Dia a dia, mês a mês, década a década, fomos perdendo as ilusões que tínhamos. Vivemos em democracia, dizem. Mas será o sistema pelo qual nos governamos, uma democracia? A democracia representativa quem representa? Os eleitores? Não. Logo que eleitos, os deputados, os ministros, que se afadigam a fazer promessas durante as campanhas, esquecem quem os elegeu e passam a defender as estratégias políticas dos partidos a que pertencem.
Sejamos francos – democracia representativa é uma máscara que a oligarquia neo-liberal usa. O poder, o verdadeiro poder, está nas mãos dos grandes grupos económicos, tal como durante o período da ditadura. Mas agora esta situação é sancionada pelo voto livre dos cidadãos ao elegerem os seus representantes no Parlamento, o governo, e o chefe de Estado.
Quanto a mim, é uma diferença pouco mais do que formal. Há uma quase liberdade de expressão, mas a televisão e o marketing político das grandes máquinas partidárias do chamado «bloco central» se encarregam, através de insidiosos opinion makers, de unificar o pensamento.
E sem o aparato repressivo, com a disseminação do «politicamente correcto» aí temos o pensamento único, um instrumento fundamental do neo-liberalismo. Porque o pensamento único , apresentado como pedra angular do sistema, impõe como verdade absoluta e indiscutível o primado do económico sobre o sociopolítico. Já vi jovens economistas rindo-se de argumentos de natureza moral e política. O politicamente correcto, que abriu caminho ao pensamento único, impõe uma total independência da economia. A economia tem de ser apolítica, dizem com o ar de quem diz o que é óbvio. Outros pilares do sistema – o realismo (as coisas são como são) e o pragmatismo (para se solucionar um problema de natureza económica, a ideologia política tem de ser erradicada).
A nossa democracia obedece já não a princípios – obedece aos fins, aos objectivos, às leis e aos interesses dos mercados. A verdade é que esta tese do carácter apolítico que as medidas económicas devem ter é aceite por muita gente que se considera de esquerda. «Porque» (já ouvi este argumento) «se a minha vida depende do êxito de uma cirurgia, interessa-me a perícia do cirurgião, não o seu credo político». Naturalmente que esta apoliticidade das medidas económicas são expressão de um credo político – o neoliberalismo.
Ser apolítico é uma forma de apoiar a política de quem está no poder. Durante a ditadura salazarista, a máquina de propaganda disseminava a consigna «a minha política é o trabalho». A ditadura neo-liberal, obedecendo ao «jogo democrático», ridiculariza conceitos como os de esquerda e direita. Tenta fazer passar a ideia de que já não se justifica uma tal clivagem.
Nós, os cidadãos eleitores, aceitamos princípios inaceitáveis e aceitamos anormalidades como coisas normais – as liberdades impedindo a Liberdade de florescer. Pode dizer-se tudo, fazer-se tudo. O poder descobriu que reprimir a palavra, reprimir a liberdade de reunião e de associação, manter uma polícia política, era um erro.
Há quem chame a esta democracia o novo fascismo. Convinha saber do que falamos, quando falamos de democracia.
