
Avisámos logo no primeiro dia que não iríamos privilegiar as novidades. O nosso compromisso é falar do livro em abstracto ou de algum livro em concreto, tenha saído na véspera ou há 500 anos. Excepção Atlântica não saiu nem ontem nem há 500 anos – esta obra de Roberto Vecchi (Porto, Ed. Afrontamento, 2010) que Manuel Simões analisa hoje foi apresentado na Livraria Barata no dia 25 de Outubro de 2010. Esta reflexão sobre a litertura que a Guerra Colonial suscitou merece a nossa atenção e lembramos que ontem, dia 4, passou mais um aniversário sobre o começo desse conflito de três frentes que duraria 13 anos. Atenção, pois, às palavras de Manuel Simões.

Ao longo de um preâmbulo e de oito capítulos de grande maturidade reflexiva, até do ponto de vista teórico, o Autor conduz o seu discurso no sentido de observar a literatura da guerra colonial como um modo, entre outros possíveis, para tentar um discurso crítico sobre Portugal, sobre o império colonial (ponto ainda fracturante da história portuguesa contemporânea), sobre o trauma, “sobre a relação entre a violência e a excepção para que sempre remete”.
Na sua globalidade, o volume constitui um desafio que o Autor faz a si próprio e aos leitores no sentido duma leitura abrangente e iluminante, sob muitos aspectos, dos vários textos ficcionais que se produziram sobre a guerra colonial. Concordo plenamente com Margarida Calafate Ribeiro, prefaciadora do volume, quando afirma que este livro nos leva a reflectir “sobre Portugal de uma forma teoricamente provocante, absolutamente inovadora e distinta do que até agora tem vindo a ser feito”.
Roberto Vecchi é professor de Literatura Portuguesa e Brasileira, e de História das Culturas de Língua Portuguesa na Universidade de Bolonha. Para além dos dois ensaios já citados, de certo modo fundadores do que viria a ser a investigação futura, é autor de vários ensaios sobre o mesmo tema, publicados em Portugal, em Itália e no Brasil. Desses estudos destaco: “Mares coloniais, mares da memória. Algumas considerações sobre a literatura da guerra colonial” (1994); “Percursos. Fragmentos de uma ‘recherche’ da África perdida” (1996); “Barbárie e representação: o silêncio da testemunha” (2001): “Experiência e representação: dois paradigmas para um cânone literário da guerra colonial” (2001); “Restos de experiência, rastos de memória: algumas características da guerra colonial” (2001); “Das relíquias às ruínas. Fantasmas imperiais nas criptas literárias da guerra colonial” (2003); e “Império português e biopolítica: uma modernidade precoce?” (2007).
