Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
Eurozona: Por quem tocam os sinos?
Georges Ugeux, Março de 2013
É claro que os sinos tocam em Chipre, que não tinha merecido nem este excesso de honra nem esta indignidade [1]. Mas nesta triste saga, os sinos tocam para os líderes da zona euro, cuja atitude provocou uma crise de que a Europa terá grande dificuldade em recuperar: levanta-se a questão da confiança. O acumular de maus julgamentos e de decisões indesculpáveis já não é apenas o resultado do simples erro. Ou então, tudo isto reflecte uma forma de incompetência dramática.
O Presidente do Eurogrupo grita ao hallali da União bancária da Europa. Jeroen Dijsselbloem levanta uma unanimidade de gente contra ele. O hallali é um grito de vitória na caça à raposa, para anunciar que a besta está completamente encurralada [2]. A sua declaração da vitória depois do chamado resgate de Chipre é a declaração de um caçador que matou a sua presa: Chipre não recuperará do tratamento que foi imposto pela Europa.
Ao anunciar que o acordo é um modelo para tratar os problemas bancários [3], o Presidente da zona euro fez saber ao mundo que agora se pretende ir aos bolsos dos depositantes com mais de 100 000 euros, tendo tomado consciência , um pouco tarde, que estava a dar um tiro no pé do “sagrado” princípio dos depósitos garantidos abaixo desse montante. A taxa a aplicar será de 40%? Na prática, isso significa que um depositante de montantes importantes (sejam investidores ou empresas ou até mesmo os bancos centrais) podem já não ter nenhuma confiança nos bancos europeus a partir do momento em que estes estão em apuros. Torna-se, portanto, urgente transferir para Frankfurt, Zurique, Londres ou Estocolmo estes depósitos ameaçados de confiscação. Esta é uma consequência directa do “princípio Dijsselbloem”, que já foi aplicado durante a nacionalização do SNS Reaal nos Países Baixos no ano passado.
Este princípio exclui toda e qualquer forma de garantia mútua dos depósitos bancários dentro da zona euro: se esta garantia tivesse sido eficaz durante a crise cipriota, ela teria forçado os bancos da zona euro a virem em socorro dos bancos cipriotas e a cobrirem-se os depósitos.
O acordo cipriota pode exacerbar a desconfiança entre os bancos
Estamos num momento muito delicado em termos de relações interbancárias europeias. As instituições financeiras estão cada vez menos confiantes umas nas outras . 684 mil milhões de euros com origem nos bancos da zona euro estão depositados junto do Banco Central Europeu. Os temores sobre a diminuição da liquidez bancária e, portanto, a dificuldade crescente para financiar a economia fazia-se sentir antes da crise.
Como nos diz hoje em grande título o Financial Times, a zona euro decidiu transferir o risco da crise dos contribuintes para os depositantes. Ela não terá mais do que os seus olhos para chorar quando o BCE esgotar a sua capacidade de financiamento dos bancos e em que os depositantes terão fugido da zona euro.
Se movimentos substanciais de depósitos para os países considerados sólidos devem ser verificados, os bancos espanhóis e italianos, em particular, encontram-se numa muito má posição, e esses movimentos só por si seriam susceptíveis de provocar uma crise de liquidez e com o seu corolário, uma crise de crédito. Eles na verdade devem alienar maciçamente títulos soberanos, italianos e espanhóis.
O espectro de uma nova crise Europeia aparece
Os observadores são unânimes: o efeito Mario Draghi agora é já passado. Como o BCE ainda não teve que intervir, não é um drama.
Mas, em face do enfraquecimento do sistema bancário europeu, a desconfiança aumenta. Esta inversão de marcha por parte de investidores e dos operadores de mercado terá consequências nefastas.
Entrámos já numa numa nova área de turbulência, pelo facto da inconsciência ou da incompetência de uma zona euro que não tem nenhum piloto dentro do avião e que só pensa em termos de curto prazo.
Este clube dos Ministros das Finanças cometeu, para além disso, um erro grave que agrava a sua situação: nomearam um holandês por uma questão de dosagem política. Jeroen Dijsselbloem era ministro das Finanças, mas somente desde 5 de Novembro de 2012 [4]. A zona euro tinha à sua disposição homens de uma outra têmpera.
Os europeus estão agora a questionarem-se sobre se as suas economias estão seguras e em boas mãos. Essa violação dos princípios básicos do direito bancário vai ensombrar a Europa por muito tempo. E isso, por 10 mil milhões de euros… de que quase 4 são imputáveis ao roubo colectivo dos bancos pela resolução da crise grega. Tinham-nos embalado com ilusões prometendo que isto seria um caso único… A pasta de dentes saiu da sua bisnaga: não existem já mais meios para refazer a situação, para voltar a colocar a pasta no sítio. O Presidente da zona euro, quer aplicar a mesma fórmula mágica para outros resgates de bancos.
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[1] Racine, Britannicus
[2] Wikipedia
[3]http://www.slate.com/blogs/moneybox/2013/03/26/jeroen_dijsselbloem_s_very_bad_day.html
[4] Der Spiegel levanta abertamente a questão da sua competência . Veja-se : .http://www.spiegel.de/international/europe/euro-group-head-jeroen-dijsselbloem-under-fire-for-cyprus-comment-a-891102.html


