Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
As nuvens amontoam-se sobre os mercados financeiros
Georges Ugeux, Julho de 2013, Le Monde
Em poucos dias, vários países fizeram-nos lembrar estas imagens de nuvens negras sobre os mercados até porque a combinação destes sinais afectam o conjunto dos mercados financeiros. O nervosismo dos investidores é posto á prova com acontecimentos uns mais inquietantes que os outros, mesmo se são de natureza diferente e se a sua importância é variável.
1. Os Estados Unidos enviaram um sinal sobre o fim progressivo de uma política de dinheiro fácil que, em três vezes, permitiu assegurar-se não somente uma liquidez excepcional, mas também um nível de taxas de juro próximas de zero. A correcção bolsista torna-se inevitável, e esta decisão, perfeitamente racional e legítima, agita consideravelmente os investidores além- Atlântico. A mensagem do Governador do Federal Reserve, Ben Bernanke, é todavia indispensável. Não cabe ao Banco Central prosseguir uma política que gera uma inflação dos activos através de interpostas taxas de juro.
2. A China teve uma crise de liquidez há duas semanas, que pôs em questão a politica da nova administração chinesa . Um verdadeiro pânico tinha feito afundarem-se as acções chinesas em cerca de 7% num só dia. Esta crise desenvolve-se num momento em que o crescimento baixa na China. Os mercados financeiros na China são todavia controlados pelo Banco central da China. Face às restrições de créditos o « shadow banking » desenvolveu-se e tornou-se muito importante para a economia chinesa . É este sector que se deixou apanhar em movimento tipo tesoura, está confrontado agora a taxas que ultrapassam os 30 %.
3. Portugal, em plena crise política vê o rendimento das suas obrigações a 10 anos aumentar, depois de terem baixado de 16 para 6% . Esta situação é igualmente devida a dificuldades económicas. Inútil afirmar que o conjunto dos países « limítrofes » como se lhes chama por pudor, foi abalado. Imagina-se que Durão Barroso, o presidente da Comissão Europeia, esteja muito preocupado em ver o seu país tornar-se um elemento de contágio na zona euro. É muito cedo para se medir o impacto de tudo isto. Mas a experiência aconselha-nos a sermos prudentes. A coligação governamental no poder em Portugal mostrou na passada quarta-feira a sua vontade em ultrapassar a crise política provocada pela demissão de dois dos seus ministros chave fazendo acreditar um falhanço da política de austeridade reclamada pelos seus parceiros europeus e pelos mercados financeiros, precisa AFP. Tal como as situações grega e cipriota se degradam, não se trata somente de Portugal .
4. O Egipto conhece uma nova versão da Primavera árabe. A fraternidade muçulmana deu aso a uma Constituição de base islamita que alienou vários segmentos da população. O conservadorismo não corresponde ao que esperavam dele aqueles que elegeram o Presidente Moersi. Muito mal-estar, e uma recusa de diálogo, acrescentaram-se a uma ausência de retoma económica, num contexto em que a situação da Líbia não está estabilizada e a Síria está em guerra civil. A tomada do poder pelo exército poderá reduzir a muito pouca coisa os ganhos democráticos da Praça Thair. Neste contexto, a região poderá criar problemas para o mercado petrolífero. As negociações com o Fundo Monetário Internacional estão paradas. As incertezas permanecem grandes e as reservas do Egipto reduzem-se a olhos vistos.
A interconexão entre os mercados é cada vez mais evidente. Nesta quinta-feira, 4 de Julho é feriado: os Estados Unidos celebram a sua independência. A reacção moderada de Wall Street data de antes do golpe de Estado no Egipto e já tinha dado sinais de fraqueza na sequência do declínio das bolsas europeias. A bolsa americana só retomara activamente na segunda-feira.
Tudo se desenrola tendo como tela de fundo uma situação económica precária. As nuvens amontoam-se através do mundo. Não será pois necessário muita coisa para acender o rastilho, para deitar fogo à pólvora.

