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REFLEXÕES SOBRE A MORTE DA ZONA EURO, SOBRE OS CAMINHOS SEGUIDOS NA EUROPA A CAMINHO DOS ANOS 1930

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

Eurozona: Por quem tocam os sinos?

Georges Ugeux, Março de 2013

 

É claro que  os sinos tocam  em Chipre, que não  tinha  merecido nem este excesso de honra nem esta indignidade [1]. Mas nesta triste saga, os sinos tocam  para os líderes da zona  euro, cuja atitude provocou uma crise de que a Europa terá grande dificuldade  em  recuperar: levanta-se  a questão da confiança. O acumular  de maus julgamentos e de decisões indesculpáveis já não é apenas o  resultado do simples erro. Ou então, tudo isto reflecte uma forma de incompetência dramática.

O Presidente do Eurogrupo grita ao hallali da  União bancária da Europa. Jeroen Dijsselbloem  levanta  uma unanimidade de gente contra ele. O hallali  é um grito de vitória na caça à  raposa, para anunciar que a besta está completamente encurralada  [2]. A sua declaração da vitória   depois do chamado resgate de Chipre é a declaração de um  caçador que matou a sua presa: Chipre não recuperará do  tratamento que foi imposto pela Europa.

Ao anunciar que o acordo é um modelo para tratar os problemas bancários [3], o Presidente da zona euro fez saber ao mundo que agora se pretende ir aos bolsos dos depositantes com mais de  100 000 euros, tendo tomado consciência , um pouco tarde, que estava a dar um tiro  no pé do “sagrado” princípio dos  depósitos garantidos abaixo desse montante. A taxa a aplicar será de 40%? Na prática, isso significa que um depositante de montantes importantes  (sejam  investidores ou empresas ou até mesmo os bancos centrais) podem já não ter nenhuma confiança nos bancos  europeus a partir do momento em que estes estão em apuros. Torna-se, portanto, urgente transferir para Frankfurt, Zurique, Londres ou Estocolmo estes depósitos ameaçados de confiscação. Esta é uma consequência directa do “princípio Dijsselbloem”, que já foi aplicado durante a nacionalização do SNS Reaal nos Países Baixos no ano passado.

Este princípio exclui toda e qualquer forma de garantia mútua dos depósitos bancários dentro da zona euro: se esta garantia tivesse sido  eficaz  durante  a crise cipriota, ela teria forçado os bancos da zona euro a virem em socorro dos  bancos cipriotas e a cobrirem-se  os depósitos.

O acordo cipriota pode exacerbar a desconfiança entre os bancos

Estamos num momento muito delicado em termos de relações interbancárias europeias. As instituições financeiras estão cada vez menos confiantes umas nas outras . 684 mil milhões de euros com origem nos  bancos da zona euro estão depositados junto do  Banco Central Europeu. Os temores sobre a diminuição da liquidez bancária e, portanto, a dificuldade crescente para financiar a economia fazia-se sentir  antes da crise.

Como nos diz hoje em grande título o Financial Times, a zona euro decidiu transferir o risco da crise dos contribuintes para os depositantes. Ela não terá mais do que os seus  olhos para  chorar quando o BCE esgotar  a  sua capacidade de financiamento dos bancos  e em  que os depositantes terão fugido  da zona euro.

Se movimentos  substanciais de depósitos para os países considerados sólidos devem ser verificados, os bancos espanhóis e italianos, em particular, encontram-se numa muito má posição,  e esses movimentos só por si seriam susceptíveis de provocar uma crise de liquidez e com o seu corolário, uma crise de crédito. Eles na verdade devem alienar maciçamente títulos soberanos, italianos e espanhóis.

O espectro de uma nova crise Europeia aparece

Os observadores são unânimes: o efeito Mario Draghi agora é já passado. Como o BCE ainda não teve que  intervir, não é um drama.

Mas, em face do enfraquecimento do sistema bancário europeu, a desconfiança aumenta. Esta inversão de marcha por parte de investidores e dos operadores de mercado terá consequências nefastas.

Entrámos já numa numa nova área de turbulência, pelo facto da inconsciência ou  da  incompetência de uma zona  euro que não tem nenhum piloto dentro do avião  e que só pensa em termos de curto prazo.

Este clube dos Ministros das Finanças cometeu, para além disso, um erro grave que agrava a sua situação: nomearam um holandês por uma questão de dosagem política. Jeroen Dijsselbloem  era  ministro das Finanças, mas somente desde  5 de Novembro de 2012 [4]. A zona  euro tinha à sua disposição homens de uma outra têmpera.

Os europeus estão agora a questionarem-se sobre se  as suas economias estão  seguras e em boas mãos. Essa violação dos princípios básicos do direito bancário vai ensombrar a Europa por muito tempo. E isso, por 10 mil milhões de euros… de que quase 4 são imputáveis ao roubo colectivo dos bancos  pela resolução da crise grega. Tinham-nos embalado com  ilusões prometendo que isto seria um caso único… A pasta de dentes saiu da sua bisnaga:  não existem já  mais meios para  refazer a situação, para voltar a colocar a pasta no sítio. O Presidente da zona euro, quer aplicar a mesma fórmula mágica para outros resgates de bancos.

______

[1] Racine, Britannicus

[2] Wikipedia

[3]http://www.slate.com/blogs/moneybox/2013/03/26/jeroen_dijsselbloem_s_very_bad_day.html

[4] Der Spiegel levanta abertamente a questão da sua competência . Veja-se : .http://www.spiegel.de/international/europe/euro-group-head-jeroen-dijsselbloem-under-fire-for-cyprus-comment-a-891102.html

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