito  “Marc” e Jerôme, “o Belmondo” ou “Capitão Haddock”., que treme como uma folha devido a problemas neurológicos e  de consumo  abusivo  de álcool. “Titi” e “Pierrot”, estes não passaram aqui o verão.

8 h 40

 
Eric, Didier e Jean-Marc tem cada um o seu telefone junto ao ouvido. Não dizem uma palavra. Eles esperam. Eles estão à procura de uma  cama para Jean-Marc, o que deixa o hospital após uma complicação de ordem  cardíaca  e dorme desde há  semanas na rua. Um único número: 115. E um refrão, muitas vezes o mesmo: «Bom-dia,  todas as linhas de seu correspondente estão ocupadas, por favor, tente  mais tarde” o que é dito em várias línguas, francês, inglês, russo ou árabe.

Às vezes, alguém consegue. “Eles, depois, colocam-vos à espera .” Isto pode durar entre 10 minutos a três quartos de hora. E, depois, dizem-vos para telefonarem às 19 horas. “E quando alguém volta a telefonar, já não há lugar,” resume Eric. Os pedidos para abrigos de emergência   dispararam nos últimos anos: + 17,5% entre Janeiro e Dezembro de 2011. O Samu social está saturado. De acordo com a Federação Nacional das associações de reintegração social, três sobre quatro que tenham telefonado para o 115 em Setembro não receberam proposta de alojamento.

Jean-Marc teve sorte. Depois de quinze minutos de espera com música, ele encontrou uma cama para hoje à noite, mas nada para depois “. É totalmente aleatório, por vezes  arranja-se  uma noite, às vezes três, muitas vezes nada. Tudo depende de quem vos atende do outro lado do fio.

(continua)

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