O Pato, o Professor, o Ministro e o Inspector (o resto são figurantes)
Marília foi buscar a cadeira almofadada destinada às visitas. O ministro, do alto da sua insignificância, olhou o conclave. O olhar deteve-se no Pato:
– Um pato?
O Pato aclarou a voz e esclareceu:
– Saiba Vossa Serenidade que sou o agente de confiança do Professor.
O Professor resmungou:
– De confiança, de confiança… – O ministro sentou-se. Voltou-se para o Professor:
– Então o senhor é que foi o mestre do Álvaro…
O Pato apressou-se a intervir:
– Mestre, mas só de Economia! … As malandrices neoliberais, aprendeu-as com as más companhias.
O inspector Pais, em aparte, comentou:
– Embrulha!
O ministro olhou para ele:
– O senhor, quem é?
– Inspector Pais da Polícia Judiciária, tenente Pais na 3ª Companhia de Caçadores Especiais, às ordens de V.Exª, senhor ministro! – Pôs-se de pé e fez uma garbosa continência.
O Gaspar estava com aquele ar de alucinado que constitui a sua imagem de marca, parecendo permanentemente deslumbrado com a própria inteligência. Inteligência que somente na sua gasparina imaginação, é uma lenda. O Pais continuou as apresentações:
– O Dr. Filipe Marlove e a D. Marília, sua secretária; o escritor Sérgio Madeira, Sr. Esteves, agente de primeira classe da polícia Judiciária, o Professor e o galináceo…
O Pato engasgou-se indignado:
– Galináceo? Hom’essa! Sou um pato-marinho, da família dos anatídeos, da ordem dos anseriformes – corrigiu o Pato
O Pais ironizou:
– Tem graça, eu conheço é o Dr. Marinho, da família dos Pintos, da ordem dos Advogados…
O ministro pigarreou, tentando interromper as picardias:
– Mas foi o senhor Professor que me pediu para aqui vir…- o Pato grasnou:
– Fui eu que lhe dei a ideia…
O Professor, entre dentes:
– Ou te calas ou conto-lhe do milho painço – voltou-se para Gaspar – É verdade, senhor ministro… – Todos o olharam com curiosidade e surpresa o Prof continuou – Tenho uma prenda para Vossa Excelência… O Pato voltou a intrometer-se:
– Posso dar a minha prenda, primeiro? – o Professor acenou que sim, resignado.
O Pato tirou um terceiro envelope do bolso da gabardina – por fora a inscrição Kwa
O Pais arriscou:
– Outra gaja nua?
O Pato titubeou:
– Desculpe, Vossa grandeza, mas não encontrei nenhuma com eles nus…
– Não faz mal. Milton Friedman e Augusto Pinochet. Dois grandes homens. Obrigado. – voltou-se para o Professor:
E a sua prenda, Professor? – O ministro parecia um menino pobre na noite de Natal.
O Professor estendeu um dossiê e o Pais que estava ao lado de Gaspar passou-lho. Insistiu:
_ Gajas nuas? – perguntou o Pais.
– Não, uma obra importante e muito valiosa.
O rosto de Vítor Gaspar animou-se. Ansioso, questionou:
– Vale quanto no mercado dos produtos derivados, como colateral, como garantia, quanto vale nos mercados financeiros?.
O dossiê dizia na capa: Does High Public Debt Consistently Stifle Economic Growth? A Critique of Reinhart and Rogoff.
O ministro pegou nas folhas do documento e começou a ler. À medida que avançava na leitura ia ficando cada vez mais pálido. A certa altura levou as mãos à cabeça e caiu inanimado. Eez-se um grande silêncio. O Pato grasnou: