Caravel dourado
Era não 25 de abril mas de agosto
quando o levaram de Vigo na noite,
a mãe a proteger os filhos com uma mão,
a agarrar o marido com a outra.
E apareceu na seguinte madrugada
encostado na berma com os outros.
Era não 25 de abril mas de fevereiro
quando as acusaram de revolta
e de não trabalhar o suficiente.
Chicote afiado, cela diminuta para trinta,
cadeira elétrica, a recolher água do mar
antes de afogar na praia Fernão Dias.
Era não 25 de abril mas de dezembro
quando Wiriyamu fervia sob as bombas,
casas ardendo, centos de pessoas.
A retirada aos quartéis de pútrido militar
deixou um ronsel vermelho,
rasto de destruição.
Era não 25 de abril mas de janeiro
quando o colonial queria algodão de balde
e o trabalhador de Cassange pediu preço.
Bombas, disparos, mortes a milhares,
mas o Congo era independente
e a dura e longa luta começou.
Era não 25 de abril mas de qualquer outro mês,
e provavelmente qualquer outro dia,
– que mais tem?
quando o sangue de tantas pessoas
começou a tecer as pétalas
de um caravel dourado,
branco e azul,
verde galego,
um belo caravel de ébano,
negro e castanho,
africano.
Cravo caravel de cor encarnada,
não sei se de ouro, de ferro ou de amor,
eras tu português ou eras outro,
eras de todas as cores,
eras de toda a parte,
antes de ser português?
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